Reserva de Mata Atlântica no ES vale US$ 1 bilhão, conclui estudo

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19 Novembro 2013

Qual o valor de 23 mil hectares de Mata Atlântica muito preservados, no Espírito Santo, onde vivem 20% das espécies de aves registradas no Brasil, mais de 2.800 espécies de plantas e uma das últimas populações de onças-pintadas da região? Resposta: US$ 1 bilhão.

É o valor da reserva que a Vale mantém há 35 anos em Linhares, no Espírito Santo. O dado reflete o benefício econômico dos recursos ambientais da Reserva Natural Vale (RNV) e é a conclusão de um estudo pioneiro sobre a valoração de ativos e recursos ambientais.

A reportagem é de Daniela Chiaretti, publicada no jornal Valor, 18-11-2013.

O trabalho mediu o valor dos serviços prestados pela reserva - estoque de carbono, fornecimento de água e polinização, por exemplo. O dado novo avaliado por especialistas em economia ambiental foi medir o "valor de existência" ou de "não uso" da área. Trata-se de avaliar o benefício econômico de um recurso ambiental por si, mesmo sem conhecê-lo pessoalmente.

"É isso que leva pessoas a pagarem pela causa dos ursos polares, mesmo sem vê-los em seu habitat", diz Luiz Felipe Campos, gerente de biodiversidade e florestas da Vale. "A motivação de contribuir é saber que a existência da espécie está sendo garantida."

"O objetivo principal da reserva de Linhares é conservação. Mas para conservar tenho que saber o que estou conservando", afirma Campos. Sabe-se hoje, por exemplo, que na área existem ao menos nove onças pintadas. O fato de a reserva ter predadores de topo de cadeia indica alto nível de preservação do ambiente. "Resolvemos entender qual o valor que o ativo tem para a Vale e para a sociedade."

Com esse objetivo foram feitas

6 mil entrevistas em Belém, Recife, Porto Alegre e São Paulo. A ideia era descobrir o valor que a população daria à conservação de um pedaço de Mata Atlântica, sem conhecê-lo e sem saber quem era o dono, explica o professor de economia ambiental da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Ronaldo Seroa da Motta, coordenador do estudo no Brasil. Assim seria possível identificar o "valor de não uso" da área. Traçando um paralelo, seria descobrir, por exemplo, o valor de se usar uma praia.

O projeto, que custou R$ 1,5 milhão, foi conduzido por um grupo de pesquisadores dos EUA, Brasil e Espanha. A Quest Inteligência de Mercado coordenou a pesquisa de campo. O Lawrence Berkeley Laboratory, referência nas pesquisas de economia ambiental, trabalhou nas definições metodológicas e no tratamento estatístico dos dados. O pesquisador-chefe foi Michael Hanemann, considerado um dos maiores especialistas nesse tipo de pesquisa. O grupo reuniu cientistas do IPCC (o braço científico das Nações Unidas para mudanças climáticas) e pesquisadores do IBGE.

"Valor de existência é algo muito específico", explica Seroa. "Quanto vale um quadro de Van Gogh e um de Portinari?", ilustra. "Os dois são únicos e singulares, mas têm nível de importância muito diferentes." Valor de não uso é "o valor que as pessoas acham que aquele serviço vale."

O estudo apontou que os brasileiros estariam dispostos a desembolsar R$ 1,30 por mês, em média, ou R$ 15 por ano, para preservar a área. "Com toda a população brasileira pagando R$ 15 por ano, durante cem anos, e trazendo ao valor presente, chegamos a US$ 1 bilhão", afirma Seroa.

Técnicas de valoração ambiental existem há 25 anos. Estudos do gênero são feitos principalmente em áreas públicas, para justificar o uso de recursos na preservação. No Brasil, o mais comum são análises dos estoques florestais, de carbono e dos serviços sociais prestados às comunidades. "Empresas percebem que são também geradoras de serviços ambientais e medem isso em relatórios de desempenho de sustentabilidade", explica Seroa. A Vale é pioneira em medir o valor de não uso da reserva.

Para avaliar a reserva foi usado o conceito de Valoração Econômica Total (VET) com quatro vertentes: valor de uso direto (recreação, uso dos recursos naturais), uso indireto (a estabilização do clima ou proteção de bacias hidrográficas), de opção (usar os recursos no futuro) ou não uso (o valor que as pessoas atribuem ao recurso natural). O projeto durou sete meses.

O estudo avaliou, também, outros serviços ambientais da reserva. O estoque de carbono foi estimado em US$ 47 milhões. O valor do fornecimento de água da área é de US$ 8,3 milhões. O de regulação do ar é de US$ 886 mil e o de regulação do solo, US$ 511 mil.

O serviço de polinização que a reserva presta foi estimado em US$ 126 mil. Trata-se de analisar a produtividade que a floresta produz nas regiões vizinhas, no caso, nas lavouras de maracujá. "Se a reserva não existisse, como seria feita a polinização?", questiona Campos. "Teria que se contratar trabalhadores para fazer o trabalho que as vespas fazem naturalmente, porque vivem no bosque ao lado."

O custo para preservar a reserva de Linhares é de cerca de R$ 7 milhões ao ano entre manutenção, proteção contra incêndios, combate à caça, pesquisa científica, visitação, estrutura e pessoal.

Em maio, a Fundação SOS Mata Atlântica e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicaram que restam apenas 8,5% da cobertura original da Mata Atlântica. O desmatamento na região aumentou 29% em 2012. A reserva da Vale representa cerca de 4% da cobertura florestal remanescente no Espírito Santo.

A área, segundo o estudo, estoca 9,42 milhões de toneladas de CO2 - o equivalente à emissão de um milhão de carros rodando 100 km por dia por 1,5 ano. A doação de mudas da reserva, entre 1976 e 2012, teria promovido o reflorestamento de 18.700 hectares (18 mil campos de futebol).

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