Ressuscitou Antonio Cecchin, um homem movido à fé e ao amor de Deus

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18 Novembro 2016

"No dia do seu sepultamento, entretanto - um dado raro nessa espécie de despedida - estavam pessoas chorando a sua morte, as mesmas que ele tinha criticado duramente e, em alguns casos, rompido relações de companheirismo. Foi um reconhecimento público de que sempre agiu, certo ou errado, com reta intenção, motivado por estrita fidelidade ao Deus da vida", escreve Jacques Távora Alfonsin, procurador aposentado do estado do Rio Grande do Sul e membro da ONG Acesso, Cidadania e Direitos Humanos.


Antonio Cecchin

Eis o artigo.

Dia 16 deste novembro o religioso irmão marista Antonio Cecchin partiu para a eternidade. Contava 89 anos de uma vida toda de dedicação às/aos pobres, vítimas do desamor e da injustiça. Dizendo irmão, talvez se diga tudo a seu respeito. De ouvido, coração, palavra e prestação de serviço muito afinados com o Amor de Deus, cumpriu a advertência do Salvador aos seus apóstolos e discípulos: “Aquilo que fizerdes ao menor dos meus irmãos, a Mim o fareis.”

Junto com a sua irmã Matilde, assessorado quase sempre por cristãs/os leigas/os, identificou Deus Encarnado e ainda Crucificado em todas as pessoas miseráveis, pobres, perseguidas, desprezadas e humilhadas como Ele. Meteu-se junto delas, com elas rezou, discutiu, sofreu e penou os efeitos da opressão e da injustiça, sem jamais se dobrar a uma e a outra.

Com as/os índias/os, violentadas e desapossadas de suas terras, procurou restaurar nelas/os a inconformidade, a coragem, a indignação e a rebeldia de seu ancestral Sepé Tiaraju; com as/os sem-teto e sem-terra, apoiou a CPT (Comissão Pastoral da Terra) e o MST em seus acampamentos, ocupações, romarias, escolas itinerantes, campanhas pelas reformas agrária e urbana; com as/os quilombolas e afro descendentes, tratou de recuperar a cultura, os costumes, as celebrações e festas próprias desse povo, vítima de preconceito e racismo. Com as/os catadoras/es de material, valorizou de forma pioneira e surpreendente o extraordinário valor do seu trabalho em defesa da saúde pública, da higiene, do meio-ambiente, auxiliando a sua organização coletiva em associações e galpões de reciclagem.

Catequista, trouxe para o Brasil o resultado de estudos que fez na França, assessorou trabalhos da Igreja no Vaticano, montou cartilhas, escreveu livros, criou novas formas de manifestação pública de espiritualidade e religião, com extraordinária habilidade pedagógica de linguagem e gestos acessíveis à cultura, à compreensão, ao gosto e à vivência do povo simples.

Muito aberto ao ecumenismo, à defesa da natureza, teve a felicidade de ver o seu trabalho verdadeiramente missionário refletido e apoiado no modelo pastoral do Papa Francisco.

Pouca gente sabe disso, mas o irmão Antonio era também advogado, um dos poucos dados sobre o qual ele se permitia bom humor, rindo de si próprio, pois dizia nunca ter exercido, de fato, a profissão. Justamente nisso, porém, ele pode ter-se enganado. Têm fé as/os cristãos como ele, que o Espírito Santo é paráclito, uma expressão que caracteriza defensor, advogado, alguém que socorre gente ainda sem proteção da sua dignidade.

Antonio nos permita essa ousada comparação. Para nós, ele foi um competentíssimo e exemplar advogado, um advogado de uma outra advocacia, toda inspirada em outra cidadania, um outro regime de igualdade, liberdade e fraternidade. Uma democracia de um outro “Estado”, um outro “Reino”, um fermento de solidariedade das/os filhos de Deus, onde amor, misericórdia, graça e perdão, por exemplo, são palavras de sentido muito diferente daquele que o ordenamento jurídico do Estado laico só cogita com muita relutância.

Justiça, então, para a advocacia do Antonio, se refere à coisa muito distinta da mera e estreita aplicação da lei. Sem reconhecê-la como monopólio exclusivo do Estado, ele a construía junto com o povo pobre, defendendo-o com extraordinário denodo e zelo apostólico. Um zelo próprio da radicalidade de profetas, permita ele também essa ofensa à sua humildade e modéstia. Como milhares de advogadas/os do passado, justo por proceder como ele em defesa desse povo, o irmão Antônio foi preso e torturado pela repressão da ditadura militar, enfrentou incompreensões de todo tipo por parte do Poder Público e da própria hierarquia eclesiástica, indispôs-se até com parceiras/es do seu trabalho pastoral.

No dia do seu sepultamento, entretanto - um dado raro nessa espécie de despedida - estavam pessoas chorando a sua morte, as mesmas que ele tinha criticado duramente e, em alguns casos, rompido relações de companheirismo. Foi um reconhecimento público de que sempre agiu, certo ou errado, com reta intenção, motivado por estrita fidelidade ao Deus da vida.

Os movimentos populares, as CEBS (comunidades eclesiais de base), muitas organizações de gente interessada em se unir a permanente e indormida campanha de defesa dos direitos humanos, contra todo o mal e toda a injustiça, costumam iniciar e encerrar suas reuniões com um grito forte do nome de alguém já falecido, cuja vida tenha servido de exemplo das virtudes próprias indispensáveis à coragem, ao heroísmo, às vezes até ao sacrifício da própria vida, como aconteceu com Jesus Cristo.

Procuram reencarnar, assim, a animação, o entusiasmo, o interesse, o espírito, os desejos todos das suas razões de existir, enfrentar as injustiças com energia e paixão iguais ao da/o falecida/o. Ao grito desse nome, todas/os as/os participantes, às vezes dando-se as mãos e rezando, costumam responder em uníssono: presente!
Que este querido amigo e irmão nos permita prestar essa homenagem agora, porque talvez não exista melhor testemunho de existência, mesmo, da ressurreição. Antonio Cecchin: Presente!

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