Representantes governamentais acatam documento de convívio com a seca elaborado pela Igreja e movimentos sociais

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21 Março 2013

Representantes dos governos federal e estadual foram unânimes em reconhecer e acatar o documento Diretrizes para a convivência com o semiárido, lançado nesta quarta-feira (20) à tarde, na Universidade Católica de Pernambuco - Unicap, em Recife. A cartilha, composta por 88 itens, foi elaborada a partir de experiências desenvolvidas pelos movimentos sociais.

A reportagem é de Daniel França e publicada pelo Instituto Humanitas Unicap, 20-03-2013.

Para o secretário de Agricultura e Reforma Agrária de Pernambuco, Ranilson Ramos, "os movimentos sociais do campo no Nordeste cresceram mais que os governos. Dentro do nosso orçamento, vamos fazer o possível para concretizar as ações dessa cartilha". Ele também falou das ações do governo do estado no combate à estiagem. Através do programa Águas para Todos Pernambuco, em parceria com governo federal, serão construídas mais 31 mil cisternas. Ranilson destacou ainda que outras ações estão sendo realizadas em conjunto com a Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Pernambuco (Fetape), Diakonia (instituição ligada à Igreja Católica) e as Dioceses de Caruaru e Pesqueira.

O documento também foi bem acolhido pelo representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário, Jerônimo Rodrigues de Souza. "Amanhã mesmo estarei encaminhando o documento ao ministro Gilberto José Spier Vargas. Farei o possível para colocar essas ações para dentro do governo. Podem ter a certeza que a presidente Dilma é aliada desse projeto".

A seca - A estiagem que já dura quase dois anos está sendo considerada a pior em 50 anos.  O documento entregue hoje às autoridades não só mostra diretrizes emergenciais, mas principalmente propostas de convívio sustentável com o semiárido. E elas vão precisar mesmo sair do papel. As previsões meteorológicas são alarmantes.

Dados apresentados pelo presidente do Instituto de Cidadania do Nordeste, Givanilson Porfírio, revelam que a estiagem pode durar nove anos consecutivos. "Só passamos por algo parecido há 80 anos".  A previsão é de apenas 25% de chances de chuva acima do normal, 35% de precipitações dentro dos índices normais e de preocupantes 40% de chance de chuvas abaixo do volume esperado para o próximo trimestre, época do ano considerada mais chuvosa na região.

Ainda segundo Porfírio, a seca já atinge 9,7 milhões de pessoas em 1.200 municípios nordestinos. O impacto está na queda brusca da produção de carne, leite e derivados. A bacia leiteira de Pernambuco já acumula perdas de 80%. "Nosso grande objetivo é armazenar e distribuir a água que cai de forma irregular  no tempo e no espaço do semiárido".

A situação de calamidade foi ilustrada durante o evento com a exibição de reportagens da TV Globo e Diario de Pernambuco. Um outro vídeo produzido pelos movimentos sociais mostra as ações que estão mudando a convivência com o semiárido. As chamadas cisternas calçadões, imensas placas de concreto no chão que captam e armazenam a água da chuva. O mesmo acontece com os tanques de pedra, valas naturais aprofundadas na rocha. Na reportagem de Beatriz Castro, exibida no Jornal Nacional, foi mostrado um biodigestor que produz gás de cozinha a partir do metano gerado a partir da decomposição de esterco animal e de cascas de frutas e legumes.

"Se conseguirmos que essas ações sejam implantadas pelos governos, teremos uma brusca mudança na base da cidadania dos nossos trabalhadores do semiárido", frisou o presidente da Fetape, Doriel Barros.

Líderes dos movimentos sociais criticaram o raio de alcance das atuais políticas públicas governamentais. "A burocracia impede que as medidas alcancem a maioria da população. Não basta reproduzir as políticas do governo federal. Os governos estaduais devem criar soluções próprias. Temos que repensar as questões estratégicas e estruturantes do Nordeste", disse o coordenador do Movimento Sem Terra (MST), Jaime Amorim

A Arquidiocese de Olinda e Recife, co-autora do documento junto com a Fetape e outros movimentos sociais agrários, encaminhou a cartilha a líderes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O presidente da Regional Nordeste 2 da CNBB, Bispo de Palmares/PE, Dom Genival Saraiva, passou o documento ao Secretário Geral da CNBB, Leonardo Ulrich Steiner, que ao recebê-lo, citou uma passagem bíblica de São Paulo. " Se um membro sofre, o corpo todo sofre. Encaminharei esse documento para que nossos irmãos vivam como filhos e filhas de Deus".