Irmãs Religiosas do Vaticano queixam-se do salário e da servidão aos homens da Igreja

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05 Março 2018

A revista do Vaticano para o público feminino, a Women Church World, expôs, na sua edição de Março, a forma servil como são tratadas algumas freiras pelos cardeais e bispos da Igreja Católica, para quem trabalham e cozinham a troco de quase nada.

A reportagem é publicada por Público, 01-03-2018.

O artigo central da revista publicada pelo Osservatore Romano, intitulado “O trabalho (quase) gratuito das freiras”, é assinado pela jornalista francesa Marie-Lucile Kubacki, a correspondente em Roma da revista La Vie, do grupo Le Monde. A editora da revista é Lucetta Scaraffia, professora de História da Universidade La Sapienza, em Roma. “Até agora ninguém teve a coragem de denunciar estas coisas” publicamente, disse à AP. Scaraffia contou à AP que o Papa Francisco lhe disse que lê e gosta da revista.

“Algumas deles servem nas casas de bispos e cardeais, outras trabalham nas cozinhas das instituições católicas ou ensinam. Há quem, para servir os homens da Igreja, se levante de manhã para fazer o pequeno-almoço e só se deite quando estiver tudo limpo, a roupa lavada e engomada”, diz a irmã Maria, nome fictício. Acrescentou que as freiras servem o clero mas “raramente são convidadas a sentar-se nas mesas que servem”.

A falta de salário digno para o trabalho desempenhado não é novidade na Igreja Católica, mas a Women Church World foi pioneira na forma como o abordou. No artigo principal, expõe-se a falta de contratos das mulheres que vão para os prelados. Quando adoecem, as trabalhadoras são enviadas de novo para a congregação e rapidamente substituídas por outras.

A editora diz querer dar voz a estas irmãs, mas conta-se entre as exploradas da Igreja Católica: afinal de contas, os redatores e os editores da revista trabalham gratuitamente. A revista foi fundada com dinheiro dos correios italianos e paga aos seus colaboradores pelos artigos, mas sai todos os meses devido ao esforço gratuito dos editores.

freiras com intelectos brilhantes que prosseguem estudos, mas não podem pô-los em prática, uma vez que o avanço em termos pessoais é desencorajado, explicou a irmã Paule (nome fictício) à revista. “Por detrás está sempre a ideia infeliz de que as mulheres valem menos do que os homens, e de que os padres são tudo na igreja e de que as irmãs não são nada”, acrescentou.

A razão para o silêncio de muitas freiras é o facto de virem de longe, dos continentes africano, asiático ou sul-americano, fazerem os seus estudos religiosos no Vaticano pagos pelas congregações. Sentem-se em dívida e por isso não se querem queixar do trabalho que desempenham: “Elas sentem-se em dívida, amarradas, e por isso mantém-se caladas”, disse a irmã Maria, que também foi de África para Roma para prosseguir os estudos.

A revista tem feito opções editoriais que não agradaram a todos na Igreja Católica. O número de Março de 2016, sobre o tema Mulheres que Pregam, tinha um artigo em que se defendia que as freiras deviam poder dar homilias. A autora do artigo teve de se defender publicamente e dizer que não queria sugerir uma mudança nem na doutrina nem na prática. O número de Dezembro de 2017 explorou o tema O Poder Simbólico do Corpo Feminino e a violação enquanto forma de tortura.

A edição deste mês explora temas como as diferenças salariais de gênero e a falta de mulheres em posições de chefia. O movimento sul-americano Ni Una Menos, contra o femicídio e a violência contra as mulheres, também teve espaço nesta edição da Women Church World.

O Papa Francisco não é alheio a estes temas – na visita ao Peru denunciou o femicídio e a violência contra as mulheres, comum na América do Sul, onde nasceu. Também tem pedido, frequentemente, que se dignifique o trabalho feminino e o salário.

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