16 Junho 2011
Ao contemplar a paisagem do jardim do mosteiro, o padre Jean-Pierre lê ali as três dimensões da vida que compartilha com os seus irmãos. Aos seus pés, o jardim, cultivado com maçãs e amendoeiras, que é um dos lugares de trabalho da comunidade, lhe recorda que "irmão" é uma palavra a ser vivida concretamente todos os dias.
A reportagem é de Martine de Sauto, publicada no jornal La Croix, 11-06-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Um pouco além, as casas em que famílias muçulmanas vivem – às vezes com dificuldade – lhe lembram que ele é um hóspede do povo marroquino, ao lado do qual gostaria de testemunhar que "a fraternidade e a paz são um dom de Deus dado aos homens". Finalmente, a linha escura no horizonte, o Alto Atlas dominado pelo monte Ayache (3.757 metros de altura), o convida "ao silêncio, à ascese, à contemplação, ao absoluto". Mas, indica, também existem as nuvens! "Elas me lembram que o meu eu muito falador me impede de ouvir os outros, o Totalmente Outro".
Padre Jean-Pierre, 60 anos, é o prior de Notre-Dame de l`Atlas – único mosteiro cristão masculino no Norte da África –, instalado há mais de dez anos em Midelt, Marrocos (1). Talvez isso esteja relacionado com o fato de ele ter nascido a dois quilômetros da Abadia de Aiguebelle à Montjoyer, no Drôme, abadia mãe do Atlas. "Foi vendo a vida do Frère Gabriel que decidi tornar-me monge", confirma. "Ele não tinha nada, mas havia encontrado a verdadeira felicidade".
De maratonista a abade
Naquela época, Jean trabalhava na destilaria da abadia. Durante a pausa do meio-dia, ele corria de de 15 a 20 quilômetros, sonhava em construir uma família feliz e prosseguir uma carreira esportiva. No entanto, aos 23 anos, aquele que em Montjoyer era então chamado de "o cômico" tornou-se "o inclassificável". Qualificado para os Campeonatos da França, renunciou ao desejo de se tornar um maratonista, à casa e ao cabelo comprido para entrar – apesar da oposição da sua família – na abadia de Aiguebelle, primeira etapa de uma vida que o levaria, em várias ocasiões, ao continente africano.
A primeira vez foi para ir ao mosteiro de Qutub, nos Camarões. Ali ele ficaria por nove anos, antes de se tornar eremita nos Alpes da Alta Provença. "É ali que eu soube da morte dos monges de Tibhirine", explica. "Não havia entendido nada sobre o sentido da sua presença, mas o dom da sua vida definitivamente deixou clara a sua vocação, que era estar lá para amar a Deus, a Argélia, os argelinos. O coração do Evangelho é o amor até o dom de si mesmo".
Um ano depois, partiu novamente, desta vez para o Marrocos, onde há, desde 1988, um anexo de Atlas em Fez, que se tornou o lugar ao qual a comunidade se inclinou. Depois, fez parte do pequeno grupo de freis formado em Argel, na esperança de voltar a Tibhirine, antes de ser eleito prior de Atlas e formalmente transferido para Fez.
Uma comunidade reduzida a três monges
"Em Fez – conta Jean-Pierre –, a comunidade era limitda e tinha poucos contatos com a população. As Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria, com sede em Midelt, 200 quilômetros ao sul, queriam deixar o convento para viver em lugares mais adequados a elas. Então, fui para Kasbah Myriem no dia 2 de fevereiro de 1999. Fazia frio. Mas fui conquistado pelo lugar, onde, desde então, gozamos dos benefícios da longa presença das irmãs, do capital de confiança que foi adquirido".
A comunidade conta hoje com três freis. O outro Jean-Pierre, chamado de "o ancião", 87 anos, radioso e sério, última testemunha de Tibhirine; José Luis, 63 anos, diretor comercial que se tornou, aos 47 anos, monge de Santa Maria de Huerta, na Espanha, homem ao mesmo tempo franco e generoso; e Jean-Pierre, simples e tranquilo, habitado por uma incansável confiança. Frère Godefroy, oficial da marinha que se tornou monge de Aiguebelle, em breve deverá se juntar a eles.
Investimento pessoal
Esses monges, que vivem segundo a regra da ordem cisterciense de estrita observância, encontram-se sete vezes por dia, desde as quatro horas da manhã, na capela, para rezar. Entre as muitas tarefas a serem realizadas, Jean-Pierre, o único que pode dirigir, se ocupa das compras, em grande parte do souk [mercado] e nas mercearias de Hussein. Jean-Pierre, "o ancião", é responsável pela contabilidade e é o porteiro. José Luis, frei encarregado da hospitalidade, também é muito ocupado nos trabalhos realizados no mosteiro durante dez anos.
