Não é o clima, é a desigualdade o estopim dos conflitos

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14 Agosto 2014

As discussões dos últimos anos sobre os conflitos derivados de problemas climáticos variam desde informes sensacionalistas que garantem que o mundo sucumbirá às guerras pela água até os que acreditam que o assunto não tem nenhum interesse. O título de cada artigo que trata da relação entre mudança climática e conflito deveria ser: “É complicado”, segundo Clionadh Raleigh, diretora do Projeto de Base de Dados sobre a Localização e os Eventos dos Conflitos Armados (Acled).

A reportagem é de Joel Jaeger, publicada por Envolverde/IPS, 08-08-2014.

Cientistas especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU) se interessam cada vez mais por este assunto, uma tendência que se consolidou nos últimos anos, segundo David Jensen, diretor do Programa de Cooperação Ambiental para a Construção da Paz, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). “O debate sobre este assunto começou entre 2006 e 2007, mas ainda há uma grande distância entre o que se discute em escala global e no Conselho de Segurança e o que realmente ocorre no terreno”, pontuou à IPS.

“Numerosos estudos encontram um vínculo estatístico entre mudança climática e conflito, mas costumam se concentrar em uma área específica e cobrir um curto espaço de tempo”, afirmou Halvard Buhaug, diretor do departamento de Condições de Violência e Paz, do Instituto de Pesquisas de Paz de Oslo (Prio), ao ser consultado pela IPS. “O desafio é definir se esses estudos são indicativos de uma tendência global, mais geral, e que ainda não foi documentada”, acrescentou.

Buhaug explicou à IPS que “parte do debate público sobre mudança climática e violência é correto, mas existe uma tendência lamentável, seja dos pesquisadores ou da mídia, em exagerar a contundência da investigação científica e expressar mal a incerteza científica. Em alguns meios de comunicação, palavras como ‘pode ocorrer’ se transformam em certezas e o futuro se torna lúgubre”.

Cullen Hendrix, professor adjunto da Faculdade de Estudos Internacionais Josef Korbel, disse à IPS que a relação entre clima e conflito está mediada pelos níveis de desenvolvimento econômico. É mais provável que um conflito por questões climáticas surja em regiões rurais não industrializadas, “onde grande parte da população ainda depende do ambiente natural”, ressaltou.

Na maioria dos países da África subsaariana, mais de dois terços da população trabalham na agricultura. Uma mudança nas condições climáticas terá consequências negativas na estabilidade. Mas os pesquisadores destacam que é importante não tirar conclusões precipitadas e assumir que a mudança climática derivará necessariamente em um conflito.

“Quase todos reconhecemos que há outros fatores como a exclusão política das minorias perseguidas, desigualdades econômicas ou a debilidade das instituições do governo central que são mais importantes do que o clima. Isso não é o mesmo que dizer que a mudança climática não incida”, ressaltou Hendrix.

“Quanto se trata de reconstruir comunidades e qualidade de vida, não se pode concentrar-se em um só fator de estresse como a mudança climática. É preciso observar a multiplicidade de fatores e construir resiliência para todo tipo de traumatismo, inclusive a mudança climática, mas não exclusivamente”, concordou Jensen, ao comentar as lições aprendidas em seu trabalho no Pnuma.

Hendrix espera que a próxima geração de trabalhos científicos analise como a seca, as inundações, a desertificação e outros fenômenos climáticos têm impacto nos conflitos “por meio de canais indiretos, como perda de crescimento econômico ou causando migrações em grande escala de um país a outro”.

Raleigh, também professora de geografia humana na Universidade de Sussex, acredita que as políticas de distribuição de terras costumam ser a fonte de conflito, mas seu impacto se dilui por um debate sobre mudança climática. “Se perguntarmos a alguém na África ‘quais são os conflitos aqui?’, é possível que responda algo como acesso à terra e à água. Mas isto depende quase totalmente de políticas nacionais e locais, por isso quase nada têm a ver com o clima”, acrescentou.

Alguns governantes tentam atribuir à mudança climática as consequências de suas próprias políticas desastrosas, disse Raleigh. Robert Mugabe culpou a mudança climática pela fome no Zimbábue, em lugar de criticar sua própria corrupção e suas políticas de reassentamento. No Sudão, Omar al-Bashir atribuiu o conflito na província de Darfur à seca, em lugar da terrível violência do governo contra uma grande parte da população.

Raleigh atribui essas explicações ao chamado determinismo ambiental, uma escola de pensamento que afirma que os fatores climáticos definem o comportamento humano e a cultura. Por exemplo, assume que uma sociedade se comportará de uma ou outra forma segundo sua localização em um ambiente tropical ou temperado. Essa teoria se consolidou no final do século 20, mas perdeu popularidade devido às críticas de que fomentava o racismo e o imperialismo.

A preocupação de Buhaug é a “tendência nas investigações, em especial na difusão delas, para ignorar a importância de condições políticas e socioeconômicas e o motivo e a ação dos atores”.

Raleigh diretamente desejaria que desaparecesse todo o debate. “As pessoas costumam interpretar mal o que ocorre em escala local e nacional nos países africanos e em desenvolvimento. Simplesmente supõem que a violência é uma das primeiras reações à mudança social, quando o mais provável é que seja a cooperação”, afirmou.

A cooperação ambiental ocorre dentro e entre os países, segundo Jensen. No âmbito local, “em Darfur, vemos diferentes grupos que se unem para gerir os recursos hídricos”. Em escala global, “fala-se muito das guerras pela água entre países, mas costuma ser o contrário, pois há muita cooperação entre os Estados pelos recursos de água compartilhados”, ressaltou Raleigh.

Nessa linha, a ONU lançou em novembro de 2013 um novo site na internet dedicado às soluções mais do que aos problemas e destinado a especialistas e trabalhadores de campo, com a intenção de compartilhar as melhores práticas para atender conflitos ambientais e o uso de recursos naturais para ajudar na construção da paz, afirmou a especialista.

Resumo do debate na comunidade científica

Um estudo de Burke et al (2009) conclui que o aumento da temperatura acarretaria maior número de mortes na África. Afirma que, se for mantida a tendência atual, morrerão cerca de 393 mil pessoas em enfrentamentos na África até 2030.

Segundo Buhaung (2010), a prevalência e a severidade das guerras civis na África diminuíram desde 2002, apesar do maior aquecimento do clima, desafiando a hipótese de Burke. Em seu estudo não encontrou nenhuma evidência sobre uma correlação entre aumento de temperatura e conflitos.

Hendrix e Salehyan (2012) concluíram que as variações nas precipitações, abaixo ou acima do habitual, se associavam com todo tipo de conflitos políticos na África.

Benjaminsen et al (2012) não encontrou evidência para dizer que a variabilidade das chuvas é um fator substancial do conflito de Mali.

Em 2013, Hsiang, Burke e Miguel publicaram uma metanálise de 60 estudos sobre o tema na revista Science. Encontraram que a maioria deles, de diferentes regiões, apoiavam a conclusão de que a mudança climática gera e gerará maiores níveis de conflitos armados.

Em uma resposta na Nature Climage Change, Raleigh, Linke e O’Loughlin (2014) criticaram essa análise por utilizar estatísticas inadequadas que ignoram fatores políticos e históricos dos conflitos e insistiram na mudança climática como um fator causal. 

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