A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo Mateus 16,21-23 que corresponde ao 22° domingo do Tempo Comum, ciclo A do Ano Litúrgico. O comentário é elaborado por Ana Maria Casarotti, Missionária de Cristo Ressuscitado.
Naquele tempo, Jesus começou a mostrar a seus discípulos que devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei, e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia. Então Pedro tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo, dizendo: "Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!" Jesus, porém, voltou-se para Pedro, e disse: "Vai para longe, satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens!" Então Jesus disse aos discípulos: "Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois, quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la. De fato, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida? O que poderá alguém dar em troca de sua vida? Porque o Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a sua conduta".
No domingo passado, o Evangelho nos convidava a nos deixarmos tocar pela pergunta de Jesus: “Quem dizem que eu sou?” Era simples responder à primeira pergunta — que Jesus também havia feito aos discípulos, sobre a opinião do povo: “Quem dizem as pessoas que eu sou?”. Os discípulos, assim como nós, podem dizer muitas coisas, mas que não comprometem nossa vida; são apenas comentários externos, afirmações, opiniões de “outros”.
Para nos adentrarmos no texto deste domingo, é-nos útil responder novamente à pergunta de Jesus: “Quem dizem vocês que eu sou?”. Nossa vida está realmente apoiada em Cristo, a pedra angular, o alicerce da nossa fé? São Pedro nos diz: “Como pedras vivas, vocês participam da construção de um edifício espiritual” (1 Pe 2,5). Como novo povo de Deus, nós, cristãos, somos chamados a caminhar com os pés bem plantados na sociedade em que vivemos, com suas alegrias e dores.
O texto que a liturgia nos apresenta neste domingo nos convida a seguir o caminho de Jesus, que se dirige a Jerusalém. Pedro o proclamou como Messias, mas qual era a compreensão que ele tinha do Messias?
O entendimento do Messias em Jesus requer uma avaliação que ultrapasse as expectativas históricas do povo de Israel. A tradição judaica cultivava a esperança de um Messias salvador terreno, uma figura que apareceria com poder político e militar para derrotar os inimigos e restituir a soberania nacional. Essa expectativa estava profundamente cravada na memória coletiva, forjada por opressões sucessivas e pela busca de segurança diante das ameaças externas.
“E Jesus começou a mostrar aos seus discípulos que devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos.”
Estas palavras revelam uma ruptura com o modelo messiânico esperado. A ida a Jerusalém não se configura como uma andança triunfal, mas como caminho de sofrimento e rejeição a proposta que traz Jesus. Os discípulos, conscientes da hostilidade dos escribas e anciãos do Templo, percebem que a missão de Jesus não será aceita. Eles sabem que ali ele não será acolhido; ao contrário, será rejeitado pelos escribas e pelos anciãos do Templo. A rejeição, longe de ser um obstáculo, torna-se parte constitutiva da identidade messiânica. Assim, Jesus desloca o eixo da esperança: o Messias não é aquele que liberta pela força das armas, mas pela entrega radical e pela fidelidade a Deus, mesmo diante da morte.
"Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!"
Pedro repreende Jesus e nas suas palavras percebemos a tensão entre a expectativa messiânica tradicional e a proposta inédita apresentada por Jesus. Pouco antes, Pedro havia confessado sua fé reconhecendo-o como Messias, mas ao ouvir o anúncio do sofrimento e da morte, rejeita imediatamente essa possibilidade.
A atitude de Pedro evidencia a dificuldade de aceitar um Messias sofredor. Ele não pode aceitar as palavras de Jesus por isso, ao escuta-lo, afasta-o do grupo e tenta persuadi-lo a abandonar tal ideia. Pedro acredita que Jesus deve mudar de posicionamento! Sua repreensão nasce da convicção de que o caminho do sofrimento é incompatível com a imagem de Messias que ele e muitos compartilhavam. A reação de Pedro torna-se paradigmática, pois reflete a resistência humana diante de um modelo de vida que se fundamenta no amor e na renúncia, e não na força.
Qual é a nossa própria ideia sobre Jesus? Como concebemos sua atuação diante do sofrimento, da opressão e da desigualdade que persistem em tantas sociedades? Qual é a nossa noção de justiça e de amor levado ao extremo, tal como Jesus o encarnou?
Jesus disse aos discípulos: "Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois, quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la.
Assim como os discípulos participaram do poder de Jesus, agora Ele lhes propõe que sigam o mesmo caminho. A fidelidade a Ele traz consigo circunstâncias de incompreensão, de dor e até mesmo de morte, como vemos na história da Igreja. Não se trata de uma dor auto imposta, como se pode observar em alguns momentos da vida de certos cristãos, mas sim do próprio sofrimento que acompanha a defesa da vida, da justiça e dos que vivem em situações de extrema pobreza. Nós, cristãos, somos chamados a nos colocar ao lado deles para defender seus direitos e colaborar na construção de um mundo que privilegie a vida e a pessoa humana e denuncie as diversas opressões e escravidões que assolam nosso mundo.
Na Mensagem do Santo Padre Leão XIV para o 10º Dia Mundial dos Pobres disse: “Os pobres dos nossos dias são os esquecidos e os marginalizados: privados de uma palavra e de um rosto, e não só do pão. Que eles possam encontrar o Filho de Deus, que se faz próximo de todos sem deixar ninguém de lado [...] À obsessão daqueles que acumulam riquezas apenas para si opõe-se a obstinação de Deus que, no testemunho de pessoas de carne e osso, abre o coração e acolhe no seu amor. Em Cristo, portanto, também nós somos chamados a tornarmo-nos pobres e a sermos refúgio para os pobres. A comunidade cristã não pode permanecer insensível perante tantos que hoje se encontram à porta e permanecem invisíveis para aqueles que estão fechados entre as suas próprias paredes.
O caminho que Jesus apresenta aos discípulos é o caminho que toda comunidade cristã é chamada a trilhar. Jesus disse: “Se alguém quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”. O que significa renunciar a si mesmo? Jesus nos apresenta um modo de vida. É um convite constante a deixar de lado nosso ego, a busca de nossos interesses particulares e a realização pessoal como eixo de nossa vida, mesmo que ela esteja revestida de grandes projetos pastorais e sociais. Seu caminho nos mostra isso claramente, embora muitas vezes tentemos reduzi-lo a duas ou três atividades. Ele nos apresenta uma maneira de segui-lo!
Escutamos seu convite e deixamos que continue a interpelar nossa vida
Deus de Jesus
Jesus de Nazaré,
que Deus nos revelaste?
Não construíste uma arca como Noé
para salvar-te com os justos.
Não edificaste como Salomão
um templo morada de Javé.
Não conduziste como Moisés
um povo à terra prometida.
Não tiveste como Abraão
uma constelação de descendentes.
Tu, Jesus
afogado no dilúvio
vida derramada pelas ruas,
templo desmoronado
em teu corpo indefeso,
geografia sem fronteiras
e sem punho proprietário,
povo universal
latejando em todo sangue
que Deus nos revelaste?
Jesus de Nazaré
limitado e corporal,
universal e justiçado,
o único futuro
tão presente,
que Deus nos revelaste?
Benjamin Gonzalez Buelta
Salmos para sentir e saborear as coisas internamente