Um bispo que fez o rebanho crescer na diocese virtual

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21 Fevereiro 2011

Monsenhor Jacques Gaillot tornou-se conhecido na década de 90 por se tornar o primeiro bispo virtual. A razão é que ele foi transferido da Diocese de Evreux, na França, para a Diocese de Partenia, que seria hoje a Argélia, se continuasse a existir após o V século. Ele teve que deixar a casa episcopal e foi viver com moradores de rua. Razão: denunciou o clima de injustiça reinante na França, disse que a Igreja Católica virou às costas para o povo pobre e chamou Israel de Estado colonialista que rouba e expulsa os palestinos de sua terra pela força.

A reportagem é da Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC), 21-02-2011.

O resultado é que poucos franceses conhecem o nome da autoridade máxima da Igreja Católica no país, mas a imensa maioria sabe quem é e reverencia monsenhor Gaillot. Na entrevista concedida ao repórter colombiano Hernando Calvo Spina, ele se mostra um homem de olhar sereno e voz pausada, que fez de sua vocação religiosa uma opção pelos direitos humanos, especialmente os direitos dos pobres e prisioneiros da injustiça. .

Nascido em 1935 na pequena cidade de Saint-Dizier, deixou o seminário aos 20 anos para realizar o serviço militar na Argélia – a mesma da Diocese fictícia e da vingança real - onde havia uma guerra de libertação contra o colonialismo francês. Agradeceu por não ter sido obrigado a usar armas, ser destacado para trabalhos sociais e poder viver com a comunidade.

A guerra mudou sua vida para melhor. "Ali me encontrei com o Islã, uma religião muito diferente da católica e sobre a qual nada conhecia. Fiquei sabendo que os muçulmanos tinham fé em um Deus, que oravam e que eram hospitaleiros. Eles foram como meus irmãos. Esta inter-religiosidade influiu em minha fé. Também vivi a violência da guerra, razão pela qual fui me convertendo em um militante da não-violência. Realmente, a Argélia foi um seminário para mim", afirmou convicto.

Após quase dois anos na Argélia, Gaillot foi enviado a Roma e ordenado sacerdote em 1961 - época do Concílio, do diálogo com o mundo moderno e do respeito aos direitos humanos – sendo nomeado bispo da cidade de Evreux, na França, em 1982. Mas o Vaticano decidiu arrancá-lo dessa diocese em 13 de janeiro de 1995.

"Alguns dias antes dessa data fui chamado a comparecer diante das autoridades do Vaticano sem saber por quê", explicou. "Ante minha incredulidade, em algumas horas fui declarado culpado e, em menos de um dia, foi decretada minha expulsão da diocese. O cardeal Bernardin Gantin, prefeito da Congregação dos Bispos, me propôs que eu assinasse minha demissão e assim poderia manter o título honorífico de bispo emérito de Evreux. Não assinei nada. Então me nomearam bispo de Partenia, uma diocese que não existe desde o século V, situada na atual Argélia".

Com a experiência da guerra pela ótica dos vencidos, e incapaz de vingar-se, deixou a função sem se afastar do pastoreio. "Com minhas poucas roupas deixei a diocese de Evreux. Como não tinha onde ficar, me instalei durante um ano em um prédio recuperado por famílias sem teto e estrangeiros sem documentos, em Paris. Depois fui acolhido por uma comunidade de missionários", narrou.

A decisão do Vaticano era oficial, e assim dispensada de qualquer piedade, um simples sentimento humano. Ou mesmo senso pastoral. Como num Estado moderno e autoritário, sem qualquer mediação humanitária, os que falam de anjos e demônios não conseguiram lidar com sua ousadia e autoridade, passando a tratá-lo como um dissidente.

Ele foi um dos bispos que não votou a favor de um texto episcopal sobre a dissuasão nuclear, em 1983. Apoiou o levante palestino nos territórios ocupados por Israel, encontrou-se com Yasser Arafat em Tunís, em 1985. Preferiu viajar até a África do Sul para visitar um militante contra a segregação racial preso a ir à peregrinação pela Virgem de Lourdes em 1987.

