Podemos ou não podemos? A propósito do caso Monedero

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Por: André | 11 Mai 2015

“Nenhuma luta parte hoje do zero, mas de uma situação de negatividade estruturada e não eliminável de repente: o que colocará sempre o problema daquilo que devemos simplesmente aceitar (sem perder a consciência de que isso nos mancha as mãos, mas procurando que não nos manche o coração), e daquilo com o que de modo algum podemos compactuar”.

A análise é do teólogo espanhol José Ignacio González Faus, jesuíta, publicada no seu blog Miradas Cristianas, 01-05-2015. A tradução é de André Langer.

Nota da IHU On-Line: Para uma melhor compreensão da discussão feita no artigo abaixo, sugerimos a leitura de "'Podemos' em crise. Um comentário", de Pablo Ortellado.

Eis o artigo.

Antes se fazer coro ao grupo do “réquiem aeternam” já entoado por alguns meios de comunicação, conviria recordar que as crises são uma grande oportunidade para uma profunda reflexão.

1.- Na minha modesta opinião, o Podemos esqueceu três coisas muito importantes.

1.1.- Primeira: que a tentação de toda esquerda é a desunião. Os interesses unem mais que os ideais; por isso, a direita, que se une em torno de interesses, mantém a unidade mais facilmente que a esquerda, que nasce a serviço de ideais: porque tendemos a absolutizar o  nosso  modo de ver esse ideal e caímos na intolerância ou no protagonismo. Já escrevi outra vez que, infelizmente, é mais apropriado falar de “esquerda desunida” do que de esquerda unida.

De saída, somos assim; poderemos melhorar, mas não devemos esquecer de que massa somos feitos.

1.2.- A segunda é aquela frase romana (cunhada antes do nascimento dos meios de comunicação); “À mulher de César não basta ser honesta; tem de parecer honesta”. A questão dos 400.000 dólares do Juan Carlos Monedero provindos de assessorias à Venezuela e outros países latino-americanos não ficou diáfano e era um empecilho para o partido. Não porque a Venezuela converteu-se nesse inimigo comum que sempre necessitamos para permanecer unidos e anatematizar o outro quando não temos argumentos, mas, sobretudo, porque não se tratava apenas de apresentar faturas: poderia ser tudo legal, mas também eram ilegais os milhares de euros de F. Trillo e de Martínez Pujalte por não sei qual suposta assessoria.

A pergunta não é se aquilo era legal, mas se era moral. E, sem dúvida, não parece moral.

1.3.- O terceiro erro, no meu modo de ver, é acreditar dogmaticamente que “a rua” ou as pessoas em geral são espontaneamente de esquerda: uma visão muito difundida entre todas as sensibilidades esquerdistas. Mas não: as massas tendem a ser conservadoras, não por sua culpa, mas porque a realidade lhes ensinou a desconfiar dela e preferem aquilo que diz o ditado (“Virgencita mía, que me quede como estaba.” Expressão para dizer que preferimos estar mal a estar pior.), a grandes promessas de milagres tantas vezes falidas.

Compreendo que isso pode soar a essa falsa música do “não há nada a fazer”, embora não seja isso que quero dizer: há muito a fazer, mas isso implica uma pedagogia que desfaça as desconfianças inatas e vá avançando por meio de pequenos passos, sem falsas promessas instantâneas do céu na terra. (E mesmo sabendo que esse avanço progressivo provocará o desespero e a crítica dos que reclamam infantilmente: “Tudo, e agora mesmo”). Deixem-me evocar uma estrofe do hino sandinista, tão ouvido na Nicarágua na década de 1980: “O amanhecer deixou de ser uma tentação: amanhã, algum dia, surgirá um novo sol que cobrirá de luz toda a terra... com caudalosos rios de leite e mel”.

Afinal, os rios caudalosos eram de pinhata, e, mais que iluminada, a Nicarágua caiu nas trevas de um poder manipulador que se apropriou da revolução... Isso a sabedoria popular intui à sua maneira e, por isso, antes de vender-lhe as nossas promessas celestiais, é preciso procurar merecer e ganhar honradamente sua confiança: com fatos e não com palavras.

