Bento XVI critica, ainda que suavemente, o clericalismo na América Latina

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02 Abril 2012

O ato diplomátio de alta tensão do Papa Bento XVI em Havana, pressionando pela liberdade religiosa, mas evitando o confronto direto com o regime de Castro, foi o principal flash noticioso da sua viagem ao México e Cuba entre os dias 23 a 28 de março. No entanto, havia outro leitmotiv para a viagem, mais sutil, mas sem dúvida mais decisivo para a Igreja na América Latina.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio do jornal National Catholic Reporter, 30-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Não me levem a mal, mas o papa ofereceu uma ridicularização gentil, embora inconfundível, do clericalismo. Seu foco pareceu ser a gradual reformulação da cultura eclesial, não as manchetes sensuais de curto prazo, o que a coloca diretamente na sala de controle de Bento XVI.

O catolicismo na América Latina é extremamente diversificado, desde o catolicismo popular emocional das diversas devoções marianas, até as "comunidades de base" que foram a espinha dorsal da teologia da libertação. Uma corrente importante, no entanto, tem sido uma forma extraordinariamente forte de clericalismo, talvez o inevitável resultado do fato de a fé ser efetivamente um monopólio até muito recentemente.

Expressões típicas desse clericalismo incluem:

  • O clero se vê como lobbista político, desempenhando um papel direto nos assuntos de Estado;
  • A Igreja projeta uma imagem de poder e de privilégio com seu imaginário espiritual preferido enfatizando Deus como um monarca cósmico;
  • O papel dos leigos é concebido em termos largamente passivos – "pague, reze e obedeça";
  • Pouco valor é dado à evangelização ou à formação na fé, com o cuidado pastoral sendo entendido principalmente em termos de administração de sacramentos.

As consequências pastorais negativas desse tipo de clericalismo são agora incrivelmente claras. Enfrentando o duplo ataque violento do secularismo em alguns círculos e do pentecostalismo praticamente em todos os demais lugares, a Igreja Católica na América Latina manteve perdas enormes em porcentagem durante o fim do século XX. (Os números católicos brutos aumentaram como resultado do crescimento da população em geral, mas a parcela católica do continente diminuiu, em parte devido ao astronômico crescimento do cristianismo pentecostal e evangélico).

Pode parecer irônico que uma viagem papal, com todo o seu imaginário clerical resultante, tenha sido o veículo para uma crítica do clericalismo. Também pode parecer irônico, ao menos para alguns, que Bento XVI tenha sido o papa a fazer isso, dado que os críticos ao longo dos anos o acusaram de defender uma espécie de eclesiologia da "alta Igreja" contra um catolicismo popular "de baixo".

O tecido da história, no entanto, muitas vezes é costurado com ironia, e essa viagem parece ser um caso exemplar a respeito.

A Igreja e a política

Em primeiro lugar, Bento XVI reafirmou que a Igreja Católica não é um partido político, e que a sua contribuição mais importante para a vida política é a formação das consciências individuais – valorizando o papel do clero como pastores, não como especialistas ou ativistas.

Bento XVI fez isso antes mesmo de chegar à América Latina, no avião papal, pouco depois de decolar de Roma. Em resposta a uma pergunta sobre o papel político da Igreja, ele ressaltou que é preciso ter clareza sobre "o que a Igreja pode e deve fazer, e o que não pode e não deve fazer" – uma referência ao perigo das plataformas diretamente partidárias.

No Parque Bicentenário de León, Bento XVI ofereceu uma meditação sobre "Cristo Rey", que era o grito de guerra dos cristeros durante a Revolução Mexicana e ainda é invocado hoje por membros da Igreja mexicana como uma espécie de cartaz político.

"O seu reino não consiste no poder dos seus exércitos submeterem os outros pela força ou pela violência", disse o papa. "Funda-se em um poder maior, que conquista os corações: o amor de Deus".

Nesse espírito, Bento XVI exortou os católicos a serem "corajosos na humildade".

Bento XVI continuou seu discurso evitando qualquer coisa que pudesse ser interpretada como um comentário político direto na corrida às eleições do México em julho. As lideranças católicas do México são frequentemente percebidas como alinhadas em favor do partido conservador Ação Nacional, e alguns temiam que a viagem papal equivaleria a um comício de campanha.

