Teologia Pública: fronteiras e caminhos

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11 Abril 2014

"Com a tecnologia ocupando espaços cada vez maiores na vida das pessoas, mesmo sem o entendimento pleno de seu funcionamento por parte dos usuários e na presença dos mais variados grupos e discursos religiosos, intui-se um "momento de fronteira", no qual a teologia readquire seu status de discurso público", escreve Renato Ferreira Machado, doutor em Teologia, autor, entre outros textos, de "O desencantamento da experiência religiosa em House: 'creia no que quiser, mas não seja idiota'", Cadernos Teologia Pública, no. 84, 2014.

Eis o artigo.

Pensar em uma Teologia Pública leva ao questionamento sobre quando e por que o fazer teológico tornou-se privado, deixando de ter algo a dizer ao mundo para comunicar-se apenas com os adeptos de determinada tradição religiosa. Grosso modo, poderíamos situar esta transição na modernidade industrial, quando uma civilização eclesiocêntrica transmutou-se, aos poucos em antropocêntrica pela via das ciências instrumentais.

De certa maneira, a "explicação do mundo" o desmistifica e, segundo Max Weber, o desencanta. Se até então o discurso religioso explicava a realidade, a partir de então ele passa a interpretar a realidade, tornando-se um "ponto de vista" e não mais um horizonte inquestionável. E isso fez um bem enorme para a religião, em si.

Sistemas religiosos nascem de uma experiência de sagrado que, traduzida simbolicamente e revivida ritualisticamente, acaba dando origem a uma Tradição Religiosa. Historicamente, ao se aproximarem do poder militar e político, algumas tradições adotam discursos hegemônicos que, para sustentar as conquistas, buscam explicar a realidade sob seus signos de pertença. Tal atitude ressignifica a experiência de sagrado original da tradição e apresenta, como transcendente, a propria manutenção do poder. A queda da hegemonia religiosa na modernidade, portanto, pode ser lida sob este aspecto: foi um momento de purificação necessário aos sistemas religiosos que viviam mais sob uma mitologia de afirmação de poder, legitimada por alianças políticas, do que da renovação das experiências originárias de sacralidade e dos compromissos intuídos desta. Este processo de mudança não foi imediato e continua em curso ainda em nossos dias. O advento da era moderna, porém, erigiu uma outra experiência religiosa para a civilização ocidental.

Quando o saber científico passou a explicar o mundo ele se tornou uma nova palavra ordenadora da realidade. No contexto histórico em que as ciências experimentais agigantaram seu vulto, o ser humano passou a buscar nestas ciências um espelho onde reconhecesse o proprio rosto. Em parte, ele realmente encontrou. Porém, as derivações de uma cosmovisão matematicamente embasada revelaram um moralismo e uma potencial opressão tão grande quanto os sistemas religiosos que governavam o mundo anteriormente. Ao explicar o mundo com exatidão, dava-se margem para uma concepção social embasada em estratégias produtivistas, alimentando o sonho de que o progresso científico e econômico trazia, em si, a plena realização da pessoa. Aqueles que ficavam para trás nesta sistemática eram reconhecidos como retardatários deste processo, sofrendo, com isso, a marginalização deste sistema. Assim, nos marginalizados, a civilização científica e industrial, tinha seus novos excomungados. Nos processos e condenações judiciais, uma nova iniquisição.

A psicanálise, nascida no interior desta identidade civilizacional, ensina que, tudo aquilo que não é resolvido conscientemente pela pessoa, acaba se traduzindo em neurose. De certa maneira, a exclusão do discurso e das instituições religiosas das grandes discussões, neurotizou as identidades religiosas, em um movimento de retração e fechamento, no qual tudo aquilo que não respondesse à doutrina passava a ser visto como pecaminoso e condenatório. Se hoje ainda discutimos a questão do criacionismo, por exemplo, é porque somos herdeiros de um tempo no qual os sistemas religiosos tentaram se afirmar de forma independente do "mundo", oferecendo aos seus adeptos uma segurança que a sociedade, com todas as suas mudanças não oferecia mais. Assim, de uma religião que explicava e comandava o mundo, chegou-se a uma religião que negava a realidade e "salvava" através da fuga desta mesma realidade. E este é o ponto no qual a teologia deixa de ser pública: o discurso teológico, neste contexto, é privatizado e direcionado apenas aos que confessam determinada fé. Ele não é para o "mundo" e o "mundo" não reconhece mais sua legitimidade e, muito menos, sua universalidade.