Algo disso, creio, faltou ao Podemos. O choque com este lado esquecido da realidade pode ser uma grande oportunidade para crescer bem e, por isso, discordo do tom alegre de todos os meios de comunicação que já celebram antecipadamente sua queda. Pessoalmente, eu tenho resistências a votar neles depois do turvo caso do Monedero. Agora que renunciou, é muito mais provável que acabe votando neles: sem grandes expectativas, mas convencido de que dar uma grande lição aos dois partidos cúmplices da nossa situação atual (embora um deles queira apresentar-se como arrependido disso) é uma das melhores coisas a que podemos aspirar agora.

Persuadido também de que as propostas econômicas do Ciudadanos (como aumentar o IVA dos produtos mais básicos) são apenas “mais do mesmo”. E suspeitando resignado que as conquistas sociais são como a chufa da minha terra: não há maneira de conservá-la senão preparando-a diariamente; porque quando se quer conservá-la e comercializá-la, deixa de ser a chufa.

2.- Depois desta análise particular ficam duas lições universais para recordar:

2.1.- A primeira é que não há partos virginais (nem sequer o de Jesus o foi): a vida nasce sempre do meio da sujeira e dos dejetos; mas é vida e promessa o que ali nasce. Isso deve servir para compreender o que aconteceu com o Podemos.

2.2.- E em segundo lugar: nenhuma luta parte hoje do zero, mas de uma situação de negatividade estruturada e não eliminável de repente: o que colocará sempre o problema daquilo que devemos simplesmente aceitar (sem perder a consciência de que isso nos mancha as mãos, mas procurando que não nos manche o coração), e daquilo com o que de modo algum podemos compactuar: o voto das mulheres implicava perder as eleições seguintes porque o voto da maioria das mulheres era conservador; mas Clara Campoamor aceitou essa derrota contando com o fato de que, no longo prazo, se convertesse em vitória.

Há pouco, em uma entrevista, dei o exemplo da SER [acrônimo para Sociedade Espanhola de Radiodifusão, a cadeia de rádio mais antiga e de maior audiência do país]: tem jornalistas de qualidade, com os quais é muito fácil sintonizar (Pepa Bueno, Angels Barceló...). Mas depois de ouvi-las por alguns minutos passamos à escravidão da publicidade e nela se repetem constantemente mensagens e valores contrários àqueles que esses bons locutores puderam transmitir: que ser um super herói não é entregar a vida para melhorar o mundo, mas simplesmente “ter um Citroën”; ou que 17 milhões de euros valem quase tanto quanto o amor de uma mãe (e este anúncio me doeu mais por ser veiculado pela ONCE): por essa razão, a fortuna do senhor Amancio Ortega, que beira os 40 bilhões, vale muito mais que o amor de uma mãe...

Esses antivalores destroem tudo o que os locutores tenham tentado construir, por mais que para isso tenham ido a Lampedusa ou ao Nepal. Mas, atualmente, sem a publicidade não há meios de comunicação: uma escravidão não eliminável hoje, e que será preciso fazer com que nos afete o mínimo possível e que não acabe dispondo de nós, exigindo de nós uma renúncia prática dos ideais que afirmamos defender.

Dito agora em jargão teológico: vivemos em um enorme pecado estrutural que nos torna mais propensos ao pecado pessoal (um “sistema que mata”, disse Francisco), e daí só se sai (se é que se sai) por um caminho duplo e progressivo de mudanças pessoais radicais e mudanças estruturais sucessivas. Ou de maneira mais laica: a grande tarefa desta vida na política é juntar ao mesmo tempo radicalidade e realismo: porque são como o homem e a mulher: um sem o outro é estéril.

E isso diz respeito a todos: Monedero, Iglesias, esses círculos do “Podemos e espiritualidade”, e o autor destas linhas. Oxalá, a partir daí, consigamos dar alguns passos efetivos para frente.

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