A Igreja e a música de Deus. Papa convida a mudar de partitura e a voltar ao passado

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18 Junho 2011

É hora de banir as "armas de destruição de missa". Na Igreja italiana, muitas vezes dividida, há um argumento que coloca todos de acordo, um pouco escandalizados os tradicionalistas, um pouco mais irônicos os progressistas: as canções devotas que se ouvem todos os domingos em todas as paróquias da península entre o introibo e o ite missa est são quase sempre desoladoras, banais, monótonas ou bizarras, às vezes ridículas e às vezes até descuidadamente heréticas.

A reportagem é de Michele Smargiassi, publicada no jornal La Repubblica, 16-06-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Tanto que ninguém juraria que o barulhento rap que a diretora Alice Rohrwacher, recém-aclamada em Cannes, faz com que os catecúmenos cantem em seu filme Corpo celeste ("Me sintonizo com Deus / é a frequência certa / eu mesmo me sintonizo / e faço isso de propósito") é totalmente inventado, e talvez até realmente escutado em algum oratório da periferia.

Não se pode dizer que os alertas não soaram – deve-se dizer – muito alto. Já há 25 anos, o então cardeal Ratzinger foi implacável com o playlist dos altares: "Uma Igreja que se reduza a fazer apenas música `corrente` cai na inaptidão e ela mesma torna-se inapta". Hoje, como pontífice amante da música, ele insiste no conceito de um livro, Lodate Dio con arte, aplaudido pelo maestro Riccardo Muti, também ele exasperado com "aquelas quatro acordes de violão mal tocados sobre letras inúteis e insossas que se ouvem nas igrejas, um verdadeiro insulto".

A questão está se tornando espinhosa, ou melhor, explosiva, porque há anos é no estilo das celebrações que se joga a áspera disputa entre conciliaristas e restauradores, em que os segundos atacam facilmente aquela "heresia do informe", como definida pelo escritor alemão Martin Mosebach, que corrói a liturgia a golpes de "cantos indecentes". "De que serve ter igrejas bonitas se a música é penosa?", insurgia-se, há dez anos, o então presidente do Pontifício Instituto de Música Sacra, o catalão Valentino Miserachs Grau.

O canatur francês

A Igreja francesa resolveu o problema há algum tempo, com um ar galicano, elaborando uma lista rigorosa e vinculante de cantos permitidos, uma espécie de canatur, versão canora do imprimatur. Mas, na Itália, sede do catolicismo, mas também pátria do bel canto, a anarquia da "paróquia`n`roll" parece ingovernável.

Toda diocese deveria ter um Escritório de Música Sacra, que deveria supervisionar a seriedade do sacro pop, mas, de fato, o que acaba ecoando entre bancos e naves é quase sempre fruto da criatividade improvisada de algum catequista munido de iPod, ou de certos sacerdotes guitarristas. A cena, um pouco em toda parte, deve ser aquela apressada e distraída descrita pelo bolonhês Pe. Riccardo Pane no seu desconsolado panfleto Liturgia creativa: "Antes da missa, invariavelmente, aparece alguém na sacristia que pergunta: `Padre, o que cantamos?`, e o meu refrão é inexoravelmente: `Vá ler as antífonas e veja se você encontra um canto que se acerta com elas".

O resultado está nos ouvidos de todos. Disponível aos montes também nos canais do YouTube, também em versões medley e remix. Temas que não combinam, incongruências (Signore scende la sera [Senhor, cai a noite] cantado na missa das 11 horas da manhã), resíduos de música de consumo, imitações de Ramazzotti e para-Baglioni, exotismos da world music com bongôs e maracas (como o muito cantado Hosanna-eh africano) que desconcertam as velhinhas, aventuras estilísticas extremas (existe um Glória hip-hop), até covers de grandes sucessos (como a alucinada paráfrase do Pater sobre a ária de The Sound of Silence, de Simon & Garfunkel: "Pai Nosso, tu que estááás / em quem ama a verdaaade...").

A rebelião está no ar. Um grupo do Facebook frequentado por sacerdotes, compilou até a lista dos cantos ainda mais desastrosos: com 374 indicações, venceu o Aleluia das lâmpadas, assim apelidado porque é geralmente acompanhado por gestos das mãos que parecem imitar o trabalho de um eletricista.

O arcebispo de Bolonha, Carlo Caffarra, marcou com caneta vermelha nos livretos paroquiais os cantos "que não devem mais constar", como o Aleluia, a nossa festa, visto que, quando muito, a missa é a festa do Senhor. Em muitos lugares, invocam-se a retomada da autoridade do canto gregoriano e a disciplina monoinstrumental do órgão de tubos, ou pelo menos do harmônio.

Cantos apropriados

Sob essas pressões, há alguns anos, a Conferência Episcopal Italiana - Cei pediu que o seu assessor, Pe. Antonio Parisi, especialista em música sacra e compositor, pusesse ordem no desconcertante barulho. Pobre do Pe. Antonio: encontrou-se diante de um oceano de 15 mil cantos e canções extraídos de 45 anos de coleções nacionais e locais. E lá havia de tudo.

