Os novos santos do atual papado não são somente pontífices

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16 Mai 2014

Após canonizar, recentem

ente, dois papas, João XXIII e João Paulo II, o Papa Francisco anunciou planos para aproximar, por vontade própria, mais outro pontífice às auréolas, Paulo VI, beatificando-o em 19 de outubro. Atualmente, nas conversas entre católicos pode-se detectar um descontentamento para com esta erupção de santos pontífices: Por que Francisco não encontra alguns leigos, em particular mulheres, para honrar?

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada pelo jornal Boston Globe, 15-05-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O destacado escritor católico americano Paul Elie, por exemplo, expressou a esperança de que canonizar João XXIII e João Paulo II iria “tirar de pauta as canonizações papais”.

“Agora chegou a hora de a Igreja considerar a santidade de leigos e leigas, em especial de pessoas casadas e pais”, disse Elie em abril.

Até certo ponto, no entanto, tais reações podem refletir o status de celebridade dos papas mais do que a substância da abordagem de Francisco, pois ele já adiantou as perspectivas de santidade de um número impressionante de leigos e de mulheres.

Naturalmente, um comunicador tão hábil quanto o Papa Francisco deve perceber que suas escolhas vão provavelmente ressoar somente dentro da instituição até o momento em que ele encontrar um candidato para a santidade que cative a todo mundo, que simbolize a nova direção para a qual está apontando a Igreja, um alguém que faça o mundo parar para observar a importância das mulheres e do laicato. Não obstante, as causas para a santidade que ele, até então, fez avançar não refletem um papa determinado a comemorar apenas aqueles do topo da escada clerical.

O novo papa começou as canonizações em seu papado com um estrondo, celebrando uma missa de canonização, em maio de 2013, para Antonio Primaldo e 812 outros italianos martirizados do século XV. De uma só vez, Francisco quase dobrou o número total de novos santos canonizados pelo Papa João Paulo II, quem estabeleceu o recorde de canonizações durante o seu papado de quase 27 anos.

Primaldo era leigo e artesão, tendo sido morto junto com outros moradores, em sua maioria leigos, da cidade Otranto, Itália, durante o período de ocupação turca.

A decisão de nomear tais santos, no entanto, foi tomada sob o papado de Bento XVI. Em termos das causas pelas quais ele é pessoalmente responsável, Francisco mexeu os pauzinhos para 410 candidatos desde sua eleição.

Uma parcela surpreendentemente elevada, de quase 35%, é formada por mulheres, e quase as metade delas é composta de leigas. Estas candidatas leigas à santidade incluem, por exemplo, 124 mártires coreanas do século XIX que serão beatificadas numa grande cerimônia pública durante a viagem do papa à Coreia do Sul marcada para agosto.

Os procedimentos para a santidade na Igreja Católica começam com um seguimento popular, e cabe às autoridades da igreja local conduzir uma análise preliminar. Uma vez que o caso chega a Roma, um papa pode levá-lo adiante por uma destas cinco formas básicas:

• Aprovando um “decreto de virtude heroica”, que certifica que alguém levou uma vida sagrada e que é merecedor do título de “venerável.

• Autenticando um milagre vinculado ao candidato, requisito para a beatificação, que é o estágio final antes da santidade.

• Autenticando um segundo milagre que permite que alguém seja canonizado, ato formal de considerá-lo um santo.

• Reconhecendo alguém como mártir, ou seja, que a pessoa foi morta em nome da fé, o que elimina o requisito de um milagre e permite a beatificação imediata.

• Dispensando o requisito do milagre e elevando a pessoa diretamente a santo, o que Francisco fez em dezembro, por exemplo, com o padre jesuíta do século XVI Pedro Fabro.

Três quartos dos casos nos quais Francisco submeteu um destes decretos envolveram grandes grupos de pessoas. Além dos mártires coreanos, em março de 2013 o Papa Francisco reconheceu o martírio de 47 católicos mortos durante a guerra civil espanhola entre 1936 e 1939, e em junho de 2013 fez a mesma coisa para um outro grupo de 64 católicos assassinados durante o mesmo período.

