31 Agosto 2012
A situação pastoral da Pontifícia Universidade Católica do Peru, originada pelos recentes conflitos, fez com que o Provincial da Companhia de Jesus no Peru, o Pe. Miguel Gabriel Cruzado Silveri, escrevesse um carta para expressar, em nome de seus companheiros jesuítas, a sua disponibilidade de contribuir no diálogo da PUCP com a hierarquia eclesiástica.
Eis a carta.
Lima, 20 de agosto de 2012
Exmo. Sr. Arcebispo Salvador Piñero
Presidente da Conferência Episcopal e Arcebispo Metropolitano de Ayacucho
Excelentíssimo Senhor Arcebispo:
Dirijo-me ao senhor como Presidente da Conferência Episcopal Peruana e, por seu intermédio, a nossos bispos para expressar-lhes respeitosamente, em nome de meus companheiros jesuítas, nosso sentimento ante a lamentável situação pastoral gerada pelo conflito entre a Hierarquia Eclesiástica e a Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP).
1) Nossa presença na PUCP
Como o senhor sabe, nós jesuítas estamos presentes na PUCP desde sua fundação, participamos ativamente em sua vida acadêmica e pastoral e a conhecemos amplamente. Isso nos faz sentirmos capazes de transmitir a nossos pastores nossos pontos de vista, com o desejo de contribuir à soluça do problema.
É preciso recalcar, Excelência, que, embora a PUCP não é nem tem sido uma universidade jesuíta, temos trabalhado nela desde sua própria criação. O Pe. Próspero Malzieu SJ participou, junto de outros leigos e religiosos, no Comitê Permanente no início da Universidade. Em 1931 se incorporou o Pe. Rubén Vargas Uggarte SJ, historiador, que sucederia ao Pe. Jorge Dintilhac SS.CC. com reitor em 1947. Também foi reitor o Pe. Felipe Mac Gregor SJ desde 1963 até 1977, exercendo ao mesmo tempo os cargos de presidente da Federação Internacional de Universidades Católicas e vice-presidente da Universidade das Nações Unidas.
Muitos outros jesuítas colaboraram como professores ou encarregados de pastoral e exerceram cargos de relevância ao longo da história da PUCP. Cabe mencionar, entre outros, Monsenhor Alfredo Noriega SJ, Diretor do Instituto de Estudos Sociais, que antecipou a Faculdade de Ciências Sociais; o Pe. Francesco Interdonato SJ, professor de Ética e Teologia na Faculdade de Direito; o Pe. Manuel Marzal SJ, professor de Antropologia, Diretor Universitário do Regime Acadêmico de Professores e vínculo da Conferência Episcopal com a Universidade no cargo de Diretor Universitário de Relações com a Igreja; o Pe. Armando Nieto SJ, professor de História, Diretor do Instituto Riva Agüero e, da mesma forma que o Pe. Marzal, Diretor Universitário de Relações com a Igreja. Por outra parte, o Centro de Assessoria e Pastoral Universitária (CAPU) foi fundado pelo Pe. Alberto Rodríguez SJ e logo conduzido com dedicação pelo Pe. Luis Martínez SJ, que associou neste importante labor diversas famílias e carismas religiosos.
Durante décadas temos sido testemunhos do empenho, tanto da Hierarquia Eclesiástica como das autoridades universitárias, para conciliar de modo adequado o direito eclesiástico e o direito civil, concretamente na aplicação das leis peruanas referentes à vida universitária do país, sem detrimento da legislação eclesiástica.
2) O papel da PUCP na evangelização do Peru hoje
Nosso desejo de seguir atuando na PUCP responde não só ao fato de que sempre estivemos nela, mas também ao convencimento de que esta Universidade continua sendo um instrumento idôneo e eficaz para a evangelização e para fomentar valores que não se devem perder. Sua capacidade para plasmar e transmitir os conteúdos próprios da educação cristã conforme as diretrizes da Igreja tem sido reconhecida pela Santa Sé ao longo dos anos, principalmente ao outorgar-lhe o título de Pontifícia. Referenda a qualidade acadêmica da PUCP e sua identidade católica o fato de que personalidades notáveis da Hierarquia, como o cardeal Joseph Ratzinger, hoje Romano Pontífice, o arcebispo Gerhard Müller, hoje Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé; e o cardeal Oscar Rodríguez Maradiaga, presidente da Caritas Internacional, tenham honrado a mesma universidade ao dela aceitar o título de doutor Honoris Causa.
A presença de sacerdotes diocesanos, de religiosos de diversas congregações e de membros de movimentos eclesiais na PUCP tem manifestado de contínuo a pluralidade de carismas na Igreja universal. Ao mesmo tempo, a abertura desta universidade a pessoas de outros credos ou convicções religiosas, que conosco compartilham os valores do Evangelho, demonstra o espírito de diálogo e de busca comum da verdade, característico da Igreja no mundo de hoje. Esta comunhão e respeito à diversidade geralmente tem se desenvolvido num sadio clima institucional, tem enriquecido a vida universitária e fortalecido a Igreja no Peru.
