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23 Setembro 2016

"Diante da violência das guerras, das mudanças climáticas e da arrogância da apropriação de terras, o papel de milhões de agricultores de pequena escala que, na África, tomam nas mãos com responsabilidade os destinos das comunidades locais e de uma saudável economia territorial é decisivo para oferecer respostas sérias, credíveis e de amplo fôlego."

A opinião é do chef italiano Carlo Petrini, fundador do movimento Slow Food, em artigo para o jornal La Repubblica, 22-09-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Causou muita discussão o claro posicionamento de Matteo Renzi [primeiro-ministro italiano] na sequência da cúpula europeia de Bratislava, na semana passada, com as suas duras críticas contra o impasse político sobre a questão dos migrantes e pela total ausência, naquele fórum, de qualquer mínima referência ao tema da África. A medida do primeiro-ministro foi até qualificada por alguns como arrogante e exagerada, quase de baixo nível.

Eu acho, ao contrário, que nunca como neste momento e sobre esse tema específico a voz do primeiro-ministro italiano devia ser tão clara e tão decidida, sem lugar para qualquer tipo de acomodação.

Uma Europa que não é capaz de tomar uma posição clara e de buscar uma política resoluta de diálogo e colaboração com o continente africano, deixando Grécia, Itália e os outros países da fronteira sul na vanguarda da gestão dos fluxos, quase como se fossem problemas nacionais, é o verdadeiro nó político deste momento histórico tão complexo.

Até porque é preciso dizer que há pouca informação sobre as dinâmicas sociais e demográficas em curso na África, dinâmicas que levarão o atual bilhão de africanos (correspondente a 15% da população mundial) a se tornar, de acordo com projeções estatísticas compartilhadas, 1,8 bilhão em 2050 e a corresponder, portanto, a 25% da população mundial.

Além disso, se observarmos que a África tem a população mais jovem do mundo, com dois em cada três cidadãos com menos de 25 anos, é preciso reconhecer que, nos próximos anos, 15 milhões de jovens africanos por ano vão se assomar ao mercado de trabalho.

Esses são os fatos, e não há dúvida de que uma política míope por parte da Europa, que também carrega responsabilidades históricas enormes em relação ao desenvolvimento africano (em primeiro lugar, o colonialismo e o neocolonialismo que, durante séculos, saquearam e exploraram selvagemente os recursos desse continente), leva e levará cada vez mais, no futuro, a pagar o preço de um êxodo de proporções cada vez maiores.

Isso porque não se pode forçar milhões de jovens a ficarem em países sem perspectivas e sem trabalho, especialmente quando essa situação é criada por injustiças perpetradas ao longo dos anos justamente por aqueles países ocidentais que hoje constroem muros, sejam eles feitos de tijolo ou de leis. Não só a Europa deverá encontrar respostas adequadas, mas também deverá fazê-lo rapidamente.

Se, por um lado, a política, como escrevia Ezio Mauro há alguns dias neste mesmo jornal, tem a tarefa inevitável de enfrentar os temas da segurança e da solidariedade, por outro, deve-se introduzir o tema da fraternidade precisamente no seio do próprio debate público. Não é poesia nem mesmo utopia ingênua, isso é realpolitik.

Nos dias em que, em Turim, abre-se a Terra Madre, a grande cúpula dos agricultores do mundo, a centralidade do continente africano e a importância, em seu interior, de um setor agrícola vital que vai da agricultura de subsistência às grandes fazendas agrícolas intensivas, nos chama a uma reflexão sobre um processo de apoio às economias locais que a Europa, não por caridade pretensamente desinteressada, mas quase por um dever de responsável "restituição", deve ter a coragem de implementar. Um esforço de cooperação séria, nesse sentido, pode ser uma grande alavanca de mudança, um passo real na direção da equidade e da justiça.

Diante da violência das guerras, das mudanças climáticas e da arrogância da apropriação de terras, o papel de milhões de agricultores de pequena escala que, na África, tomam nas mãos com responsabilidade os destinos das comunidades locais e de uma saudável economia territorial é decisivo para oferecer respostas sérias, credíveis e de amplo fôlego.

E, sobre isso, as instituições europeias e nacionais não podem permanecer em silêncio e inativas, porque, nesse processo, também se joga o futuro do velho continente e dos seus habitantes.

Se segurança e solidariedade são os pilares do mandato político, estes não podem subsistir sem a fraternidade que constitui a sua base. Citando Edgar Morin, "eu tenho fé no amor, na fraternidade, na amizade (…) Devemos ser irmãos justamente porque estamos perdidos".

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