O "Big Brother" de Marcial Maciel

Mais Lidos

  • Influenciadores ou evangelizadores digitais católicos? Artigo de Dom Joaquim Mol

    LER MAIS
  • Os equilíbrios de Lula no Brasil pós-Bolsonaro. Artigo de Bernardo Gutiérrez

    LER MAIS
  • Para onde estamos indo? Artigo de Leonardo Boff

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


Revista ihu on-line

Zooliteratura. A virada animal e vegetal contra o antropocentrismo

Edição: 552

Leia mais

Modernismos. A fratura entre a modernidade artística e social no Brasil

Edição: 551

Leia mais

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

02 Abril 2011

Era uma rede de informantes, um "Big Brother" construído ingeniosamente por Marcial Maciel Degollado para manter o controle sobre todas as áreas da congregação que ele fundou e, em um certo ponto, cresceu excessivamente: os Legionários de Cristo. Um grupo de personagens fiéis ao diretor-geral e que só a ele prestavam contas. Eram os olhos do fundador sempre abertos, dispostos a informar a todo momento. Até hoje são chamados de "núncios ordinários" e, graças a Deus, já não existirão mais.

A nota é de Andrés Beltramo Alvarez, no blog Sacro & Profano, 01-04-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Um decreto do cardeal Velasio De Paolis, o delegado pontifício para a reforma da congregação, estabeleceu o seu desaparecimento. O purpurado decidiu anular definitivamente os números que vão do 553 ao 560 das Constituições legionárias, parágrafos que regulavam justamente o trabalho desses peculiares funcionários.

Mas o que esses personagens faziam? Segundo uma nota da própria Legião, "no passado, os núncios ordinários na Legião de Cristo funcionavam como representantes permanentes do diretor-geral nos territórios e em vários centros de formação, exercendo algumas tarefas análogas aos núncios apostólicos que o Papa envia aos diversos países (visitas, reuniões, conferências, relatórios periódicos, diversos trâmites)".

No México, seriam chamados de "os orelhas". Uma rede paralela ao governo formal da congregação, uma saída típica do perverso Maciel (e de seus delírios de controle absoluto). Por onde quer que seja vista, trata-se de uma figura anômala que não tem precedentes na história da Igreja. Nenhuma congregação, ordem ou instituto religioso conta com delegados permanentes do superior com função de vigilantes. Para isso existem os superiores e a estrutura forma. Ou não?

Penso nisso e não posso deixar de imaginar o prepósito geral dos jesuítas mandando os seus representantes pessoais aos cinco continentes para manter os membros da Companhia bem cuidados. Ridículo. Além disso, perversamente, Maciel decidiu chamá-los de "núncios", conceito que evoca imediatamente os embaixadores do Vaticano espalhados pelo mundo. Os núncios apostólicos se caracterizam pela fidelidade irrestrita ao Papa e à Igreja, acima das autoridades dos Estados, não poderia ser de outra forma. Só que existe uma pequena, pequeníssima diferença: a Santa Sé tem núncios porque é um sujeito de direito internacional reconhecido pelas Nações Unidas.

Embora, em si mesmos, esses "núncios" legionários sempre tenham representado uma incongruência, aqueles que ocupavam essa função a levavam muito a sério. Eram nomeados por um período de seis anos, eram reconhecidos por seus companheiros e se sentavam junto ao superior local, embora, na prática, carecessem de qualquer autoridade. Por que não iriam desempenhar essa encomenda com eficácia, se finalmente era reconhecida pelas próprias Constituições?

Eis aí um dos grandes problemas: as Constituições, a normatividade interna da Legião de Cristo. Nessa legislação, estava considerado o "quarto voto" ou o "voto secreto" que impedia que os legionários proferissem críticas contra os superiores. Ainda em 2007, Bento XVI decidiu revogá-lo. Nesse mesmo regulamento, previa-se a inquietante figura dos "núncios", agora abolida. Que outras surpresas esse documento esconde? Poucos sabem disso, porque ele não é público, pelo menos de maneira oficial.

Dessa forma, a reforma das Constituições adquire um valor capital para o futuro do instituto religioso, uma valiosa oportunidade para mudar as coisas a partir da raiz e afastar-se completamente da herança nefasta de Maciel.

Eis o texto completo do decreto:

O Delegado Pontifício

- Após examinar com seus conselheiros e com o Conselho Geral da Congregação dos Legionários de Cristo a petição de suprimir os Núncios Ordinários (isto é, os Núncios territórios e os Núncios dos centros de formação),

- Após constatar a adesão à petição por parte dos presentes,

- Em razão de sua autoridade como Delegado,

DECRETA

a suspensão dos artigos 553 a 560 das Constituições dos Legionários de Cristo e dos artigos que fazem referência aos Núncios Ordinários, e estabelece que cessem seu ofício como Núncios aqueles que atualmente o exercem.

Roma, 29 de março de 2011

Velasio Card. De Paolis C.S.
Delegado Pontifício

 

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

O "Big Brother" de Marcial Maciel - Instituto Humanitas Unisinos - IHU