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Por: André | 13 Setembro 2013

Um livro acaba de revolver o vespeiro com a conclusão de que o ex-presidente chileno foi morto enquanto defendia o seu governo. Mas outros autores dizem que foi um suicídio.

A reportagem é de Gustavo Veiga e publicada no jornal argentino Página/12, 12-09-2013. A tradução é de André Langer.

Que se suicidou com um fuzil AK 47 dado por Fidel Castro, que o fez com uma arma curta, que foi morto a tiros em plena defesa do Palácio La Moneda, que a Corte ratificou a primeira hipótese e fechou a investigação, que foi aceito um recurso de cassação para a reabertura do caso este ano. A morte do presidente Salvador Allende tem, no Chile, duas possíveis interpretações mesmo 40 anos depois. O que aconteceu naquele 11 de setembro de 1973 quando o derrubaram? A resposta se bifurca em várias direções. Um livro da jornalista e mestra pela Sorbonne Maura Brescia acaba de revolver o vespeiro com a conclusão de que foi morto enquanto defendia o seu governo. Mas outros autores, como o doutor em Filosofia Hermes Benítez, autor de Pensando Allende, editado em fevereiro passado, confia na versão oficial, embora com reservas.

“O presidente Salvador Allende não se suicidou, morreu combatendo e nunca falou em se render”, sustenta Brescia. A autora de A verdade sobre sua morte. Minha carne é bronze para a história, faz críticas à versão oficialmente aceita até agora: “Impõe-se o dever de esclarecer a verdade sobre este fato. Este trágico episódio transformou-se no caso mais emblemático da história do Chile e em um dos fatos mais importantes do período contemporâneo. A legitimidade da morte de Salvador Allende não é patrimônio daqueles que, por interesse ou medo, certificaram seu suicídio”.

Ao contrário de Brescia, o pesquisador Benítez, que se exilou no Canadá após o golpe de 73, dá crédito aos testemunhos de várias testemunhas que presenciaram de dentro o ataque ao La Moneda. Depois de mencionar em seu livro Miria Contreras, a Payita, uma estreita colaboradora do presidente, e os médicos que assistiam Allende, José Quiroga e Patricio Guijón, sustenta que estes últimos “viram, efetivamente, quando ele deu o tiro”. E situa o fato no corredor que dá à porta da Rua Morandé, 80, por onde ainda hoje se entra no Palácio La Moneda.

Em 2011, citado pela DPA e pela ANSA, Guijón declarou: “Vi quando foram pelos ares os ossos e a massa encefálica. Estava sentado em uma poltrona apoiada na parede que dá para a rua; havia uma janela grande e estava com a metralhadora nas mãos e vi a explosão do crânio”.

Outro médico, Luis Ravanal, que foi testemunha dos fatos, mas como forense, integrou o Serviço Médico Legal do Chile (SML), em 2008 elaborou um relatório baseado na autópsia original realizada em Allende no Hospital Militar: “Nela se estabeleceu que havia dois impactos de bala incompatíveis com um tiro suicida”. Dessa maneira, desmentiu o testemunho de Guijón.

Apesar de contradizer a teoria do magnicídio, Benítez questiona uma parte da versão oficial que fala da arma utilizada pelo presidente socialista para se suicidar. Sobre este fato polemizou publicamente com o destacado jornalista chileno Camilo Taufic, falecido em 2012.

O autor de Pensando Allende disse: “Por meio da hipótese que apresento e argumento em meu livro, defendo que o presidente, embora tenha tirado sua vida, como afirma a totalidade dos sobreviventes do combate do Palácio La Moneda, não o fez com o seu fuzil AK, mas com uma arma curta que estava ao seu alcance naquela tarde”. Esta disquisição seria como que uma polêmica dentro da polêmica.

A discussão sobre como realmente ocorreu a morte e que tipo de arma utilizou para provocá-la, no Chile levanta críticas há mais de três décadas. Um dos protagonistas do 11 de setembro de 1973, Carlos Jorquera, secretário de Imprensa de Allende, sustenta: “Quem se interessa por saber se Chicho se matou ou se foi morto, simplesmente não pode entender o que aconteceu no La Moneda” (do livro de sua autoria, Chicho Allende, editado em 1990).

Brescia, na pesquisa para seu livro, apontou declarações de oficiais e soldados dos três regimentos que entraram na Casa de Governo naquela tarde de 40 anos atrás. A informação que descobriu inclui estudos médico-legais e balísticos. No capítulo quatro de A verdade sobre sua morte. Minha carne é bronze para a história, a jornalista conta: “Alfa Um era o plano do cerco, ataque e tomada do Palácio La Moneda, com o propósito de aprisionar Salvador Allende e preparar depois seu suicídio em condições parecidas à autoeliminação de um antigo presidente chileno, José Manuel Balmaceda, em 1891”.

Mais adiante, acrescenta: “Durante meia hora os estrategistas buscam uma forma confiável para o suicídio para um cadáver metralhado. Decide-se destroçar-lhe a cabeça com balas de submetralhadora, mudar algumas peças da sua roupa e colocar o cadáver em outro lugar mais adequado, já que o Salão Vermelho, lugar original da sua morte, está destruído e em chamas, assim como a sala de trabalho do presidente”.

Outros detalhes do seu livro são arrepiantes: “Os homens do Serviço de Inteligência do Exército escolhem o Salão Independência, um lugar privado, de descanso e recepção de visitas, até onde arrastam o corpo sem vida de Allende. Tiram do cadáver as calças cinza, que estão furadas e ensanguentadas na altura do ventre. Põem nele uma calça azul, tomada de um dos tantos cadáveres que havia dentro do La Moneda”.

Brescia conclui que todos os peritos que revisaram o cadáver de Allende concordam em que, no mínimo, dois projéteis provocaram a sua morte. Baseada em seu livro, a Corte de Apelações chilena aceitou um recurso de cassação apresentado pelos advogados Roberto Celedrón e Matías Coll, e o levou à Suprema Corte, que deveria resolver se ratifica a tese oficial ou se considera que o presidente resistiu até que foi morto. Em dezembro de 2012, o juiz Mario Carroza havia concluído a investigação. Agora o caso foi reaberto.