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Por: Jonas | 14 Fevereiro 2014

A Cordilheira dos Andes se movimenta de um modo constante pela interação das placas tectônicas e sobe de dois a quatro milímetros por ano, embora em alguns casos, como o terremoto de Caucete, produziu um levantamento de aproximadamente um metro. Andres Folguera (foto), doutor em geologia, do Laboratório de Tectônica Andina, falou sobre esse assunto.

 
Fonte: http://goo.gl/hnRTKQ  

A entrevista é de Leonardo Moledo, publicada por Página/12, 12-02-2014. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Você estuda a Cordilheira dos Andes.

Mais especificamente o levantamento de um setor da cordilheira. O grupo foi organizado por Víctor Ramos. Eu fui uma incorporação dos últimos 15 anos. Há tempo, Víctor vem trabalhando sistematicamente nesse tema: por que se levantou em alguns setores, por que em outros não, que diferenças e semelhanças há?...

A cordilheira está se levantando?

Há setores que sim, setores que não e setores que estão caindo. San Juan e o norte de Mendoza são lugares onde ativamente a cordilheira se levanta.

Em quanto?

Alguns poucos milímetros por ano. De 2 a 4 milímetros.

O que em mil anos...

Não é pouco. Porém, além disso, não se levanta de forma contínua. O terremoto de Caucete, por exemplo, produziu um levantamento da Serra de Pie de Palo de aproximadamente um metro. E, às vezes, quando se ativa uma falha, é possível verificar os desníveis produzidos no terreno, de 20 a 70 centímetros. Quer dizer, embora haja um movimento de ordem dos milímetros, a cada tanto a cordilheira atinge um salto.

E por que se levanta?

Essa pergunta não tem uma resposta simples e é motivo para muitas discussões. Em princípio, as montanhas “ativas” estão em setores onde duas placas, dois setores da superfície terrestre, que tem um movimento independente uma da outra, convergem, colidem. Há muitos lugares onde as placas não se chocam entre si: distancia-se um segmento em relação ao outro ou deslocam-se lateralmente, apenas esfregando-se, mas há lugares onde as placas se chocam. É a placa do Pacífico que se coloca por baixo da placa sul-americana. Isso ocorre em todo o Pacífico. No entanto, há lugares onde o levantamento de montanhas é muito ativo e em outros não.

Por quê?

Inicialmente, há uma relação com o ângulo no qual a placa pacífica penetra. Os lugares onde penetra de forma horizontal, como San Juan e o norte de Mendoza, são lugares associados a montanhas muito altas, como o Aconcagua. Os setores onde não penetra de maneira horizontal não são lugares que produzem deformações na placa sul-americana e, portanto, levantamento de montanhas.

O que você está dizendo com “penetração horizontal”?

Inicialmente, penetra com um ângulo de 30 graus até a metade do Chile, aproximadamente. Aí, localiza-se a placa horizontal sobre a placa sul-americana, por ao menos 400 quilômetros e, em seguida, volta a cair 30 graus na altura de Córdoba.

E quando se dissolve?

Jamais. Antes, pensava-se que as placas podiam chegar a se dissolver, a derreter ou a assimilar. Agora, sabe-se que isso não acontece.

O que ocorre?

Os fundos oceânicos caem. Às vezes, possuem um período de estancamento em uma profundidade de 600 quilômetros...

Espere. A placa chega a 30 graus em Córdoba e, depois, funde-se no manto.

Sim, mas não se dissolve. Cai. A grande maioria dos fundos oceânicos que se subduzem cai e se acumula no que se denomina “cemitérios de fundos oceânicos”, como a três mil quilômetros de profundidade, no contato entre o manto inferior e o núcleo. Não penetram no núcleo. Essa é uma descoberta muito importante dos últimos anos. Antes se pensava que os fundos oceânicos podiam se assimilar aos materiais mais quentes do manto terrestre.

O que eu tinha entendido é que nas dorsais oceânicas havia manto que se transformava em placa.

Isso é verdade. No entanto, quando o fundo oceânico se torna velho, chega a uma zona de subdução e cai por baixo de um continente, cai até profundidades de três mil quilômetros, sem assimilar-se com o manto. Na borda do núcleo há cemitérios de velhos fundos oceânicos.