Obviamente estamos nos referindo aqui às grandes tendências que marcaram determinados tempos históricos, reconhecendo que sempre houve movimentos de resistência a estas tendências. Alguns dos quais, inclusive, que chegaram a dar frutos tão significativos que acabaram tornando-se, eles mesmos, novas tendências. Talvez o Concílio Vaticano II seja o grande paradigma desta questão. Nele, aliás, colocam-se as grandes bases para uma ressignificação do elemento religioso na vida e na cultura humana. Tanto que, dali sairão ideias e ideais, como o Pacto das Catacumbas, que darão à luz linhas de pensamento como a Teologia da Libertação, que buscava uma síntese entre fé e vida, em vistas de uma transformação social norteada pelos valores do Reino. Ora: se o "Reino" começa a ser reconhecido como sinal universal de libertação e transformação, sem que isto implique em uma conversão ou adesão institucional, já se tem ali uma Teologia Pública.

Na obra "Teologia da Cultura", Paul Tillich pergunta sobre o lugar da dimensão religiosa na vida humana, no sentido de saber se ela teria um lugar proprio, se ela poderia substituir ou ser substituída por algum âmbito da vida ou mesmo se ela ainda teria lugar na forma como a vida se configura em nossos tempos. Sua conclusão é de que a dimensão religiosa se encontra em todas as dimensões da vida humana, conferindo-lhes profundidade. Tillich, aliás, trata da teologia como elaboração a respeito das questões últimas, uma vez que, em nossa cultura, as questões últimas estão simbolizadas na palavra Deus (Theos). Na elaboração de Tillich, portanto, há pistas importantes para uma Teologia Pública.

Primeiramente, a de que o ser humano é religioso, não por causa de uma instituição, mas por buscar "sentido último" naquilo que faz e cria. Em determinado período da história, a instituição religiosa apontava o "sentido último"; depois, as ciências e a ideia de progresso pareciam revelar este senso escatológico; e eis que, agora, em um contexto de mudança de época, este horizonte transita novamente. 

O estatuto do indivíduo, inaugurado na hipermodernidade, parece apontar para as questões últimas a partir de um amálgama entre religião e ciência, espiritualidade e tecnologia. Desta vez, porém, o elemento religioso e o elemento científico parecem ser meros instrumentos para aquele que se acredita protagonista: o ser humano. Neste contexto, com a tecnologia ocupando espaços cada vez maiores na vida das pessoas, mesmo sem o entendimento pleno de seu funcionamento por parte dos usuários e na presença dos mais variados grupos e discursos religiosos, intui-se um "momento de fronteira", no qual a teologia readquire seu status de discurso público. Aqui, porém, é preciso diferenciar teologia de pregação e público de massa.

Grande parte dos discursos religiosos promovidos no contexto atual apresentam caráter apologeta: são pregações revestidas de uma estética juvenil, com um conteúdo doutrinário muito presente que, na verdade, buscam resgatar o papel da religião no mundo pré-moderno. De certa forma, querem apresentar caminhos para a asalvação e fazer uma crítica velada ao contexto de diversidade e pluralidade no qual nos encontramos. Ao mesmo tempo, presencia-se eventos, mobilizações e discursos de caráter massivo, dirigidos a "todos", sem, no fundo, falarem a ninguém. Vende-se em massa para que o indivíduo afirme uma suposta identidade. Uma Teologia Pública precisa diferenciar-se destas atitudes.

Em primeiro lugar, ela precisa ser "teologia", ou seja, discurso sobre as questões últimas, intuindo sentidos de profundidade para a vida; e precisa ser "pública", falando a partir da realidade, ou melhor, abrindo-se como espaço de escuta desta realidade em seus clamores mais profundos e esperanças mais significativas. Será teologia quando não se preocupar em converter seu leitor, mas quando se tornar interlocutora na caminhada. Será pública quando for "para todos", oferecendo-se em contribuição para entender a vida como ela é, sem idealizações ingênuas e moralismos inúteis. Para que isso ocorra, é necessário que este fazer teológico seja peregrino e apaixonado pelo Reino, sabendo-se sempre como habitante das fronteiras.

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