No entanto, Bento XVI nunca disse nada sobre as eleições vindouras, nem mesmo algo anódino como um chamado genérico à responsabilidade eleitoral. Surpreendentemente, ele evitou amplamente as questões polêmicas do aborto e do casamento gay, que estão em jogo no México e em outras partes da América Latina (durante a sua intervenção no Ângelus de domingo, Bento XVI se referiu à importância da "defesa e do respeito pela vida humana").

Com relação às lealdades políticas da Igreja Católica, Bento XVI enfatizou que a Igreja deve "estar do lado de quem é marginalizado pela violência, pelo poder ou por uma riqueza que ignora quem carece de quase tudo".

O papa disse que a fé deve ter consequências para a vida pública, rejeitando uma "esquizofrenia" que tenta separar a ética privada e a moralidade pública. No entanto, mesmo aqui, o papa sublinhou que o papel da Igreja é a "educação das consciências", ao invés de oferecer soluções legislativas diretas.

Em geral, Bento XVI parecia determinado a oferecer à América Latina um exemplo de como um clérigo católico sênior poderia passar vários dias sob um intenso foco midiático sem resultar em um político de batina.

Um Deus "pequeno e próximo"

Durante suas considerações a bordo do avião papal, Bento XVI fez uma meditação sobre o que ele chamou em italiano de um "cristianismo essencializado", ou seja, um cristianismo focado no "núcleo fundamental para se viver hoje com todos os problemas do nosso tempo".

No centro desse cristianismo essencial, defendeu o papa, está a ideia de um Deus que é pequeno e próximo de cada pessoa humana – para além do Deus "grande e majestoso", o tipo de imaginário espiritual h[a muito tempo associado com uma Igreja clericalista.

"Nós vemos a racionalidade do cosmos, vemos que há algo por trás disso, mas não vemos como esse Deus está próximo, como ele concerne a mim", disse o papa.

"Essa síntese do Deus grande e majestoso e do Deus pequeno que está perto de mim, que me orienta, que me mostra os valores da minha vida é o núcleo de evangelização", afirmou Bento XVI.

Em seu discurso para os bispos latino-americanos, Bento XVI afirmou que essa noção de um Deus pequeno e próximo flui naturalmente em um espírito de serviço.

"A Igreja não pode separar o louvor de Deus do serviço aos seres humanos", disse ele.

"O único Deus Pai e Criador é que nos constituiu irmãos: ser homem é ser irmão e guardião do próximo", disse o papa. "Nesse caminho, com toda a humanidade, a Igreja deve reviver e atualizar o que Jesus foi: o Bom Samaritano que, vindo de longe, se integrou na história dos homens, nos levantou e se prodigalizou pela nossa cura".

Os leigos não são pessoas que contam pouco

O golpe mais direto de Bento XVI contra o clericalismo surgiu em uma discussão sobre o papel dos leigos na Igreja.

Não por coincidência, o papa escolheu um discurso para os bispos da América Latina e do Caribe na catedral de León para apresentar esse ponto, enfatizando que ele estava falando não apenas para o México, mas para todo o continente.

"Uma atenção cada vez mais especial é devida aos leigos mais comprometidos na catequese, na animação litúrgica, na ação caritativa e no compromisso social", disse o papa. "A sua formação na fé é crucial para tornar presente e fecundo o Evangelho na sociedade atual".

Só isso já seria suficiente para puxar o tapete de uma psicologia überclericalista, em que a aplicação da fé à sociedade contemporânea é tratada como território exclusivo da casta clerical.

Para ter certeza de que ninguém perdeu o ponto, porém, Bento XVI acrescentou uma injunção ainda mais direta sobre os leigos.

"E não é justo que se sintam tratados como quem pouco conta na Igreja", disse ele, "apesar do entusiasmo que sentem em trabalhar nela segundo a sua vocação própria, e o grande sacrifício que às vezes lhes requer esta dedicação".

O papa também pediu que "um espírito de comunhão" prevaleça entre sacerdotes, religiosos e os fiéis leigos, afirmando que "divisões estéreis, críticas e suspeitas nocivas" devem ser evitadas.

"Missão Continental"

Finalmente, Bento XVI endossou repetidamente o pedido feito por uma grande "Missão Continental", que resultou da última assembleia geral dos bispos latino-americanos em Aparecida, Brasil, em 2007, da qual o papa participou.