Como pode ser que com essas temperaturas não se funda?

É que se transforma, transforma-se em sua mineralogia. Os materiais, os minerais superficiais, vão se transformando em minerais estáveis para novas condições de pressão e temperatura. A olivina, que é o mineral característico do fundo oceânico, transforma-se em espinélio, que é um novo silicato magnesiano que se reempacota aos quatrocentos quilômetros, aos 660 volta a se reempacotar em outra forma (a perovskita) e aos 2900 quilômetros volta a reempacotar na pós-perovskita.

Quer dizer que ao redor do núcleo, uma bola de ferro incandescente, são acumulados velhos fundos oceânicos. Desde quando?

Desde que começou a tectônica de placas, há 3,8 bilhões de anos.

Essa acumulação, em tanto tempo, deve produzir toda uma faixa.

E, assim, o núcleo está forrado por velhos fundos oceânicos.

Deve ser muito carregado.

Para o núcleo, sim. E como conceito, também.

Há algo que para mim não fica claro. Se as placas não se dissolvem no manto, mas, sim, o manto nas placas, o manto está perdendo material. Como é substituído?

Pelo processo que você descreveu. Os fundos oceânicos se expandem no meio de alguns oceanos e sai material fundido.

Contudo, esse material que sai se afunda e não volta a se dissolver. Há uma perda de material.

O que acontece é que o manto tem um movimento convectivo. Se nós tomamos material do manto, outro material do manto inferior assume o lugar.

Contudo, assim, cedo ou tarde, todos os fundos oceânicos vão acabar forrando o núcleo.

Claro. De fato, não há fundos oceânicos mais velhos do que 200 milhões de anos: quando chegam a essa idade, mais ou menos, adquirem uma densidade tão alta que caem dentro da Terra. E a Terra tem 4,57 bilhões de anos. Isso significa que todos os fundos oceânicos que existiram, entre os 380 milhões de anos do início da tectônica de placas e dos 200 milhões que os fundos oceânicos mais velhos possuem, perderam-se por este mecanismo que estou lhe contando. Porém, às vezes, estes fundos oceânicos que forram o núcleo ascendem.

Por quê?

Porque há elementos radioativos que geram calor e às vezes desestabilizam esses cemitérios de sedimentos e geram plumas – material ascendente -. Muitas plumas são geradas pelos materiais oceânicos acumulados a 2.900 quilômetros de profundidade. Esse meio de forragem de fundos oceânicos antigos sobre o núcleo é denominado “meio de segunda” ou “capa de segunda”.

E como se chega a conhecer tudo isso?

Isso é chave. Conhece-se porque as tomografias, que são as velocidades com as quais transitam as ondas sísmicas produzidas por terremotos, mostram perfeitamente o quadro de temperaturas dentro do fundo da Terra. As ondas sísmicas, assim como uma ecografia, transitam mais lentamente em meios menos rígidos e mais rapidamente em meios rígidos. Os meios menos rígidos são meios quentes e os mais rígidos, meios frios. Os fundos oceânicos que se fundem sob América do Sul mostram alta velocidade relativa das ondas sísmicas. Podem-se pintar esses meios (geralmente são pintados de cor azul, para exemplificar meios altamente rígidos) e se vê perfeitamente o destino dos fundos oceânicos no interior da Terra.

Quer dizer que a ideia de como era a mecânica de placas mudou um pouco ultimamente.

Esse é o ponto chave. O paradigma das ciências da Terra é a tectônica de placas. Este paradigma tem uma característica fundamental e rara: desde que nasceu não faz outra coisa a não ser solapar-se. Isso é redefinido porque há inovações tecnológicas muito profundas. Hoje, a tectônica de placas tem pouco a ver com a tectônica da forma como foi definida em fins dos anos 1960. Persiste uma ideia geral, mas mudaram muitas coisas: as 14 placas não são completamente rígidas, a forma em que interatuam é muito mais complexa do que se pensava, os fundos oceânicos não se assimilam. Hoje em dia, inclusive, há subteorias dentro da tectônica de placas que vinculam o clima com o levantamento de montanhas, coisa que inicialmente não se concebia.