Crise venezuelana. Cui prodest: Quem se beneficia?

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Por: Jonas | 17 Março 2014

Sobre a crise na Venezuela, o jesuíta Pedro Trigo avalia que “o país não está dividido entre o governo e a oposição, não está dividido em duas metades, mas em uma metade polarizada, que compreende o governo e a oposição, e a outra que não está e que não se sente representada nem por um e nem pelo outro, mas que pode mediar entre ambas porque, como leva o país adiante, sabe que nem o governo nem a oposição têm direito de impor seus ditados e, além disso, nós não podemos se dar ao luxo de prescindir de milhões de cidadãos de qualquer lado que estejam e nem sequer de um só, porque todos têm o direito e o dever de colaborar, e o país necessita de todos”. O artigo é publicado pela revista SIC, do Centro Gumilla, Caracas, 10-03-2014. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Há um adágio em direito processual que reza assim: cui prodest?, ou seja, quem aproveita isto que está sendo investigado? Se não se sabe quem é o autor ou o instigador de um fato, esta pergunta apresenta uma pista para encontrá-lo. O argumento de fundo é que não ocorre para ninguém fazer algo que o prejudique. Este argumento supõe que nós, seres humanos, comportamo-nos razoavelmente, ou seja, buscando nosso bem, embora esse bem não seja o bem último e nem sequer um verdadeiro bem; mas que, de todos os modos, se o fazemos é porque, enquanto o fazemos, enquanto persistimos em realizá-lo, o vemos como algo útil para nossos propósitos, algo que nos favorece.

Desta perspectiva, perguntamo-nos: a quem favorece o que está acontecendo em nosso país? Favorece somente aqueles que pescam em rio agitado. Aqueles que não têm argumentos para esgrimir ou aqueles que não conseguem que seus argumentos interessem, são aqueles que dizem que já não é o momento de falar, que chegou o momento de medir forças. Esses são os aqueles que nestes dias andam levantando a voz para que o incêndio se propague e buscando culpados para se descarregarem. Esses líderes, a direita do governo e da oposição, são aqueles que estão lucrando com tanta crispação e tanta desordem. A partir desta lógica, caberia suspeitar que entre os mais radicais da oposição exista infiltrados do governo, daqueles setores da situação que buscam apressar a ruína da burguesia para levantar sobre ela a nova ordem. O resultado deste clima é o fortalecimento do fascismo nos dois lados. Antes de tudo, no governo. Fascismo é tornar grande parte da publicidade de empresas em propaganda política, propaganda que substitui a realidade por consignas, que estigmatiza sistematicamente a seus adversários; fascismo é substituir os atos de governo pela autoafirmação do próprio poder; suprimir pela força a dissidência democrática, utilizar coletivos armados para neutralizar a dissidência; coagir a empresa privada para que se enquadre com o Estado. Fascismo na oposição, buscando o poder mediante a confusão.

Neste cenário, os jovens e mais concretamente os estudantes são a carne de canhão. Já dissemos que possuem causa justa para estarem desanimados, inclusive ressentidos, não só porque viram desabar o poder aquisitivo de suas famílias, mas, sobretudo, porque não conseguem lugar, porque o aparato produtivo está no chão e não há emprego para quando concluem seus estudos e são condenados a sair do país, e porque não possuem interlocutores, pois o governo governa apenas para os seus e não lhes confere espaço porque ignora as universidades que não controla e a empresa privada. Não concebe um Estado relativamente independente do governo, em que reine a meritocracia, sem nenhuma outra consideração a mais a não ser a preferência aos setores populares.

