A mãe perfeita é um mito

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18 Julho 2011

Poucos intelectuais falam sobre os dilemas da maternidade com a coragem da filósofa francesa Elisabeth Badinter, 67 anos. Professora da École Polytechnique, autora de uma dezena de livros, ela sempre causou polêmicas que extrapolaram a academia. Em 1980, lançou um livro em que questionava a noção de instinto materno. A mais recente controvérsia gira em torno de seu novo trabalho, Le Conflit: la Femme et la Mère (O Conflito: a Mulher e a Mãe), best-seller na França, recém-lançado no Brasil. Badinter ataca um grupo de feministas que ajuda a consolidar no pensamento moderno a ideia de que toda mulher deve ser mãe – e perfeita. Herdeira do grupo de publicidade Publicis e mãe de três filhos, ela concedeu a entrevista desde Paris, onde mora com o marido, Robert Badinter, ex-ministro da Justiça da era Mitterrand.

A entrevista é de Monica Weinberg e publicada pela revista Veja, 20-07-2011.

Eis a entrevista.

Como a senhora conseguiu despertar a ira de feministas, ecologistas e acadêmicos?

Tento desconstruir um mito que vem se consolidando nas sociedades modernas com a participação de todos esses grupos – o da mãe perfeita. Movidos por ideologias as mais variadas, feministas, ecologistas e os intelectuais que eu combato tratam de sedimentar no caldo cultural do século XXI a ideia de que, uma vez mãe, a mulher deve enquadrar-se em um modelo único, obedecendo a dogmas que, de tão atrasados, sepultam os avanços mais básicos trazidos pela industrialização. Estou falando de pessoas que torcem o nariz para as cesarianas e chegam a fazer apologia do parto sem anestesia, sob o argumento de que há beleza no sacrifício feito em nome dos filhos já no primeiro ato. Demonizam o uso da mamadeira e até o da fralda descartável. Para essa gente, as mães nunca devem estar indispostas para suprir as necessidades de sua prole. Essa pressão só causa frustração e culpa nas mulheres.

A senhora está dizendo que as próprias feministas agitam hoje bandeiras que trazem frustração e culpa às mulheres?

Uma parte delas, não há dúvida, está dando marcha a ré em relação a conquistas anteriores. Pois elas estão, no fim das contas, retirando o direito de escolha das mulheres. Olhe um exemplo bem claro do que digo. Em 2009, a então ministra da Justiça francesa, Rachida Dati, voltou à ativa poucos dias depois de dar à luz. Foi o suficiente para que algumas feministas ficassem possessas. "O que essa ministra está fazendo que não ficou em casa amamentando seu bebê?", elas indagavam. Diziam que os empregadores poderiam agarrar-se àquele caso para se insurgir contra a licença-maternidade e outros direitos adquiridos pelas mulheres que são mães. Em suma, politizaram a discussão sem se preocupar com aquilo que, afinal, é o fundamental: que, entre parâmetros razoáveis, elas possam exercer a maternidade à sua maneira, de acordo com seus valores e convicções. Pois digo mais sobre essas feministas: elas estão contribuindo para que as mulheres voltem para o lar.

Mas não é uma bandeira oposta à que sempre defenderam?

Não é que elas trocaram de bandeira, só que sua mensagem vai em direção contrária ao que apregoam. Essas feministas dizem que as mulheres apresentam certas características, como ternura e compaixão, que as distinguem dos homens de forma decisiva. Para elas, ser mãe seria como uma extensão natural da própria natureza feminina e, por isso, todas deveriam exercer seu lado maternal. É como um ato, uma demarcação de território. Certamente a maioria das mães de hoje não se reconhece nesse discurso, mas ele acaba se juntando ao de outras tantas cabeças pensantes equivocadas que tratam de idealizar a maternidade. Diante de tamanha pressão, muitas mulheres acabam deixando o mercado de trabalho no afã de atender às demandas que recaem sobre elas. Refiro-me a gente com alta escolaridade e com todas as chances de prosperar.

