20 Agosto 2026
O relatório da Oxfam Brasil divulgado nesta quarta-feira (19) revela uma imensa disparidade no crescimento da renda no país nos últimos anos. Enquanto a média do avanço da renda das famílias brasileiras em geral foi de apenas 1,4%, a parcela correspondente ao 0,01% mais rico da população, os comumente chamados de “super-ricos”, viu seus ganhos saltarem quase 8% ao ano.
A reportagem é de Lucas Salum e Maria Teresa Cruz, publicada por Brasil de Fato, 19-08-2026.
Esse ritmo de enriquecimento é mais de cinco vezes superior à média nacional e supera inclusive o crescimento médio do PIB brasileiro, que foi de 1,8% no mesmo período, evidenciando uma concentração de riqueza extrema no topo da pirâmide social.
Para Viviana Santiago, diretora executiva da Oxfam Brasil, existe “uma proteção da extrema riqueza”. Além disso, ela aponta que essa realidade não é um fenômeno acidental, mas, sim, um reflexo da estrutura política e social do país. “A desigualdade, de fato, é um projeto, uma intenção”, afirma ao Conversa Bem Viver.
Segundo a especialista, o Brasil enfrenta um problema estrutural em que políticas públicas pontuais de redistribuição de renda são importantes, mas insuficientes para reverter o cenário, pois existe uma manutenção histórica de privilégios que permite que o dinheiro circule de forma a favorecer quem já detém o poder. Santiago avalia que a chave de tudo é rever a forma como o dinheiro circula no país.
“Isso é importante, porque desigualdade não é só pobreza. Quando a gente está falando de desigualdade, a gente está falando fundamentalmente da concentração de riqueza. A desigualdade é, ao mesmo tempo que a gente tem muitos pobres, a gente tem algumas pessoas extremamente ricas que concentram uma renda maior que a da maioria dos pobres. Isso é desigualdade”, reforça.
O estudo também aponta que o poder econômico se transforma em poder político, criando um ciclo de manutenção de privilégios. Santiago ressalta que “as pessoas que são muito ricas enriquecem numa velocidade muito maior do que as pessoas que são mais pobres conseguem superar a pobreza”. Essa dinâmica é alimentada por uma “blindagem” do patrimônio dos mais ricos e por uma rede de influências e lobby que atua constantemente no ambiente político, garantindo que esse grupo capture uma parcela desproporcional da renda total do país, enquanto a maioria da população vê sua renda comprometida pelo consumo e pelo endividamento.
Santiago encoraja as pessoas a buscarem candidaturas que desafiem justamente esse status quo: mulheres negras, LGBT+, pessoas com deficiência, indígenas. “Essas pessoas, chegando ao poder, vão receber essa mesma pressão [do lobby], mas tendem a atuar muito mais de maneira conectada com as agendas do conjunto da população”, acredita.
Leia mais
- Super-ricos do Brasil pagaram só 4,6% de Imposto de Renda em 2023, contra 27,5% da classe média
- A desigualdade mundial está aumentando: 10% da população detém 75% da riqueza
- Desigualdade: África sofre impacto desproporcional dos efeitos da emergência climática
- Crescimento da desigualdade na década de 2020. Artigo de Michael Roberts
- Rumo à oligarquia dos bilionários
- Bilionários lucram R$ 34 bilhões por dia enquanto pobreza global segue intocada desde 1990, aponta Oxfam
- Riqueza dos cinco homens mais ricos do mundo dobrou desde 2020, enquanto a de 5 bilhões de pessoas diminuiu, revela novo relatório da Oxfam
- “É hora de redistribuir a riqueza”. Entrevista com Thomas Piketty
- Impostos e crescimento ao longo da história, segundo Thomas Piketty
- A igualdade recomeça a partir do clima. Artigo de Thomas Piketty“
- As desigualdades são escolhas ideológicas”. Entrevista com Thomas Piketty
- Plano mais Brasil não é um projeto de crescimento, mas de aprofundamento da desigualdade econômica e social. Entrevista especial com Guilherme Delgado
- 'País pode ter crescimento, mas com aumento da desigualdade’, diz Belluzzo
- Com o crescimento das desigualdades, americanos deixam de pensar no futuro