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28 Janeiro 2014

"Os pobres e ex-pobres resolveram “agregar valor ao camarote”, às suas existências, ao puxadinho, à laje, à favela, afirmando a sua própria cultura e modo de estar no mundo", escreve Ivana Bentes, professora e pesquisadora do programa de pós graduação da ECO/UFRJ e coordenadora do Pontão de Cultura Digital da UFRJ, em artigo publicado no jornal Zero Hora, 25-01-2014.

Segundo ela, "é uma nova cara do Brasil, onde não existe incompatibilidade entre criticar os megaeventos e a Copa da FIFA e torcer pelo futebol, não existe incompatibilidade entre querer frequentar o shopping e se ver como sujeito politico. A política está nos corpos autônomos e potencializados, na forma de experimentar e partilhar o tempo e o espaço das cidades".

Eis o artigo.

Durante décadas as novelas, o noticiário sobre o fabuloso Eike Batista e sua princesa de coleira, as revistas de celebridades – com seus ensaios fotográficos em castelos e ilhas, chamando filhos de “herdeiros” e namorados de “eleitos” – ensinaram o que é ser “de elite” no Brasil dos carrões, mansões e mil marcas e logos. Ensinaram como essa elite estava em um outro patamar e classe, inatingível. E que era melhor aos pobres “porem-se no seu devido lugar”.

Mas bastou algumas políticas (ainda que insuficientes) de redistribuição de renda e empoderamento dos pobres no Brasil (da Bolsa Família às cotas raciais e sociais nas universidades) para que a potência negra e periférica emergisse como algo “assustador” para os que viam na “nova classe média” apenas um novo “nicho” de consumo, uma bem comportada “classe C”, dócil e sem pretensões.

Fenômenos como a jornada de protestos de 2013, a ascensão da cultura da periferia e ações como a dos rolezinhos apontam para outro cenário muito mais complexo e para além do que previram os experts das agências de publicidade.

É que a classe C parece não se contentar apenas com o direito de consumir, e vem para “estressar” a nossa jovem democracia, arrombando suas portas e buscando ampliar seus direitos e reivindicações. Uma radicalização do processo democrático que não se intimida com espaços de poder, mentalidade segregacionista e o “mercado pros pobres” que previram para ela.

A emergência desse novo sujeito político no Brasil coloca todo um sistema de valores em crise. Pois os pobres e ex-pobres, resolveram “agregar valor ao camarote”, às suas existências, ao puxadinho, à laje, à favela, afirmando a sua própria cultura e modo de estar no mundo.

Funk, hip hop, moda, outro jeito de vestir, de falar, novas sociabilidades, encarnado pelas popozudas, funkeiros, Mcs, jovens ativistas, jovens vindos dos coletivos, pontos de cultura, rolezistas, motoboys, universitários saídos do Pro-Uni, esses grupos muitos diversos não cabem na fôrma pensada para eles.

O que parece intolerável para certa classe média e elite é ter essa periferia negra e jovem entrando, sem ser convidada em espaços de consumo, conhecimento e lazer. Frequentando os shoppings, as companhias aéreas, as universidades com as cotas, disputando a cultura urbana, desejando, se apropriando e ressignificando e inclusive “zoando” com o mundo de distinção das grifes, marcas, autores, músicas, etc.

Essa curtição em cima do imaginário dos “ricos” e da classe média incomoda profundamente, pois a ostentação dos jovens, dos pobres, das popozudas, dos funkeiros, explicita não apenas o desejo de entrar no mundo normatizado do consumo, mas o que é realmente imperdoável, explode o lugar mesmo de “distinção”, racista e classista, e o lugar que lhes estava destinado.

A periferia ostenta distintos modos de existência que não passam apenas pelo consumo de imitação e de inserção (que obviamente existe e ai está). Junto ao desejo de inclusão pelo consumo, a periferia está criando novas formas de prestígio e distinção, como vimos nas culturas afro-brasileiras e populares (que têm suas entidades, reis, rainhas, babalorixás, etc.) outros processos de empoderamento da juventude periférica brasileira para além do consumo das marcas.

Na questão dos rolezinhos impressiona o medo (baseado em preconceitos arraigados) desses virtuais consumidores. Ou seja, nossa “elite” não é nem suficientemente capitalista, como nos EUA, por exemplo, que reconhece a classe média negra consumidora há décadas.

Não chegamos, portanto, nem na inclusão mínima trazida pelo consumo, como mostrou Néstor García Canclini no seu livro Consumidores e Cidadãos, brilhante análise da questão da cidadania na América Latina, onde “perguntas dos cidadãos são respondidas mais pelo consumo privado de bens e dos meios de comunicação de massa do que pelas regras abstratas da democracia ou da participação coletiva em espaços públicos.”

Os jovens buscam como consumidores os direitos que lhes negaram como cidadãos, mesmo que isso não seja nem explicito nem intencional nos rolezinhos.

É óbvio que o aprofundamento da democracia não pode restringir os direitos a quem pode consumir, nem subsumir o cidadão ao consumidor ou teremos uma democracia de mercado simplesmente, com todas as suas distorções.

As manifestações de 2013 tiveram como pauta a reversão dessa lógica, em defesa da vida, em nome de uma biopolítica e potencialização da vida e construção de espaços de partilha, posse da cidade, mobilidade urbana, direitos assegurados e ampliados, sejamos consumidores ou não, sejamos estudantes, indígenas, ribeirinhos, quilombolas, jovens de qualquer grupo social. Jornadas que expressaram uma resistência diante da especulação do capital contra a vida.

Essa é uma nova cara do Brasil, onde não existe incompatibilidade entre criticar os megaeventos e a Copa da FIFA e torcer pelo futebol, não existe incompatibilidade entre querer frequentar o shopping e se ver como sujeito politico. A política está nos corpos autônomos e potencializados, na forma de experimentar e partilhar o tempo e o espaço das cidades.

A criminalização dos rolezinhos espanta porque funciona como uma senha que libera o racismo do Estado, de empresários, nas rede sociais, e todo tipo de preconceito e palavras de ordem que produzem assujeitamento e desqualificação de grupos sociais inteiros.

Os shoppings e seus administradores preferem amargar prejuízo de milhões, com portas fechadas, para impedir que seu espaço seja partilhado por “gente diferenciada”, não apenas os jovens das periferias, mas ativistas, jovens brancos e nem tão brancos, todos que se solidarizaram com os rolês.

O paradoxo do cidadão-consumidor faz pensar ainda nas formas e estratégias de politizar o consumo e seus espaços, como forma de ativismo. A cidade e sua partilha passa a ser problematizada no simples ato dos jovens da periferia se mobilizarem coletivamente para irem se divertir, paquerar, zoar, lanchar, comprar, não de forma individualista (quando já eram olhados com suspeição e sofriam pequenas humilhações) mas de forma coletiva e mobilizada, um modo de se protegerem e encararem os espaços que os veem como indesejáveis.

A reação desproporcional dos empresários, dos donos de shopping, da mídia, do Estado e da policia é duplamente constrangedora: medo de furtos e depredações, associando a juventude periférica ao crime (medo dos pobres e ex-pobres, da classe C, dos emergentes) e, supremo horror, medo da “politização” dos rolezinhos pelos ativistas.

Ora, a simples ida ao shopping dos jovens da periferia e a reação alarmada do empresariado já fazem dos rolezinhos um fato politico. O medo é justamente que se produza uma mistura explosiva: classe média branca, periferia, juventude negra, ativistas, compristas, juntos em um mesmo lugar de convivência (seja a rua, seja o shopping) e se entendendo como sujeitos políticos.

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