Apesar da pressão pela maternidade a que a senhora se refere, os dados demográficos mostram uma queda acentuada nos índices de fecundidade em países europeus, assim como no Brasil...

As estatísticas confirmam o que os demógrafos já previam: são principalmente as mulheres mais escolarizadas e egressas dos mais altos estratos de renda que estão-tendo menos filhos, ou nenhum. Vejo nisso um efeito direto da cobrança pela maternidade perfeita de que tanto falo. Na iminência de ficarem reféns de tantas exigências sociais, muitas simplesmente desistem de se tornar mães.

Essa pressão de que a senhora trata varia de uma cultura para outra?

Existe uma lógica bastante clara. A cobrança por perfeição incide mais sobre a cabeça daquelas mães que encarnam simbolicamente o papel de superpoderosas. Refiro-me, por exemplo, à mama italiana, à kenbo japonesa e à mutter alemã. O resultado se percebe nas estatísticas. Na Alemanha, um terço de todas as mulheres com ensino superior completo opta por não ter filhos. Trata-se de um dado espantoso. É claro que, além de toda a pressão que pesa sobre as alemãs, recai sobre elas a dificuldade de achar uma boa creche e contar com uma estrutura que lhes permita manter um trabalho.

Muitas mulheres acabam cedendo à pressão de se tomar mães, mesmo que esse não seja um desejo delas?

É mais frequente do que se poderia esperar em sociedades ocidentais avançadas. E isso não é bom. A experiência mostra de forma bastante enfática que, em geral, mulheres que nunca desejaram a maternidade, mas que acabam tendo filhos em razão da pressão da família e dos amigos, tornam-se mães impacientes, frustradas e medíocres. É espantoso que em um mundo tão moderno como este em que vivemos não pareça razoável que urna mulher simplesmente não deseje ser mãe. É como se isso significasse uma recusa à própria natureza. Os estereótipos negativos sobre as que não querem ter filhos são os piores possíveis: egoístas, insatisfeitas, imaturas, incompletas, carreiristas, só para citar alguns. Mesmo que eles não sejam verbalizados, estão sempre presentes. Uma bobagem que tem raízes mais antigas no pensamento ocidental.

Mas, afinal, os hormônios não têm influência direta na ligação afetiva que uma mãe trava com seu filho?

Sabemos que cada mulher apresenta uma sensibilidade diferente à atividade hormonal quando tem seu filho. O que é determinante para todas elas é o caldo cultural do qual emerge a ideia do amor materno, como um sentimento que deve ser livre de imperfeições e ambiguidades. É curioso notar que o conceito de maternidade tem variado na história de acordo com as mudanças socioeconômicas. Nas sociedades mais primitivas, ser mãe significava primeiro, colocar mais gente na tribo para fortalecer numericamente o grupo e enfrentar melhor os inimigos e, segundo, aumentar a capacidade produtiva. Revisito a história para relativizar essa ideia do instinto materno, que tem hoje uma aura de sagrado. Mães são naturalmente imperfeitas, como é inerente à própria espécie humana.

Quando surge o conceito de maternidade tal como conhecemos hoje?

Apenas a partir do século XVIII, sob influência direta do filósofo francês Jean-Jacques Rousseau. Foi com a publicação de Émile, em 1762, que Rousseau deu o primeiro e decisivo impulso para a concepção de família fundamentada no amor materno, como é hoje. Naquele tempo, com o apoio principalmente dos médicos, ele conseguiu convencer a sociedade francesa a valorizar mais a função materna, argumentando que isso significava para as mulheres a reconquista do papel superior que lhes foi dado pela natureza.

Naquele tempo, nem mesmo as crianças eram reconhecidas por suas características particulares, certo?

É verdade. Elas eram vistas apenas como adultos em miniatura, com pouca Ou nenhuma importância na família. Entregues às amas para que as alimentassem e criassem, só voltavam ao convívio dos pais por volta dos 5 anos. Durante os séculos seguintes, todos os pensadores que se debruçaram sobre a maternidade e a infância retomaram à filosofia rousseauniana, divulgando-a e aprofundando-a. É a própria história que nos conduz a uma conclusão óbvia: a de que o amor materno não é instintivo, como tantos apregoam, mas sim uma ideia construída.

