A subversiva Páscoa cristã

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26 Março 2013

"De acordo com o cristianismo, há cerca de dois mil anos atrás a Páscoa foi enriquecida e plenificada. Jesus, o Filho de Deus Pai, é enviado ao mundo para trazer a boa notícia de que a libertação dos pobres e oprimidos finalmente ia se tornar uma realidade definitiva (Lc 4,18-19). Porém, esta sua ousadia de anunciar uma boa notícia para os pobres e oprimidos, de anunciar a chegada definitiva do reinado de Deus, não foi bem acolhida pelo poder religioso e político. Por esta razão Jesus foi acusado de ser subversivo (Lc 23,2), perseguido, torturado, assassinado e colocado num túmulo", escreve José Lisboa Moreira de Oliveira, autor de Viver em comunidade para a missão. Um chamado à Vida Consagrada Religiosa (Editora Paulus).

Eis o artigo.

A Páscoa é uma festa típica do hemisfério norte do nosso planeta. Suas origens remontam a antigas culturas agrárias e pastoris que celebravam a chegada da primavera, a estação das flores. Com a chegada da primavera no hemisfério norte o ambiente muda: o frio aos poucos vai diminuindo, os dias se tornam mais longos, o calor aumenta, a terra começa a brotar, produzindo flores e alimentos.

Neste contexto o movimento de povos nômades, que deu origem ao Israel bíblico, associou a festa da Páscoa a uma experiência de libertação. Tribos atravessaram o rio Jordão e se instalaram na região de Canaã, a “terra prometida” a Abraão (Ex 13,3-10). A chegada até a tão sonhada terra onde “corria leite e mel” (Ex 3,8) foi precedida de muitas lutas contra poderes opressores, representados pelo Egito, que pretendiam escravizar esses povos. Nesta luta as pessoas fizeram a experiência profunda de um Deus libertador que ouviu seus clamores, desceu, se compadeceu, tomou conhecimento de seus sofrimentos, tomou partido e decidiu tirá-los da opressão, dando as estes “sem-terra” um terreno fértil e espaçoso (Ex 3,7-10). Assim a festa da chegada da primavera se tornou para estas tribos o memorial da intervenção divina, que deveria ser celebrado “como um rito permanente, de geração em geração” (Ex 12,14).

De acordo com o cristianismo, há cerca de dois mil anos atrás a Páscoa foi enriquecida e plenificada. Jesus, o Filho de Deus Pai, é enviado ao mundo para trazer a boa notícia de que a libertação dos pobres e oprimidos finalmente ia se tornar uma realidade definitiva (Lc 4,18-19). Porém, esta sua ousadia de anunciar uma boa notícia para os pobres e oprimidos, de anunciar a chegada definitiva do reinado de Deus, não foi bem acolhida pelo poder religioso e político. Por esta razão Jesus foi acusado de ser subversivo (Lc 23,2), perseguido, torturado, assassinado e colocado num túmulo. Mas, para surpresa geral de todos, inclusive dos membros do seu grupo de discípulos e de discípulas, o profeta Jesus não permaneceu na tumba: ressuscitou e venceu a morte. Seus seguidores, aos poucos, foram se convertendo e se convencendo de que ele continuava vivo no meio deles. Passaram a senti-lo bem presente e atuante na pequena comunidade. Tal experiência deu-lhes força para perder todo e qualquer medo e retomar a missão do Mestre, continuando a anunciar a Boa Notícia da libertação “até os extremos da terra” (At 1,8). Aos poucos esta experiência fantástica foi sendo associada à celebração da Páscoa, de modo que, já no tempo das comunidades cristãs do Novo Testamento, a Páscoa passou a ser o memorial da paixão, morte e ressurreição de Jesus.

Esta rápida memória histórica da Páscoa nos permite perceber que por trás deste grande evento estão alguns elementos significativos. Em primeiro lugar a primavera, com a chegada das flores, da luz, do calor e com o preanúncio de uma possível boa colheita. Em segundo lugar, a experiência da libertação realizada por Javé e vivida pelas tribos que se uniram para caminhar na direção de uma terra prometida. Nesta experiência é significativa a decisão de um deus de ficar do lado de escravos e de sem-terra, coisa impensável no contexto de então, uma vez que naquela época os deuses sempre estavam do lado dos grandes e poderosos. Por fim, na plenificação da Páscoa, Jesus se apresenta como o libertador definitivo que anuncia o projeto de Deus, voltado de modo particular para os pobres, os oprimidos, os excluídos e os rejeitados pela sociedade. Por esse motivo é assassinado, mas, pelo poder de Deus Pai, rompe os laços da morte e permanece vivo, animando seus discípulos e discípulas e convidando-os a continuarem a sua missão (Mt 28,16-20).

