Os oito “silêncios” do Papa Francisco no México

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Por: Jonas | 25 Fevereiro 2016

O papa Francisco teve grandes silêncios durante sua visita. Pouca surpresa. Na vida do católico, ainda mais quando é um místico, a palavra nasce do silêncio. Não do silenciar covarde, mas, sim, do que brota da contemplação. Só assim podem se pronunciar as “palavras boas que nos ajudam a viver bem”, como disse uma senhora de Ecatepec, entrevistada por acaso pelo Canal 40. O mesmo silêncio que faz a “palavra de Deus entrar no coração”, conforme disseram os índios de Chiapas, durante a liturgia presidida por Francisco. Haverá tempo de explanar com calma suas palavras. No momento, vamos nos ocupar com os silêncios.

A reflexão é de Jorge E. Traslosheros, publicada por Criterio, 23-02-2016. A tradução é do Cepat.

Primeiro. Após a recepção de Estado, no Palácio Nacional, e de receber as chaves da Cidade como hóspede distinto, Francisco entrou na catedral pela porta do jubileu até parar em frente ao Cristo Negro, grande devoção popular no México, no Altar do Perdão. Permaneceu em silêncio, durante vários minutos, para desespero das redes de televisão. Marcou os tempos. Deixava o mundo profano para se adentrar em seu desejado encontro com o povo fiel de Deus que peregrina no México. A partir daquele momento, iniciou conversas e encontros com bispos, presbíteros, diáconos, religiosas, leigos, crianças, doentes, anciãos, deficientes, imigrantes, homens e mulheres de boa vontade. Não houve pessoa, setor social ou problema que tenha ficado alheio ao seu olhar. Iniciou como se deve: a partir da contemplação do Senhor da Misericórdia.

Segundo. Na tarde do primeiro dia, compareceu ao seu desejado encontro com a Virgem de Guadalupe, grande devoção de seu coração. Durante a homilia, animou-nos a escutar Maria para atuar como o índio Juan Diego, o menor de seus filhos, e mudar nossa realidade sem medo, confiados Àquele a quem a Guadalupana anunciava do Tepeyac. Ato seguido, fez-se um com a assembleia e chamou à contemplação de Maria. Ao terminar a liturgia, dirigiu-se ao local que guarda a imagem, até ficar só diante de Guadalupe. Durante meia hora, tornou próprio o hino litúrgico recitado durante sua homilia: “Olhar-Te simplesmente Mãe, deixando aberto só o olhar; olhar-Te toda, sem Te dizer nada, e dizer-Te tudo, mudo e reverente”.

Terceiro. Em Ecatepec, meditou sobre o silêncio de Jesus de Nazaré frente às tentações de poder, fama e riqueza que Satanás coloca a seus pés. Silencia Jesus para que sejam as palavras do Pai as que respondam. Com o Demônio não se fala, disse-nos o Papa; responde-se com o nosso silêncio, porque “somente a força da palavra de Deus pode derrotá-lo”. E foi essa Palavra feita carne de nossa carne que derrotou os demônios.

Quarto. Durante sua visita ao Hospital infantil “Federico Gómez”, uma jovem adolescente o deteve frágil, titubeante, para sussurrar algumas palavras no ouvido do Papa, que concordou com a cabeça. Ficou calado, na expectativa. Ela retornou ao seu lugar e, com voz prodigiosa, entoou a Ave Maria de Schubert. Da dor nasceu o louvor e do silêncio o canto.

Quinto. Em Chiapas, presidiu uma liturgia feita cultura nos índios; mas discretamente se ocultou para lhes deixar o protagonismo. Eles são a palavra de Deus nascida do silêncio, do abandono, do esquecimento, da exploração e do desprezo. São a Igreja em uma de suas multiformes manifestações, unidas por uma só eucaristia, que se expressa nas mais diversas línguas, todas com igual dignidade, porque dignas são as pessoas que as pronunciam. Depois, a silenciosa oração de reverência diante a sepultura do pastor bom Samuel Ruiz, sinal de uma Igreja em saída, ousada e acidentada, que soube reconhecer seus erros e purificar a experiência. Dois pastores com cheiro de ovelha nas montanhas de Chiapas: Samuel Ruiz e Felipe Arizmendi.

Sexto. Guardou prolongado silêncio no momento de consagrar o vinho no mesmo cálice utilizado por dom Vasco de Quiroga. Contemplação que nos permitiu adentrar na viva presença da memória do Tata. Francisco apresentou dois mestres para aprender, com seu exemplo, a ser Igreja: o índio Juan Diego para os leigos, católicos de pé, e do bispo fundador para os pastores. Esta é a Igreja que surge do silêncio reverente diante do sangue de Cristo.

Sétimo. Durante o encontro com a juventude em Morelia, em meio ao estrondo e gritaria, o olhar do Papa recai sobre duas adolescentes com síndrome de Down. Sorri. Convida-as para subir no palco, mas elas não acreditam até que os auxiliares lhes estendem a mão. Correm ao encontro de Francisco, rompem em pranto de alegria e os três se fundem em um entranhável abraço. Um momento sem palavras e uma longa e contundente denúncia contra a cultura do descarte, que considera essas vidas, tão cheias de alegria, como descartáveis e “indignas de ser vividas”.

Oitavo. O silêncio em Ciudad Juárez, diante da simples cruz dos imigrantes, justamente na fronteira com El Paso. Nos dois limites se congregou a Igreja dividida pelos muros da injustiça, mas unida em uma só comunhão. Em silêncio, apoiado no báculo que os presos lhe presentearam, naquela manhã, aproximou-se em procissão para celebrar sua última liturgia no México. De sua memorável homilia, cume de sua visita pastoral, nasceu minha profunda necessidade de silêncio na dor, no gozo e na esperança. No oitavo dia de sua entrada em Jerusalém, Cristo ressuscitou.

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