As supermães de hoje são o produto mais acabado dessa construção histórica?

As mães que põem os interesses e as vontades dos filhos sempre acima dos seus são vítimas desse equívoco historicamente determinado. Essas mães acreditam que a dedicação incondicional pode ajudar a produzir uma acriança perfeita, resultado dos incentivos constantes. Nada mais típico do grande equívoco atual, baseado numa interpretação exagerada da psicanálise, do que a ideia de que as crianças devem ser poupadas de toda e qualquer frustração. Esse excesso costuma produzir efeitos colaterais desastrosos – tanto para a mãe como para a criança.

A quais efeitos exatamente a senhora se refere?

Não raro, os filhos tomam o controle da situação e se tomam pequenos tiranos em casa – fenômeno que na França chamamos de l`enfant roi (algo como "a criança é o rei"). De outro lado, causa frustração às mulheres colocarem-se sempre em segundo plano. Não estou dizendo aqui, nem de longe, que existe uma fórmula ideal para a maternidade. Algumas mães podem deixar o emprego em nome dos filhos e ficar perfeitamente contentes com essa opção. Outras não. Chama muito minha atenção ver mulheres com expressão vazia enquanto cuidam de seus filhos nas praças e jardins. Fico me perguntando: qual é o problema de reconhecer que não querem passar o dia inteiro com seus filhos? Evidentemente, elas acham que isso significaria amá-los menos.

Mas esse dilema materno não é o mesmo de sempre?

Não. De certo modo, as mulheres que têm filhos atualmente procuram ser a antítese das próprias mães. Pode-se dizer que o modelo das mulheres que lutaram por seus direitos na década de 70, se por um lado resultou em avanços para elas, por outro se tornou constante fonte de stresse frustração. A atual geração de mulheres assistiu à própria mãe tentando equilibrar-se em uma rotina extenuante, comprimida entre trabalho e filhos. Com esse exemplo, em casa, muitas das jovens de hoje enxergam na maternidade em tempo integral uma chance de levar uma vida menos maçante, uma vida mais prazerosa e plena. Talvez, se não fossem tão pressionadas a desempenhar esse papel sempre em busca da perfeição, elas poderiam ter seus filhos e ainda assim conseguir trabalhar – tudo com muito mais leveza.

Em que medida o papel dos homens está mudando?

Claramente, as últimas décadas não têm sido fáceis para eles. As mulheres conquistaram o mercado de trabalho, tomaram-se financeiramente independentes e, como tratores, acumularam responsabilidades dentro e fora de casa. Os avanços foram incríveis. E o que restou para os homens? Muitas cobranças e uma percepção ainda difusa sobre o seu real papel – algo que, em minha opinião, pode se definir com maior clareza nas décadas que virão. Como contribuição dos conceitos de feministas mais radicais, ainda prevalece uma visão muito negativa do sexo masculino. São difundidos estereótipos que em nada ajudam a compreender o mundo de hoje. É absurda a ideia tão propagada ainda de que as mulheres são, por definição, vítimas.

Qual sua visão particular do que, afinal, é ser uma boa mãe?

Esse é um assunto em que, definitivamente; não cabem modelos excludentes. É natural que a maternidade varie segundo valores, crenças e culturas familiares de cada mulher. Portanto, o máximo que posso dizer é o que sinaliza a experiência de forma bem clara: o ponto ideal é aquele em que as mulheres mantenham a equidistância entre os próprios desejos e os de seus filhos. Em outras palavras, que alcancem um ponto de equilíbrio em que não fiquem excessivamente próximas a ponto de roubar O espaço necessário ao desenvolvimento das crianças nem tão distantes que pareçam ausentes. As mães são, afinal, referência afetiva e intelectual imprescindível aos filhos. Infelizmente, esse modelo mais harmonioso e livre de tantas cobranças é bem raro no mundo atual.

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