A Carta aos Colossenses afirma que a pessoa cristã já vive como ressuscitada e, como tal, é convidada a comprometer-se com ações que expressem o essencial dessa condição que é a prática do amor ao próximo (Cl 3,1-17). Isso nos autoriza a dizer que a celebração da páscoa cristã, enquanto memorial da paixão, morte e ressurreição de Jesus, precisa ser traduzida em atos e gestos concretos de amor ao próximo, distintivo único e fundamental da identidade do discípulo e da discípula de Jesus (Jo 13,15).

Assim sendo, a celebração da Páscoa deve ser uma verdadeira primavera que expulse todo e qualquer mofo e frieza da Igreja e a faça pulsar de vitalidade e de acolhida da vida. Não cabe celebrar a Páscoa num contexto de rigidez e de falta de misericórdia, num ambiente em que as leis e as normas estão acima da vida das pessoas (Mc 3,1-5). Não haverá Páscoa de Jesus numa Igreja que condena e discrimina certos filhos e certas filhas de Deus; que reserva os bancos de seus templos para aqueles que se autoproclamam perfeitos e merecedores do céu. Além disso, a Páscoa deve ser a festa da libertação dos pobres e dos oprimidos. E não se trata apenas de uma falsa libertação “espiritual”, cuja recompensa é uma vida futura, programada para depois da morte. Trata-se, como nos mostra a experiência do Êxodo, de uma libertação a ser realizada aqui nesta terra. Uma libertação que inclui terra, casa, comida, emprego, saúde, escola etc. E para celebrar esta Páscoa os cristãos e as cristãs precisam, como Javé, ver a opressão, descer até o submundo dos pobres, sentir o cheiro da pobreza, tocar com os pés e as mãos os sofrimentos dos injustiçados e excluídos e permanecer comprometidos com as suas lutas por dias melhores (Ex 3,7-10).

Celebrar a Páscoa cristã é trilhar o caminho perigoso de Jesus, tornar-se subversivo com ele e como ele, aceitando pagar o preço da perseguição, da calúnia e até mesmo da morte para ficar do lado dos pobres e dos excluídos. Para celebrar a Páscoa verdadeira de Jesus não é suficiente ficar repetindo a doutrina abstrata do Catecismo da Igreja Católica. É preciso que o ensinamento dessa doutrina crie “a revolta entre o povo” (Lc 23,5), ou seja, incomode tanto o poder religioso como o poder civil, devolvendo às pessoas a consciência crítica para enxergar as coisas como elas realmente são. Não pode ser cristã uma Páscoa celebrada por quem se omitiu e fechou os olhos diante de ditaduras, de torturadores, de injustiçados, com medo de sofrer e de morrer como Jesus morreu. Não celebra a Páscoa cristã quem se tornou insensível aos sofrimentos humanos e nada fez para denunciar a exploração dos mais pobres pelos ricos e poderosos deste mundo (Tg 5,1-6).

Para os cristãos e as cristãs a Páscoa é a festa da vida, a celebração da vitória de Jesus sobre o sofrimento e a morte. Por isso é a festa por excelência da alegria e da esperança. Mas toda alegria, toda festa, toda aleluia, toda exultação é mentirosa e falsa se primeiro não for purificação do mofo eclesiástico, compromisso com a libertação dos pobres, subversão da ordem estabelecida, tomada de partido em favor dos pequenos e simples. Neste momento em que ainda pairam muitas nuvens carregadas sobre a Igreja Católica, em que faltam respostas para tantas perguntas inquietantes, torna-se urgentíssimo celebrar a Páscoa nos moldes verdadeiramente cristãos. Se não seguirmos a trilha da Páscoa bíblica teremos apenas a páscoa consumista, mesmo que ela seja celebrada em templos religiosos e regada de muito incenso, de muitos gritos de aleluias e de glórias. “Já que vocês aceitaram Jesus Cristo como Senhor, vivam como cristãos”, ou seja, “vistam-se com o amor, que é o laço da perfeição” (Cl 2,6; 3,14).