Esses trabalhos devem muito à qualidade de construtor de Jean-Pierre. Aos 18 anos, esse apaixonado por velhas pedras havia comprado no seu vilarejo natal um imóvel em ruínas que pertencera a uma estrutura monástica e o havia restaurado. Mais tarde, em Notre-Dame de Kutub, havia reformado os edifícios das plantações de café. Em Midelt, transformou a capela, fechou o claustro, reestruturou todo o mosteiro. Agora, aquilo que era a garagem abriga a capela Charles de Foucauld, abençoada por Dom Vincent Landel, arcebispo de Rabat, no dia 21 de maio, dia do 15º aniversário da morte dos monges de Tibhirine, aos quais dedicou um memorial.
O lugar onde se encontravam os tanques para a tinturaria da lã tornou-se a capela do Padre Albert Payriguère (1883-1959), cujos restos mortais ali repousam há cerca de um ano. A oficina de tecelagem deu lugar a uma cômoda pousada para acolher os cristãos que vivem no Marrocos, assim como os hóspedes de passagem em busca, como diz Dom Landel, de "um lugar-fonte para ter o tempo de se deixar amar por Deus, de se deixar despojar e de compreender melhor como o contato com o Islã é um convite a aprofundar a própria fé cristã".
Testemunhas esquecidas
Apaixonado por arquivos, Jean-Pierre também realizou pesquisas sobre a herança espiritual da Igreja no Marrocos. Estudou as relações que existem entre Charles de Foucauld e Notre-Dame de l`Atlas, entusiasmou-se com o testemunho de quatro testemunhas que ele gostaria que saíssem do esquecimento: Padre Albert Peyriguère, discípulo de Charles de Foucauld, que se estabeleceu em El-Kbab em uma tribo de berberes; Padre Charles-André Poissonnier (1897-1938), eremita franciscano que se estabeleceu em Tazert, onde morreu de tifo aos 40 anos; Élisabeth Lafourcade (1903-1958), membro do instituto secular Jesus Operário, que se tornou a toubiba (médica) de Ksar-Es-Souk; Cécile Prouvost (1921-1983), franciscana missionária de Maria, que tornou-se nômade entre os nômades e cujas "irmãs" continuam a missão de Tattioune.
Os seus retratos, pintados por um pintor de Midelt, estão pendurados nas paredes da sala do capítulo. "Essas quatro testemunhas nos mostram qual deve ser a nossa presença cristã nesta terra do Islã", explica Jean-Pierre. "Uma vida `com`, uma vida de partilha, de amizade, segundo o último mandamento de Jesus: `Amai-vos uns aos outros como eu vos amei` (Jo 15, 12). Todos os quatro serviram até ao fim das suas forças, até o dom da sua vida, por Amor. Com os sete freis de Tibhirine, é a mesma voz que chega até nós, a mesma linha espiritual que nos é traçada".
Depois deles, os freis de Atlas continuam, em uma doce austeridade e em uma real precariedade, a sua busca de Deus, abrindo-se, ao mesmo tempo, ao mundo muçulmano que os rodeia. Eles vivem um diálogo diário, em constante busca do justo equilíbrio entre fechamento e abertura com seus vizinhos que têm o cuidado de não perturbá-los na hora da oração e que às vezes pedem para que intercedam por eles.
Duas vezes por dia, compartilham o chá de menta ao qual convidam Omar e Baha, funcionários do mosteiro, e também um pouco "de casa". Às vezes, eles também vão nas famílias que os convidam para compartilhar sua refeição. No dia 22 de maio, eles receberam os trabalhadores que lhes ajudaram durante os trabalhos, juntamente com suas famílias e os dois imãs das mesquitas vizinhas.
Paisagem monástica
"Nós somos, como indica o brasão de Notre-Dame de l`Atlas, um sinal sobre a montanha", conclui Jean-Pierre. "Vivemos aqui o mistério de Nazaré e o da Visitação que Christian de Chergé considerava uma festa `quase patronal` da comunidade de Atlas. Como Maria que parte ao encontro de Isabel, nós estamos indo ao encontro do `outro`"...
Se a paisagem que contempla do pomar evoca para Jean-Pierre o essencial da vida monástica, no scriptorium para onde ele vai todos os dias depois das primeiras orações da manhã, há sinais discretos mas de rara intensidade que expressam bem a sua vocação. Sobre a escrivaninha, ele colocou um quadro com três fotografias, a do padre Peyriguère, do padre Gabriel, que morreu há dois anos, e de Élisabeth Lafourcade. É ali que, na escuridão repleta de silêncio, ele se dedica, ao lado dos seus irmãos, à lectio divina e ouve, na alvorada do dia, o chamado à oração dos muezins.
Notas:
1 - Dois livros são dedicados ao mosteiro: Un signe sur la montagne, de Raymond Mengus, Ed. Salvator, 185 páginas; e Un monastère cistercien en terre d’islam, de Étienne d’Escrivian, Ed. Cerf, 272 páginas.