Os pilares dessa "Missão Continental", tal como foi concebida há cinco anos, são:

  • Um forte papel para os leigos como evangelizadores de vanguarda;
  • Uma sólida formação na fé para toda a população católica da América Latina, não apenas para as elites clericais (ou mesmo leigas).

Uma e outra vez, Bento XVI voltou a essa ideia, salientando que a evangelização e a formação na fé são uma preocupação de todos.

"A Missão Continental, que agora está sendo realizada de diocese em diocese neste continente, tem precisamente como objetivo fazer chegar essa convicção a todos os cristãos e às comunidades eclesiais", disse o papa, "para que resistam à tentação de uma fé superficial e rotineira, por vezes fragmentária e incoerente".

Esse trecho sobre uma fé "superficial" é, indiretamente ao menos, um golpe contra uma das mais notórias patologias do clericalismo, em que a maioria dos leigos são batizados, confirmados e casados na Igreja, mas, por outro lado, são deixados se virando sozinhos.

A consequencia evidente dessa a abordagem pastoral laissez-faire foi capturada em um ditado espanhol: "Católico ignorante, seguro Protestante": ou seja, um católico ignorante certamente irá se tornar um protestante, A ideia é que alguém que não sabe por que é católico, em primeiro lugar, é um bom candidato para resolver seu negócio religioso em outro lugar quando uma oferta atraente surgir.

Bento XVI pediu que essa Missão Continental esteja no centro do "Ano da Fé" que ele proclamou recentemente.

Uma nota de rodapé sobre os cartéis e Maciel

Em declarações no sábado durante uma celebração das Vésperas, antes de um encontro de bispos latino-americanos ao qual um jornalista italiano se referiu como um "conclave latino", Bento XVI se referiu às "nossas fraquezas e faltas" e à realidade da "maldade e a ignorância dos homens", mesmo dentro da Igreja.

Os comentários foram interpretados como uma referência indireta a dois capítulos da história mexicana recente que mancharam a imagem do clero católico: a íntima relação que alguns membros do clero parecem ter com os cartéis de drogas e seus senhores – que às vezes vão à missa e até mesmo dão dinheiro à Igreja para demonstrar suas bona fides católica – e o caso do falecido Pe. Marcial Maciel Degollado, fundador dos Legionários de Cristo, que cometeu várias formas de abuso sexual e de más condutas.

Bento XVI nunca mencionou diretamente o caso Maciel e recusou um pedido de se encontrar com as vítimas de Maciel. Em uma sessão com os jovens, no entanto, o papa convidou "todos a protegerem e cuidarem das crianças, para que nunca se apague o seu sorriso, podendo viver em paz e olhar o futuro com confiança".

Será que vai funcionar?

Mudar a cultura eclesial de todo um continente não é fácil, e a maioria dos observadores irá lhe dizer que a desconstrução do clericalismo na América Latina é ainda um trabalho em progresso. Além disso, não está claro se o novo abraço por parte dos bispos de um robusto espírito missionário com liderança leiga é verdadeiramente uma questão de “metanoia”, de uma mudança duradoura de coração e de mente, ou simplesmente uma resposta pragmática para não serem derrotados pelos pentecostais.

Mas há sinais de que o catolicismo na América Latina, aos trancos e barrancos, está fazendo a transição do clericalismo para um espírito mais dinâmico (e, é claro, portanto, mais fissíparo e frenético) de energia empreendedora.

Em seu livro de 2008, Conversion of a Continent, o padre dominicano Edward Cleary argumenta que a América Latina está nas garras de uma turbulência religiosa, com o pentecostalismo como sua ponta de lança. No entanto, Cleary argumenta que o catolicismo também está se tornando mais dinâmico, gerando altos níveis de compromisso entre aqueles que ficam. Cleary acredita que esse despertar católico teve suas raízes nos movimentos leigos que remontam aos anos 1930 e 1940, mas teve seu início com a saudável concorrência dos pentecostais.

Se a transição para longe do clericalismo insalubre for levado a uma conclusão bem-sucedida, a viagem de março de 2012 de Bento XVI pode ser lembrada como um ponto de virada – não tanto em termos de provocar a mudança, talvez, mas ao menos por dar a ela o apoio papal.

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