Colômbia: "Esperamos que o governo Santos possa construir um processo de paz’. Entrevista especial com Maurício Durán

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06 Agosto 2010

Maurício Duran é diretor do Centro de Investigación y Educación Popular – Cinep, na Colômbia. Durante o Encontro dos coordenadores do Apostolado Social e dos diretores do Centro de Pesquisa e Ação Social da Companhia de Jesus na América Latina, que ocorreu em São Leopoldo na última semana, a IHU On-Line conversou, pessoalmente, com ele. Duran falou sobre a situação da Colômbia e sua análise partiu do exemplo de seu colega, Padre Javier Giraldo que, por sua luta pela defesa dos direitos humanos, tem sido ameaçado de morte.

Segundo Maurício Durán, hoje os paramilitares têm muito mais poder do que as guerrilhas devido aos vínculos que formaram no país. Além disso, devido ao histórico de assassinatos, massacres e desaparecimentos, o temor entre a população é grande. Por isso a principal estratégia usada para continuar com este poder é a ameaça. É o que basta hoje, aponta o padre jesuíta.

Maurício García Durán tem formação nas áreas de Ciência Política, Filosofia, Teologia e doutorado em Estudos de Paz. Atualmente, é diretor do Cinep.

Confira entrevista.

IHU On-Line – Como a luta do Padre Javier Giraldo demonstra a situação da Colômbia hoje?

Maurício Durán – Padre Giraldo representa muito a situação do país. Javier está envolvido há muitos anos com o tema dos direitos humanos, que na Colômbia é algo crítico. Nos últimos 30 anos, na Colômbia, se estima que, pelo menos, 55 mil pessoas foram mortas por assassinatos políticos, massacres ou estão desaparecidas. Estamos falando em um número muito impressionante. Creio que Javier assumiu um compromisso muito forte e persistente para denunciar o que está acontecendo no país. Isso implica em perseguições que dificultam sua luta. Ele denuncia os abusos cometidos pelos paramilitares, que são os principais responsáveis pelas violações dos direitos humanos nos últimos 25 anos, mas também denuncia os abusos feitos pelos militares e pela guerrilha. Boa parte do problema está relacionado às denúncias contra os militares e paramilitares.

IHU On-Line – E como vive a população do interior da Colômbia?

Maurício Durán – Depende da região, porque algumas são mais conflitivas do que outras. Os principais problemas acontecem nas regiões onde há terras que podem ser úteis para grandes projetos, assim como ocorre na Amazônia brasileira. Obviamente, o problema é muito complexo, a situação de pobreza é muito grande, as pessoas não têm acesso a serviços básicos, e a presença do Estado é muito limitada. Elas estão sendo expulsas de onde vivem. As regiões onde há cultivo de coca também vivem uma situação complexa. Há confrontos entre guerrilhas e paramilitares para ver quem controla a área e o negócio da droga.

IHU On-Line – Qual o poder que os guerrilheiros e os paramilitares têm ainda na Colômbia? Quais são as principais diferenças entre esses dois grupos?

Maurício Durán – A diferença de poder está relacionada aos vínculos que fazem em torno dos poderosos. Nesse sentido, os paramilitares estão muito vinculados com setores que têm grandes riquezas, latifundiários, narcotraficantes, mineradores e com políticos. Agora, na Colômbia, corre uma investigação muito grande sobre o vínculo entre os paramilitares e políticos, que também são conhecidos como parapolíticos. Já descobriram que em muitas regiões os políticos estão operando e fortalecendo a estrutura de poder dos paramilitares.

A guerrilha também tem seus vínculos, mas, neste momento, menos do que os paramilitares. Obviamente, o que está em jogo são os oito anos, que terminam no sábado, do governo Uribe onde esses movimentos tiveram ampla predominância.  

IHU On-Line – E como o senhor vê a questão dos direitos humanos na Colômbia?

Maurício Durán – A Colômbia continua tendo graves problemas no que diz respeito aos direitos humanos. No Chile, durante a ditadura de Pinochet, quase quatro mil pessoas foram mortas ou estão desaparecidas. Na Colômbia, nestes últimos anos, este número é incrivelmente maior, algo em torno de 60 mil. A situação é cada vez mais crítica na medida em que o conflito não se resolve.

No entanto, está mudando as modalidades de conflitos e amedrontamentos. Hoje em dia não há mais tantos massacres ou assassinatos, porém há ameaças. Essa estratégia de poder segue funcionando e mostra o peso que tiveram os massacres antigamente, por que hoje basta a ameaça. A população vive atemorizada. O departamento de segurança do governo do presidente Uribe, que está terminando, está diretamente ligado à presidência, tem feito investigações clandestinas e ilegais contra os membros da Corte Suprema de Justiça, do Congresso, defensores dos direitos humanos, jornalistas e opositores. E esta é uma violação muito grande.

IHU On-Line – O que o senhor espera do governo de Juan Manuel Santos?

Maurício Durán – Há muita expectativa. No país, havia um pouco de cansaço em relação ao estilo do presidente Uribe. No entanto, ele sai do governo com um alto índice de popularidade. Chamamos o estilo de Uribe, que cansou a população, de `confrontacional` com os países vizinhos, com a oposição, com a Corte Suprema de Justiça, com os defensores dos direitos humanos.

Não sabemos onde o governo de Santos vai chegar. Ele tem interesses em grandes projetos de desenvolvimento. Demonstra, porém, neste momento, que quer mudar coisas na política e que pode já começar a enfrentar alguns temas. Esperamos que haja maior diálogo com a sociedade civil e suas organizações. E, nesse sentido, o vice-presidente pode ajudar muito por que vem de um partido que participa das redes da sociedade civil. Por outro lado, esperamos que o governo Santos possa construir um processo de paz.


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