Síria: ''O fim de Assad não está tão próximo''. Entrevista com Paolo Dall'Oglio

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10 Julho 2012

Na Síria de Bashar al-Assad, e ainda mais na Igreja síria, poucos mostraram a ousadia, para não dizer teimosia, de Paolo Dall'Oglio. Jesuíta, na Síria desde 1980 (onde fundou em 1982 a comunidade de Mar Musa), padre Paolo denunciou a violência da repressão entre as bombas e as torturas. Agora que foi expulso pelo regime no mês passado – pela segunda vez – ele se prepara para voltar para a Itália e fala de um "possível genocídio", relembrando as "valas comuns".

A reportagem é de Davide Illarietti, publicada no jornal L'Unità, 08-07-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O que você deixou para trás?


Uma situação no limite da guerra étnica. Antes de me refugiar no Líbano, estive em Al Quşayr, cidade fronteiriça controlada pelos rebeldes. Tive contato com as camadas mais integralistas da oposição militar, para negociar a libertação de alguns civis sequestrados. Eles me acompanharam ao funeral de 13 operários sunitas, mortos no trabalho não pelo regime, mas sim por civis alauítas: um exemplo de violência étnica, tribal e confessional que já está quase generalizada. Mais ou menos a situação de Damasco, onde os bairros alauítas e cristãos correm o risco de se tornar as fortalezas dos partidários de Assad.

Foi por causa dos contatos com a oposição armada que o regime decretou a sua expulsão?

Também. Depois da libertação de dois dos reféns sequestrados, fui entrevistado pela TV dos rebeldes, e o vídeo circulou na internet. Mas uma primeira ordem para deixar o país já tinha chegado até mim em novembro. Em maio, aproveitando os acordos de Assad com a Liga Árabe e com as Nações Unidas, escrevi uma carta aberta ao enviado especial, Kofi Annan. Essa foi a gota que fez transbordar o copo.

A sua estada na Síria durou 30 anos, quase o mesmo tempo que o governo da família Al-Assad. Hoje, o regime não parece menos violento do que o que você encontrou nos anos 1980.

Em 1982, quando eu fundei o mosteiro de Mar Musa, o pai de Bashar al-Assad, Hafiz, fez exterminar a população sunita da cidade de Hama, que se insurgira contra o regime. Em certo sentido, as coisas não mudaram muito. Claro, vivemos as etapas da esperança, um mínimo de reformas nos anos 1990, a mudança de presidente, a chamada "Primavera de Damasco". Também graças ao diálogo inter-religioso, havíamos chegado a pensar na paz com Israel. Depois, houve a guerra no sul do Líbano, a guerra de Gaza, e a repressão voltou tão forte quanto antes, baseando-se na construção ideológica de uma Síria entrincheirada.

A queda de Assad é iminente?

Não está absolutamente claro se o regime irá cair dentro de dias, ou semanas, ou meses. Depende da comunidade internacional. A força de Assad é a sua capacidade esquizofrênica de dar de si mesmo uma imagem de monarca moderado, que defende o país do terrorismo muçulmano. Uma armadilha em que caem até setores da informação italiana e cristã, como a revista ecumênica Confronti.

Muitos cristãos na Síria temem a ameaça, por trás dos rebeldes, do extremismo islâmico. Você tem medo da ideia de voltar a uma Síria sem Assad?

O medo – mesmo aquele de muitos bispos e padres cristãos – é instrumentalizado pelo regime de Assad. Eu tenho medo, certamente, mas nem por isso hesitaria um momento em voltar para a Síria ou em pedir a queda do regime. Quanto mais medo nos leva a postergar as mudanças necessárias, mais elas serão traumáticas, e o extremismo ganhará espaço. Além disso, não nos esqueçamos que os serviços secretos sírios já usaram os extremistas sunitas para projetos geoestratégicos confusos, no Líbano, no Iraque. A ONU finge não saber, mas há um pântano onde máfias, extremismos religiosos e serviços secretos nadam juntos.

Mas também existe um conflito real, particularmente no oeste do país.

Existe o atrito direto no território dos sunitas e dos alauítas fiéis a Assad, uma facção da qual também fazem parte grupos de cristãos, e que são a maioria na Síria costeira, entre o mar e o rio Orontes. Muitos pensam que é precisamente a essa área o regime quer se retirar finalmente, quando as coisas ficarem ruins. Aqui, o controle alauíta do território é muito forte, graças também aos aliados e clientes cristãos.

O cenário futuro seria o de um país dividido em dois, ou dilacerado como o Iraque?

Sim, a menos que a oposição seja capaz de absorver o conflito étnico dentro de um debate político. Na Síria, há uma maturidade possível dentro da sociedade civil que poderia permitir, através da negociação, que se saia dessa situação. Eu fui conhecer os setores da luta armada, até mesmo as mais extremistas. E consegui dialogar com eles. Basta conhecer a linguagem do outro.

No dia 3 de julho, você participou, a convite da Liga Árabe, do Congresso Geral da oposição síria no Cairo. Em que ponto estão os trabalhos?

Infelizmente, a impressão é de que, sem nem mesmo esperar que o regime caia, todos já trabalham na sua própria agenda. Há muitas divisões entre grupos tolerados pelo regime ou não. Mas já aprovamos dois documentos importantes. A legitimidade do exército livre não está mais em discussão. Ninguém acredita mais em uma transição realizada pelo regime atual. O que se pede à comunidade internacional não é mais a proteção local, já que os rebeldes já controlam a maior parte do território, mas sim uma no fly zone, reafirmando-se que, terminado o conflito, será necessária a interposição da ONU. Não a ocupação, mas sim a interposição.

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