Defendeu na revista "Elle" a ordenação de homens casados e, ainda em 1988, declarou-se a favor da benção a homossexuais. Publicou o artigo intitulado "Ser homossexual e católico" na revista Gai Pied, em fevereiro de 1989, e envolveu-se diretamente na fundação de associações de apoio a marginalizados, passando a ser conhecido como "o bispo dos sem" (sem documentos, sem teto...), desde 1994.

Impotentes diante de tal radicalidade evangélica, sobraram inimigos nos círculos de poder – civil e religioso – já que o governo francês interveio na decisão do "poder eclesiástico" através de Pascua,  ministro do Interior, que na França é o encarregado dos Cultos. A informação foi confirmada por fontes confiáveis. Isso o fez admitir: "Tenho certeza que um livro meu contra a lei de imigração foi a gota d’água que entornou o copo".

Como a simples humilhação não afeta um homem despojado, "o Vaticano e o governo francês quiseram me isolar. Mas em 1996, no primeiro aniversário de minha partida de Evreux, alguns amigos criaram na internet a Associação Partenia, fazendo de mim um "bispo virtual’. Não imaginaram que eu iria acabar animando a única diocese em expansão, com mais fiéis no mundo e em diferentes idiomas".

"Imediatamente agradeci ao Vaticano e a Pascua, porque eles me fizeram dar mais passos na direção da outra margem, onde encontrei outra vida", lembrou. "Agora tenho toda a liberdade, vivo na ação com os excluídos da sociedade. Posso viver com as pessoas, compartilhar suas alegrias e suas angústias. Tem sido maravilhoso conhecer todas as pessoas que conheci. Enquanto isso, Pascua está sendo processado por vários delitos e a Igreja a cada dia perde mais cristãos".

Com respeito pela consciência humana, denunciou que "a Igreja procura fazer Deus intervir para nos forçar a obedecer e a não pensar. Muitos discursos sobre Deus falam dele, mas quando alguém fala bem do ser humano, isso me diz muito de Deus. A Instituição segue impávida em seu pedestal, longe do povo e de Deus. A seguir assim, se converterá em uma seita, porque muitas pessoas estão partindo para outras religiões. A Igreja vive uma hemorragia", disparou.

Não teme denunciar o que deve ser transformado. "A Igreja deve mudar, modernizar-se, reconhecer que os casais têm direito a se divorciar e a usar a camisinha, que as mulheres podem abortar, que homens e mulheres podem ser homossexuais e se casar, que as mulheres podem chegar ao sacerdócio e ter acesso às esferas de decisão. Deve-se revisar a disciplina do celibato para que os sacerdotes possam amar como qualquer outro ser humano, sem ter que viver relações clandestinas, como delinqüentes".
Sem meios termos, ele admitiu que "a situação atual é perversa e destruidora tanto para os indivíduos como para a Igreja. O Vaticano é a última monarquia absoluta da Europa. A Igreja deve aceitar a democracia em todos os níveis. E deve mudar de modelo porque o atual não é evangélico".

Sobre a Teologia da Libertação, ponderou. "Eu me interessei por ela porque é uma teologia que fala dos pobres. Não se fala da liturgia, nem do catecismo, nem da Igreja; fala-se do povo pobre. Ensina que são os próprios pobres que devem tomar consciência da necessidade de sua libertação".

Disse que aprendeu dos "ensinamentos de dom Helder Câmara, no Brasil, um grande teólogo, do monsenhor Leónidas Proaño, no Equador; de Oscar Romero, em El Salvador, e outros sacerdotes latino-americanos, principalmente. Para mim foi um choque brutal quando Romero foi assassinado celebrando a missa, em 24 de março de 1980. Ele havia deixado a Igreja dos poderosos para estar com os pobres. Achei admirável essa conversão".