A PUCP constitui um espaço de encontro entre a razão e a fé em nossa sociedade. Seu empenho por fomentar a reflexão teológica e ética cristã tem estado presente desde seus inícios e se expressa hoje, entre outros aspectos, no fato de ser uma das instituições com mais publicações sobre temas religiosos em nosso país. Além disso, esta universidade tem contribuído no desenvolvimento das humanidades e das ciências mais do que nenhuma outra instituição católica na história recente do Peru. O arcebispo G. Müller nos recordava em Lima, ao receber o mencionado título de doutor Honoris Causa, que “a grande missão de uma universidade católica consiste não só em gerar e preservar suas ideias no interior do mundo católico, mas também fazer com que estas sirvam para desenvolver o mundo”.
Através desta instituição acadêmica a Igreja tem contribuído para a formação humana e profissional das novas gerações de acordo com os princípios e valores do Evangelho, o que constitui uma prioridade apostólica da Igreja de que os bispos latino-americanos nos têm recomendado cuidar em sua V Conferência Geral em Aparecida (cf. Aparecida, Doc. Final, 328-346).
A PUCP também tem sido fonte e lugar de crescimento de vocações ao sacerdócio, à vida consagrada e ao apostolado leigo. São inumeráveis os sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos comprometidos, de diversos carismas, que hoje animam a missão da Igreja no Peru e que se formaram em suas aulas.
Esta vocação positiva no labor acadêmico e pastoral da PUCP não nos faz desconhecer, por outro lado, que pode haver dificuldades e a presença efetiva de vozes discrepantes em reação ao caráter católico e eclesial da PUCP. Todavia, consideramos que essas dificuldades são, em certo sentido, próprias de toda instituição universitária que quer promover a verdadeira liberdade e autonomia na busca e comunicação do saber, como está chamada sem dúvida toda universidade católica. Reconhecendo tais dificuldades, cremos que a PUCP desenvolve sua missão no fundamental e de maneira sempre perfectível, dentro do espírito e das orientações da Constituição Apostólica Ex corde ecclesiae.
Por tudo isso e respondendo a uma petição expressa do Santo Padre, a Companhia segue proporcionando uma longa e exigente formação aos jesuítas que serão destinados ao mundo acadêmico em distintas universidades do Peru e do mundo, estando entre elas a PUCP.
O próprio Santo Padre tem recomendado recentemente a nós jesuítas a importância que tem para a Igreja a participação na reflexão intelectual, no sentido de promover o diálogo da fé com as distintas áreas do saber: “A Igreja necessita com urgência de pessoas de fé sólida e profunda; necessita de religiosos e sacerdotes que dediquem sua vida precisamente a permanecer nessas fronteiras [entre a fé e o saber humano, a fé e a justiça] para testemunhar e ajudar a compreender que existe uma harmonia profunda entre fé e razão, entre espírito evangélico, sede de justiça e laboriosidade pela paz. Somente assim será possível dar a conhecer o verdadeiro rosto do Senhor àqueles a quem este permanece hoje oculto ou irreconhecível. A isso deve dedicar-se, pois, preferencialmente, a Companhia de Jesus” (SS. Bento XVI, “Alocução à Congregação Geral 35”, 2008).
Excelência, nossa principal preocupação neste momento, na PUCP, são os jovens. Eles são os mais vulneráveis dentro do conjunto da comunidade acadêmica, mas, ao mesmo tempo, são os que estão mais dispostos a expressar suas críticas com radicalidade e firmeza. É de vital importância a proximidade da Igreja ao mundo juvenil num contexto social de debilitação institucional que pode limitar a transmissão de valores cristãos às novas gerações. É urgente acompanhá-los em suas generosas iniciativas de solidariedade em suas buscas do autêntico sentido de suas vidas numa sociedade fraturada que vai tornando opaca a dimensão da transcendência. Nossa presença na PUCP tem também por fim acompanhá-los em seus processos de formação, de modo que, com desejava o beato João Paulo II, sejam capazes de antecipar e de se preparar para o futuro como verdadeiros "sentinelas do amanhã".
3) Um conflito que ainda pode ser resolvido
Senhor arcebispo, como membros do povo de deus e colaboradores dos bispos, nós lhe expressamos nosso profundo pesar por uma situação que terminou enfrentando publicamente irmãos na fé e que prejudica seriamente o serviço eclesial. Em nosso labor pastoral são cada vez mais numerosas as pessoas que se acercam para manifestar-nos sua perplexidade e desalento. Não entendem como se tem podido chegar até tal estado de coisas, apesar da sabedoria secular que caracteriza a Igreja na solução de conflitos, conforme a tradição herdada do próprio Jesus e das primeiras comunidades cristãs (cf. Mt 18, 1-22).
