Lugo: um desafio ao glifosato

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10 Julho 2009

Era a primavera de 2003 quando Silvino Villasboa morreu, com apenas 11 anos, por envenenamento causado por exalações tóxicas provocadas por produtos agroquímicos utilizados nas plantações de soja próximas da comunidade paraguaia de Pirapey, departamento de Itapúa. É o único dos quais conhecemos o nome, mas, segundo uma nota da agência latino-americana Adital, as crianças em terra guarani continuam morrendo, e muito nascem com mal-formações por causa dos 24 milhões de litros de produtos agrotóxicos utilizados anualmente no Paraguai.
Um país onde 77% das terras – de um total de 406.752 quilômetros quadrados – estão nas mãos de 1% da população, e, a cada ano, 1.250 hectares dessas terras são utilizados para cultivar soja, particularmente a variedade Roundup Ready (da Monsanto), geneticamente modificada para resistir ao herbicida Roundup (este também produzido pela Monsanto, que mantém a liderança de vendas apesar de a suas patente ter caído – em 1994 na Europa e no ano 2000 nos EUA – e de a sua produção ter sido aberta a outras empresas), com o qual ela é abundantemente pulverizada: é um herbicida a base de glifosato misturado com uma substância tensoativa denominada polioxietileno-amina (Poea). Porém, a mesma tolerância das sementes ao glifosato não é dada aos humanos.

Uma pesquisa da Sociedade Paraguaia de Pediatria, realizada entre março de 2006 e fevereiro de 2007 em Itapúa, descobriu que 40% das crianças nascidas de mães que entraram em contato direto ou indireto com agrotóxicos nasceram com mal-formações, mulheres que, durante a gravidez, viviam a menos de um quilômetro dos cultivos de soja.

Fernando Lugo, em abril assinou o decreto nº 1937/09, que ordena medidas para um uso adequado de pesticidas na produção agropecuária. Mas já no mês seguinte, em maio, o senado paraguaio aprovou a lei sobre o "Controle dos produtos fitossanitários para uso agrícola", em clara oposição ao decreto presidencial – isso foi possível porque Lugo, no parlamento, não tem a maioria.
O choque entre os dois poderes do Estado gera expectativas, e muitos se questionam o que Lugo fará no fim, se assinará ou rejeitará essa norma legislativa a favor do seu decreto, desafiando a ameaça de greve dos latifundiários.

(cfr. notícia do dia 10-07-09, desta página).