Cristo, o caminho da liberdade (Jo 14,1-12)

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Por: André | 17 Mai 2014

A Igreja deve sempre propor esse caminho de Liberdade no qual se encontra uma multidão de mulheres e homens, com sua história e realidade. Não cabe, pois, à Igreja levantar muros para impedir algumas pessoas de caminhar; cabe a ela, no entanto, construir pontes para facilitar o acesso à estrada e para atravessar as torrentes da vida. A Igreja não é dona da estrada; ela deve ajudar as pessoas a caminhar e avançar.

A reflexão é de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 5º Domingo da Páscoa – Ciclo A do Ano Litúrgico. A tradução é de André Langer.

Referências bíblicas:
Primeira leitura: At 6,1-7
Segunda leitura: 1Pd 2,4-9
Evangelho: Jo 14,1-12

Eis o texto.

Após três domingos em que os evangelhos nos faziam um retrato do Ressuscitado, temos agora dois outros domingos em que o evangelho de São João nos recorda a missão cristã, que consiste em traduzir em nossas vidas o agir do Cristo da Páscoa. Através do que chamamos de discurso de despedida de Jesus (Jo 14-17), os cristãos de ontem e de hoje são investidos do Espírito de Cristo e são chamados a transformar o mundo. Nós somos imagens de Cristo; somos a presença do Ressuscitado. Por isso, a Igreja deve constantemente se adaptar às realidades do mundo; caso contrário, como podemos afirmar que Cristo está vivo em seus discípulos hoje?

Mas, atenção! Esse discurso de despedida parece ter sido pronunciado pelo próprio Jesus na noite da Quinta-Feira Santa, durante a última ceia com seus discípulos, exatamente antes da sua prisão e condenação... Mas, não é o caso, porque o conteúdo desse discurso reflete a luz da Páscoa. João o escreve muito tempo depois da Páscoa, e não é Jesus quem fala, mas o Cristo vitorioso sobre a morte, que continua sua ação, seu agir, através dos crentes da comunidade de São João. Em outras palavras, as perguntas feitas por Tomé e Filipe no evangelho de hoje são as perguntas das primeiras comunidades que encontram dificuldades para crer na Ressurreição de Jesus e para compreender as implicações da Ressurreição em sua vida diária.

E para nós, que relemos esses relatos, que mensagens podemos tirar para nós hoje?

1. Confiança

São João começa por tranquilizar os cristãos da sua comunidade que sofrem perseguições e que esperam em vão o retorno de Jesus em sua glória: “Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também” (Jo 14,1). A morte não pode ser o fim de tudo; de sorte que, se Jesus morreu, portanto partiu, é para nos preparar um lugar na casa do Pai, e nessa casa do Pai há lugar para todo o mundo. Lá, há lugar para todas e todos. Ninguém é excluído.

2. Por-se a caminho

Para chegar à casa do Pai basta simplesmente por-se a caminho, sem saber para onde nos leva: “E para onde eu vou, vós conheceis o caminho” (Jo 14,4). É muito estranho, diz o exegeta francês Jean Debruynne: “Quando começamos a preparar uma viagem, a primeira coisa que nos vem ao espírito é: para onde vamos? E depois nos perguntamos: como vamos até lá? Jesus, curiosamente, vem mudar e inverter a lógica dada e os hábitos adquiridos. Esse texto de São João revela que o importante não é saber para onde vamos ou o que é preciso dizer ou o que é preciso fazer para ser fiel ao evangelho. Não! O texto de São João nos diz que o evangelho é um caminho. E o que mais urge no evangelho não é saber para onde vamos, mas colocar-se a caminho. O urgente não é atingir o objetivo: o verdadeiro objetivo é estar sempre a caminho”. É por isso que, à pergunta de Tomé: “Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?” (Jo 14,5), Jesus simplesmente responde: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14,5).