Quem é prejudicado gravemente por esta escalada de confrontação? Todo aquele que sente pelo país e está disposto a se encarregar com ele e a se responsabilizar do que lhe toca. Porque nós todos somos o país e todos nós somos necessários e ninguém fica de fora. Juntos somos ainda insuficientes, dada a magnitude da tarefa impostergável, pelo grau tão grave de deterioração humana da convivência, da segurança, do aparato produtivo, dos serviços básicos de educação e saúde, além de luz e água, em que estamos sumidos. Muitos e muitos profundos motivos podem ser alegados para a desconfiança e podem ser muito razoáveis; porém, acima deles está a realidade de que estamos divididos e não podemos continuar nos desconhecendo porque, vença quem vencer, sempre perde o país, que somos nós. Mais ainda, pensamos que o país não está dividido entre o governo e a oposição, não está dividido em duas metades, mas em uma metade polarizada, que compreende o governo e a oposição, e a outra que não está e que não se sente representada nem por um e nem pelo outro, mas que pode mediar entre ambas porque, como leva o país adiante, sabe que nem o governo nem a oposição têm direito de impor seus ditados e, além disso, nós não podemos se dar ao luxo de prescindir de milhões de cidadãos de qualquer lado que estejam e nem sequer de um só, porque todos têm o direito e o dever de colaborar, e o país necessita de todos.

Sendo assim, se olhamos da perspectiva do país e não do próprio poder como algo absoluto, não temos outro caminho a não ser deter o confronto e sentarmos para dialogar. Primeiro, porque não é legítimo absolutizar o poder, que é meramente instrumental, mas, além disso, porque é certo que a desqualificação absoluta dos adversários e a negativa em reconhecer os problemas e erros próprios, que chega até acabar com todos os meios de difusão para que não sejam conhecidos, não são sinais do poder do governo, mas de sua íntima fragilidade, são sinal de que não existe Estado e que fica apenas o exercício desnudo de poder. Também por parte da oposição, que toma a rua até tirar o Presidente, esta atitude revela a ausência de palavras e propostas convincentes e a escassa atração entre as massas. Revela que, assim como não há Estado, tampouco há partidos e apenas existe a MUD, e falta muito para que estejam em condições de deixar de ser mera oposição e se tornem em alternativa de superação.

Matéria impostergável do diálogo é, por parte do Estado, o reconhecimento prático de que está ao serviço de todos os venezuelanos e não apenas de seus clientes; o reconhecimento prático de que existe oposição e que representa a quase tantos venezuelanos como o próprio governo; o restabelecimento da independência de poderes e admitir, na realidade, que os corpos de segurança estão ao serviço da república e não do governo. Na esfera econômica tem que se chegar a um acordo com todos os produtores, grandes, médios e pequenos, para que o país produza muito mais e com eficiência, de maneira que os dólares do petróleo sejam reservados para comprar o que não pode se produzir no país. A mudança do Estado é a independência a respeito do governo e implantar a meritocracia, para que os serviços estejam à altura do tempo histórico. A única coisa que cabe ao governo é velar para que cumpram eficazmente suas funções e não se tornem sujeitos em si, ao invés de meros servidores dos cidadãos e do país, e com determinadas ênfases na gestão do Estado.

Um ponto sumamente sensível é o da impunidade, tanto porque as forças da ordem são parte do problema e não da solução, como porque o governo as emprega não para a segurança cidadã, mas para se sustentar como governo. É preciso depurar as polícias e a Guarda Nacional e lhes dar a obrigação que a constituição contempla.

Por parte da oposição, o reconhecimento real do governo e a disposição em colaborar com ele para conseguir um entendimento nacional. O mais importante é aceitar que em nosso país não se pode impor uma democracia de cidadãos, mas de organizações populares de base, ou seja, o privilégio dos pobres e não a igualdade formal que recobre a desigualdade fática e a convalida. O outro ponto de honra, é que o petróleo tem que continuar sendo do Estado, embora não possa ser empregado, como fez o governo, para se sustentar a si mesmo.

Se esses pontos não chegam a ser tocados com o desejo de se chegar a acordos sobre eles, continuaremos despencando no abismo e quanto mais demorarmos em nos sentar, mais difícil será colocar remédio.

Deus queira que tenhamos claro que este estado de violência favorece apenas a direita dos dois lados, e não ao país e a seus cidadãos, nem tampouco ao Estado, nem aos partidos genuinamente democráticos.

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