É muito doloroso comprovar que esta situação de conflito tem deteriorado gravemente a credibilidade de nossa mensagem evangelizadora, principalmente entre os jovens do Peru. Com grande pena sentimo-nos obrigados a constatar, apesar de nossa sincera atitude de busca de solução do conflito, bem como do respeito e espírito de obediência com que nosso fundador Santo Inácio nos ensina a acolher as disposições da Sé Apostólica que o Decreto emitido pelo Eminentíssimo Sr. Cardeal Secretário de Estado não recebeu da parte de amplos setores da PUCP e da sociedade peruana a aceitação que se podia ter esperado, e choca com múltiplos escolhos de ordem jurídica para sua correta aplicação, até o ponto de poder gerar lamentáveis enfrentamentos entre a Santa Sé e o Estado peruano.
Contudo, porque cremos que apesar de tudo ainda é possível, com boa vontade e erguendo o olhar para o bem da Igreja e do país, conseguir uma adequada conciliação dos foros eclesiástico e civil que seja aceitável para ambas as partes, permitimo-nos recordar que a ansiada solução pode vir na linha da Proposta de Reforma dos Estatutos acordada entre os representantes do Arcebispado de Lima e da PUCP no dia 31 de março do presente ano. O dito pré-acordo resolvia os pontos em debate acerca da adequação dos estatutos da PUCP à Constituição Apostólica Ex corde ecclesiae, encaminhava de maneira apropriada o tema de uma cuidadosa e bem controlada administração de seus bens, incluídos os fundos da herança Riva Agüero, e concluía os litígios pendentes.
Cremos que este pré-acordo constitui um marco importante no processo de diálogo que se vem sustentando entre as partes e que, na direção que ele aponta, poder-se-ia chegar à solução definitiva do problema, como todos esperamos. Por essa razão, queremos pedir ao Sr. e a todos os senhores bispos da Conferência Episcopal, que se façam todos os esforços possíveis para que o diálogo seja retomado, em vista a aperfeiçoar e concluir o pré-acordo anunciado e chegar assim a uma solução saudável para o maior bem de nossa Santa Madre Igreja.
Não se conseguindo um acordo, corre-se o risco de que a Igreja perca uma instituição acadêmica da maior qualidade e excelência e, pela polarização das posturas, se exacerbem os sentimentos de amargura e animadversão contra nossa Igreja. Ao mesmo tempo, preocupa-nos profundamente a negativa repercussão que poderiam ter para a tarefa evangelizadora os juízos pendentes em várias instâncias judiciais do país, ainda mais se o conflito transcendesse o plano internacional.
No entanto, obtendo-se um acordo, este viria a significar um exemplo evidente para nosso país – em momentos em que atravessa múltiplos conflitos sociais – de que sempre é possível conciliar posturas que pareciam irreconciliáveis, quando se antepõe o bem comum a preocupações ou interesses legítimos, porém em última análise particulares. A Igreja no Peru poderia reverter a imagem criada e oferecer à sociedade um sinal orientador para resolver conflitos de toda índole na base do diálogo e da paz.
O beato João Paulo II nos dizia na Exortação Apostólica "Reconciliação e Penitência": "Frente a nossos contemporâneos – tão sensíveis à prova do testemunho concreto de vida – a Igreja está chamada a dar exemplo de reconciliação acima de tudo para dentro; por essa razão, devemos todos esforçar-nos em pacificar os ânimos, moderar as tensões, superar as divisões, sanar as feridas que tenham podido abrir-se entre irmãs, quando se aguça o contraste das opções no campo do opinável, buscando, pelo contrário, estar unidos no que é essencial para a fé e para a vida cristã, segundo a antiga máxima: In dubiis libertas, in necessariis unitas, in omnibus caritas” (ReP n. 9).
O Senhor nos ajude a não aguçar os enfrentamentos, mas a respeitar a liberdade nas dúvidas e, em matérias opináveis, a unir-nos no essencial e a guiar-nos em tudo pela caridade.
Seu afeiçoadíssimo no Senhor,
Miguel Gabriel Cruzado Silveri S.J., Provincial da Companhia de Jesus no Peru
cc.
R.P. Adolfo Nicolás S.J. Prepósito Geral da Companhia de Jesus.
S.E.R. Sr. Cardeal Tarcisio Bertone, S.D.B., Secretário de Estado.
S.E.r. Cardeal Zenon Grocholewski, Prefeito da Congregação para a Educação
Católica e Grande Chanceler da Pontifícia Universidade Gregoriana.
Exmo. Sr. Arcebispo Gerhard Müller, Prefeito da Sagrada Congregação para a
Doutrina da Fé.