3. Um caminho a ser descoberto

O caminho não está traçado antecipadamente. Se esse fosse o caso, seria um atentado à liberdade. É caminhando que se descobre o caminho. Jean Debruynne continua: “Para onde vão os cristãos? Eles, simplesmente, vão. Eles caminham, eles estão no caminho, os de idade mais avançada com os mais jovens e as crianças com os adultos. Todas e todos estão a caminho. Cada qual com seu passo, cada um com sua história, cada um com suas dúvidas e questionamentos”. E é bem assim; porque se tivéssemos a certeza de estar no caminho certo e a pretensão de conhecê-los antecipadamente, nós adoeceríamos em nossas certezas, nos obstinaríamos em nossas verdades feitas e recusaríamos a Liberdade. Debruynne escreve: “Quando os caminhos já estão traçados, tornam-se rapidamente prisões, porque não são mais que slogans, fanatismos, sistemas e doutrinas; esse caminho está traçado, mas o homem perdeu sua humanidade, porque foi forçado a renunciar à sua liberdade”.

4. Um caminho de Liberdade

No evangelho de São João, o caminho não é uma doutrina; é uma pessoa, é alguém, é o próprio Jesus. Nós, seus discípulos, somos sua imagem, aqueles que garantem sua presença hoje. Jean Debruynne continua: “Jesus disse que é o caminho, a verdade e a vida. A aliança dessas três palavras diz simplesmente que a verdade não pode ser uma torre onde se isolar, nem uma cidadela a defender; a verdade é um caminho, isto é, um percurso, um trajeto, uma passagem aberta”. E eu acrescentaria: uma passagem aberta na vida. É por isso que a Igreja deve sempre propor esse caminho de Liberdade no qual se encontra uma multidão de mulheres e homens, com sua história e realidade. Não cabe, pois, à Igreja levantar muros para impedir algumas pessoas de caminhar; cabe a ela, no entanto, construir pontes para facilitar o acesso à estrada e para atravessar as torrentes da vida. A Igreja não é dona da estrada; ela deve ajudar as pessoas a caminhar e avançar.

À pergunta de Filipe: “Senhor, mostra-nos o Pai, isso nos basta!” (Jo 14,8), o Cristo ressuscitado se identifica com o Pai: “Há tanto tempo estou convosco, e não me conheces, Felipe? Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14,9). “Como é que tu dizes: ‘Mostra-nos o Pai’? Não acreditas que eu estou no Pai e o Pai está em mim?” (Jo 14,10a). Esta palavra do evangelho nos diz, portanto, que através do Cristo da Páscoa é o próprio Deus que age (Jo 14,10b). E aí há uma precisão importante do evangelista João sobre a palavra dita e sobre a palavra que age. Podemos não acreditar numa palavra dita, mas devemos necessariamente acreditar nos seus efeitos e nos seus resultados, e os efeitos da palavra que age são os próprios cristãos que se tornam os sinais da presença do Ressuscitado em suas vidas, no caminho da sua existência. O Jesus ressuscitado se dá a ver para aqueles e aquelas que realizam as mesmas obras que ele. E o evangelho acrescenta: “Aquele que acredita em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas. Pois eu vou para o Pai” (Jo 14,12).

Se Jesus partiu e nós somos os sinais da sua presença atuante na Igreja de hoje, não devemos ter medo de nos adaptar às circunstâncias, às situações, às realidades e ao tempo em que vivemos, a fim de responder às necessidades e às questões das mulheres e dos homens de hoje. Na primeira leitura deste domingo, temos um belo exemplo de adaptação e de ajustamento à causa dos acontecimentos vividos na Igreja do primeiro século. Os discípulos de Jesus aumentam em número e em diversidade, faltam ministros para alimentá-los e reanimá-los. Os responsáveis, os Doze, pois, convocam uma assembleia extraordinária e criam novos ministérios para responder às novas necessidades das comunidades cristãs. O que acontece hoje em nossa Igreja, quando temos dificuldades para nos adaptar ao mundo para responder às muitas dificuldades das nossas comunidades? Será que as regras e as doutrinas não estão sendo mais importantes do que as pessoas? Há assunto para muita reflexão!

Concluindo, quando Jesus disse, no evangelho, que ele é o caminho, a verdade e a vida (Jo 14,6), a aliança dessas três palavras diz que a verdade do evangelho não é uma doutrina na qual podemos nos fechar, nem um dogma a defender; a verdade é um caminho, um percurso, um trajeto, uma passagem aberta, na qual Cristo nos encontra para nos transmitir sua vida de Ressuscitado. Jean Debruynne conclui: “Nós devemos caminhar sempre independentemente da idade que tivermos... mesmo quando as pernas não querem mais, os corações vão na frente. Não há idade para trilhar o evangelho”.

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