''Uma verdadeira crise de governo''. Entrevista com John L. Allen Jr.

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28 Mai 2012

"Uma crise de governo". É assim que John Allen define os eventos que abalaram a Santa Sé. O mais conhecido vaticanista norte-americano, que acompanha as notícias pontifícias para o canal CNN e o jornal National Catholic Report, não tem dúvidas sobre quem está no centro dos jogos de poder e das diferentes correntes que se confrontam sob a Cúpula vaticana: o secretário de Estado, Tarcisio Bertone .

A reportagem é de Deborah Ameri, publicada no jornal Il Messaggero, 27-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Allen, autor de duas biografias do Papa Bento XVI, acompanhou todos os desenvolvimentos da história a partir dos Estados Unidos e se organiza para chegar o mais rapidamente em Roma para acompanhar os últimos acontecimentos. Ele responde pelo celular às perguntas do Il Messaggero.

Eis a entrevista.

Qual é a sua análise do que está acontecendo no Vaticano?


Com o cardeal Bertone, estamos assistindo a uma verdadeira crise de governo. A prisão de Paolo Gabriele é a confirmação disso. O resto do mundo católico agora tem dúvidas e reservas para seguir a Santa Sé. E se pergunta se o Vaticano está à altura da situação.

É possível que tudo seja culpa de Bertone?

Não. Bertone é atacado porque ocupa a cadeira mais importante. Como em todos os governos, no do  Vaticano também há correntes internas. Quem está com Bertone e quem se opõe a ele. E o mordomo do papa pode ter sido usado para prejudicar o secretário de Estado.

Você acredita que Gabriele faz parte de um complô muito maior?

Não tenho nenhuma prova e nenhuma certeza, mas a percepção é essa. Devemos nos perguntar: por que o mordomo roubou documentos? Que motivo ele tinha? Seria muito singular se ele tivesse agido sozinho. É mais provável que estejam envolvidos personagens de peso muito diferente.

Está pensando em alguém em particular?

Penso na alta hierarquia vaticana, que talvez se esconda nas sombras. Muitos disseram que Gabriele poderia ser apenas um bode expiatório, e, francamente, não posso discordar disso. É um grande escândalo, e eu não consigo imaginar que o culpado seja apenas o mordomo, como no mais previsível romance policial.

Você conhece o mordomo do papa pessoalmente?

Não, nunca o encontrei no Vaticano. Mas sei que é uma pessoa boa, muito religiosa, que vive uma vida normal. Não o vejo nos trajes de um 007.

A prisão de Gabriele e a expulsão de Ettore Gotti Tedeschi, até poucos dias atrás presidente do IOR, estão relacionadas?

Não acredito. A intolerância com relação a Gotti Tedeschi, no meu entender, remonta a alguns meses. Porque, mesmo dentro do IOR, há uma crise de governo, e diversas correntes estão se chocando. Alguns dos meus colegas, no entanto, especulam que o agora ex-presidente do IOR pode ter sido a fonte dos documentos passados, depois, ao mordomo. O banqueiro os teria obtido e, depois, os teria dado a alguém insuspeito.

Essa crise irá prejudicar o Vaticano irremediavelmente? Como ela é vista no exterior?

Eu só posso dizer que os fatos são particularmente prejudiciais. Apesar dos esforços do Papa Bento XVI, as mensagens que chegam ao exterior não são reconfortantes. Essa prisão provoca incerteza, dá a ideia de um Vaticano dividido, com pouca harmonia. E chega em um momento muito delicado também do ponto de vista internacional.

A você se refere?

O Vaticano está tentando entrar na chamada White List, onde são inseridos todos os países que permitem um adequado intercâmbio de informação em matéria de tributação e têm normas transparentes do sistema bancário. E, justamente no momento em que tentam se conformar às normas antilavagem de dinheiro, o escândalo acontece.

Um momento suspeito?

Poderia ser. Além disso, a meu ver, muitos dos documentos roubados contêm informações financeiras muito sensíveis e levantam questões e dúvidas sobre a transparência bancária da Santa Sé.

O que podemos esperar a partir de agora?

Não acredito que esse evento seja um caso isolado. Na minha opinião, ele está ligado a uma história maior. Poderia haver outras surpresas.

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