Nos 109 casos em que as causas foram perpetradas para indivíduos, 38 são mulheres, representando 35%.

A lista de mulheres reconhecidas durante o atual papado inclui uma mistura de indivíduos relativamente conhecidos, tais como a rainha Maria Cristina, de Saboia, e Maria Rocío de Jesús, freira nascida na Espanha em 1923 e falecida na Itália em 1956. Francisco aprovou um milagre para a primeira em maio de 2013 e assinou um decreto de virtude heroica para a segunda em fevereiro de 2014.

A maior parte destas candidatas à santidade foram freiras, muitas fundadoras das ordens religiosas às quais pertenciam. (Tecnicamente isso ainda as faz leigas, uma vez que, sob o direito canônico, somente homens podem ser ordenados, embora os católicos em geral não considerem leigas as freiras.)

Por exemplo, em abril Francisco ignorou a exigência do milagre para declarar santa Maria Guyart, conhecida por seu nome religioso “Maria da Encarnação”. Guyart foi a fundadora das Irmãs Ursulinas em Quebec no século XVII, bem como uma pioneira na educação da população indígena do Canadá.

A mesma coisa fez o pontífice, em outubro, para Ângela de Foligno, mística do século XIII considerada uma das grandes visionárias e escritoras da Idade Média. Ela também fundou uma ordem religiosa feminina, a qual se recusava a aceitar o costume medieval de as freiras viverem enclausuradas. Desse modo, elas podiam sair e servir aos pobres.

Tais casos são conhecidos como uma “canonização equivalente”, porque não há uma cerimônia na Praça de São Pedro para marcar o acréscimo de um novo santo (ou de uma nova santa).

No entanto, um punhado de casos envolve, atualmente, mulheres que não pertenceram a nenhuma ordem religiosa. Estes casos incluem Sílvia Cardoso Ferreira da Silva, ativista social portuguesa conhecida pela defesa dos pobres e das crianças doentes, e Elisabetta Sanna leiga italiana do século XIX que foi atuante nos círculos em torno de São Vicente Pallotti, missionário urbano e precursor das iniciativas para a unidade dos cristãos.

O Papa Francisco assinou decretos de virtude heroica em ambos os casos.

Embora a maioria dos candidatos homens cujos casos foram levados adiante sob o atual papado seja de sacerdotes, há também vários leigos homenageados.

Estes incluem Attilio Luciano Giordani, que trabalhou para a empresa de pneus Pirelli na Itália no pós-segunda guerra mundial e atuou em sua paróquia local como professor de religião, bem como Jerzy Ciesielski, leigo polonês que foi amigo próximo do futuro Papa João Paulo II e ajudou a fundar o movimento Focolares, na Polônia (grupo primeiramente de leigos devotados à promoção da unidade entre os cristãos ao longo das divisões confessionais). Tanto um quanto o outro foram casados e pais de três filhos.

Francisco assinou um decreto de virtude heroica para Giordani, dando-lhe o título de “venerável” em outubro de 2013, e fez o mesmo em dezembro para Ciesielski.

Em dezembro de 2013, Francisco reconheceu o martírio de Isidore Ngei Ko Lat, catequista leigo assassinado em Mianmar (Birmânia) em 1950. Em março, reconheceu a virtude heroica de Luigi Rocchi, leigo italiano falecido em 1979 após viver com paralisia por 28 anos decorrendo de uma distrofia muscular severa e que, hoje, é conhecido como o “santo da cadeira de rodas”.

Com certeza nenhuma destas figuras provavelmente iria atrair mais do que um milhão de devotos a Roma em uma cerimônia de santidade como aconteceu nas canonizações de 27 de abril dos papas João XIII e João Paulo II, nem estaria o Vaticano organizando uma série de eventos para celebrar seus legados como foi feito para os dois papas anteriores e como provavelmente vai ser feito para o Papa Paulo VI.

Tal distinção, no entanto, diz tanto sobre a influência dos pontífices quanto sobre a distribuição real dos casos de santidade. Àqueles que se perguntam quando este “papa do povo” irá encontrar algum leigo e alguma mulher para elevar, em outras palavras, a resposta é que ele já encontrou.

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