Já falamos sobre as músicas, mas as letras... os textos eram ainda piores. Cheios de palavras truncadas, de poesias do ensino fundamental (Il nostro mal / sappi perdonar… [O nosso mal / saiba perdoar]), banais, inapropriadas, de horrores gramaticais (Te nel centro del mio cuor [algo como "Ti no centro do meu coração"), de expressões roubadas de qualquer comercial de banco (Tutto ruota intorno a Te [Tudo gira em torno de Ti]), quando não são repletos de ingenuidade (definir Maria como "a inatingível" não é encorajador para a participação no rosário) e de verdadeiras grosserias teológicas, cometidas seguramente em boa fé, talvez para enquadrar um verso: cantar Tu che sei nell’universo [Tu que estás no universo] só porque nell’alto dei Cieli [no alto dos Céus] não ficava bem, além de imitar uma canção de Mia Martini, significa limitar Deus dentro da sua Criação, e isso não fica muito bem.

Uma tarefa monumental, desgastante, desconsoladora, da qual o Pe. Parisi conseguiu meritosamente fazer surgir um Repertório Nacional de Cantos para a Liturgia, que seleciona 384 decentes e adequados, mas que ainda não é suficiente: "Não se pode agir por imposição", explica. "É preciso formar, formar pessoas nas dioceses, nas paróquias, fazer com que os presbíteros, os animadores, os catequistas estudem música. O canto litúrgico não é um opcional, é um sinal sagrado".

É justo não querer estragar o entusiasmo dos animadores paroquiais, com boa vontade e inculpáveis. Mas o ponto é este: que os cantos durante a missa não são um "acompanhamento", não são os "interlúdios" entre um responsório e uma leitura: fazem parte da liturgia, são coisa sagrada, assim como as palavras da Elevação.

"Missa Beat"

Como é possível que a mesma Igreja que restaura a missa em latim feche um olho perante a trilha sonora à la X-Factor da missa em italiano? Os conservadores têm uma explicação histórica: a profanação canora começou com a "explosão nuclear" chamada "Missa Beat". Quem se lembra dela? Ano de 1965, o Concílio havia recém acabado, fibrilação da renovação, o maestro Marcello Giombini colocou de lado as trilhas sonoras dos filmes de "bangue-bangue à italiana" e, inspirado, escreveu uma missa musical "para os jovens". Verdadeiramente uma bomba atômica.

Transmissões da Rai, shows, turnês internacionais, bênção do jesuíta padre Arrupe, discos lançados com o selo discográfico das Edições Paulinas. O fluxo não se deteve, proliferaram as "bandas de garagem" das casas paroquiais, algumas se tornaram famosas, como Angel and the Brains, The Bumpers, sem falar das duas formações paralelas dos focolarinos, Gen Verde e Gen Rosso, cujas fitas cassetes ainda infestam os oratórios.

Mas foi assim que a Igreja não perdeu a onda do 1968. E não foi, de fato, uma calamidade, assegura Mons. Vincenzo De Gregorio, responsável pela liturgia musical da Cei: "Antes, as missas eram ou todas recitadas ou todas cantadas, mas cantadas só pelo coro, só para ouvir. A Missa Beat foi uma abertura sadia, e era de qualidade. O problema sempre são as imitações. Ou melhor, o problema é a cultura musical inexistente dos italianos. Neste país, só se canta na missa, quase".

Culpar o Concílio? Um equívoco

Os tradicionalistas se equivocam. Dar a culpa ao Concílio é muito fácil. Até a Igreja cautelosa do século XIX teve problemas semelhantes com as "hit parades" do altar maior. Vejam como, em 1884, a Sagrada Congregação dos Ritos listou com desgosto aquilo que ribombava entre as naves: "Polcas, valsas, mazurcas, minuetos, rondós, escocesas, varsovianas, quadrilhas, galopes, contradanças e temas profanos, como hinos nacionais, canções populares, eróticas ou cômicas, romances...".

O defeito na Igreja pós-conciliar, no máximo, foi se encontrar musicalmente despreparada para a sua própria revolução litúrgica. Com o abandono do latim, a Cei organizou o novo missal em italiano, mas ignorou a renovação do repertório canoro. Estava à disposição só um pouco de ladainhas antiquadas, Mira il tuo popolo, T`adoriam ostia divina. "Aos párocos, só restou tomar as canções do grupo de rock que ensaiava no oratório, ou aquelas do último acampamento de escoteiros, e levá-las ao altar", suspira Mons. De Gregorio. Resultado: uma infantilização drástica do conteúdo, dos estilos, das letras.

No entanto, há, no grande mundo eclesial, talentos a serem usados, compositores de qualidade. Pe. Parisi menciona-os com respeito: Pe. Marco Frisina, compositor apreciado também nos EUA; Pe. Pierangelo Sequeri, autor do muito divulgado Symbolum 77; o jesuíta Eugenio Costa; o camiliano Giovanni Maria Rossi; o salesiano Domenico Machetta...

"Vejo o copo meio cheio: passaram-se só 50 anos desde a reforma conciliar. É  muito cedo para tirar conclusões". A Cei está pensando em comissionar a eles um novo repertório, finalmente de qualidade. Durante a espera, quando os sinos dobram para a missa, ainda surge a suspeita de que as paróquias da Itália, como padroeiro da música, não invoquem Santa Cecília, mas sim São Remo [em referëncia ao Festival da Canção Italiana que ocorre na cidade de Sanremo].

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