Gaillot frisou que a Teologia da Libertação "é perigosa para os poderosos. Quando os pobres são submissos aceitam seu triste destino, então não há nada que temer, são pão abençoado para os poderosos. Os detentores do poder podem dormir tranquilos. Mas se os pobres despertam e adquirem consciência de sua condição, convertendo-se em atores da mudança, então isso produz medo no poder".

A situação na França é altamente conflitiva. "Os que estão no poder não investem nos pobres. Temos um governo que só favorece os ricos. Por isso temos três milhões de pobres". Quando  indagado sobre a posição da Igreja, ele lembrou "o que ocorreu em 23 de agosto de 1996, quando quase mil policiais das forças especiais forçaram a ponta de machado as portas da Igreja Saint-Bernard-de-la-Chapelle, em Paris, tirando a força 300 estrangeiros em situação irregular. Eu estava escandalizado e desgostoso porque o próprio bispo havia pedido sua expulsão. E quando alguém expulsa humanos que se protegem em uma igreja, está dessacralizando essa igreja. Desgraçadamente, isso continua acontecendo. A Igreja caminha para virar uma seita".

"Nesta crise", enfatizou o bispo, "não são os ricos que estão em crise, são os mais pobres. Protestamos o ano passado contra as leis propostas pelo governo porque elas penalizavam os pobres. Hoje, muitos franceses só vão ao médico, ao dentista, ao oftalmologista quando é algo verdadeiramente de urgência. E às vezes já é tarde. Os direitos sociais estão sendo eliminados. E a crise atinge as famílias. Se alguém comprou uma casa, perde o trabalho e não arruma outro, deve revendê-la. Isso traz muitos problemas de droga e delinquência", denunciou.

O grave na situação é que "a moradia social não é uma prioridade política, porque aqueles que estão no poder possuem boas mansões. Constrói-se pouco e as pessoas não sabem aonde ir, restando-lhes as ruas ou algum sótão insalubre. E isso não importa, ainda que existam muitos edifícios vazios em Paris. Quando chega o inverno, o governo fala de "planos’. Então, abrem-se ginásios ou algumas salas para abrigar os milhares que não têm onde morar. Mas esses "planos’ não são solução para o frio. A solução é construir habitações dignas. É uma vergonha, é desumano e não é cristão deixar que centenas de pessoas morram de frio nas calçadas e ruas da França".

"Fazemos caridade quando não conseguimos impor a justiça", afirmou, lembrando o escritor Victor Hugo. E aplicou à realidade, dizendo "que não é de caridade que necessitamos. A justiça vai às causas; a caridade, aos efeitos. Eu não estou dizendo que não se deve ajudar com um prato de sopa ou um abrigo a quem está nas ruas. Existem urgências. Eu faço isso, mas minha consciência não fica tranquila, porque penso que devemos lutar contra as causas estruturais que prendem essas pessoas na injustiça. O mais triste é que as pessoas vão se acostumando com a injustiça. E eu digo: Despertem! Tenham vergonha! Vamos nos indignar contra a injustiça!"

Não tergiversa e nem negocia com a violência. "Seguimos lutando pelos direitos do povo palestino. Israel é um Estado colonialista que rouba terra palestina e exclui esse povo pela força. Há mais de 60 anos que a Palestina vive sob a ocupação israelense e a injustiça. E a chamada "comunidade internacional’ faz bem pouco ou nada". Pragmático, entende que "uma das ações é boicotar os produtos vindos de Israel, principalmente aqueles que são produzidos nos territórios ocupados. Cerca de 50 produtos agrícolas são produzidos na Palestina para benefício israelense. Enquanto os palestinos viverem na injustiça, não haverá paz", vaticinou.

Elogiou a participação das mulheres latino-americanas na política. "Uma mulher na presidência do Brasil é algo extraordinário! Na França, não fomos capazes nem de ter uma primeira ministra: somos tão machos! Ah, sim, uma vez tivemos a senhora Edith Cresson, mas ela não pôde ficar por muito tempo já que tentaram massacrá-la, em função de sua condição de mulher. Somos machos e vulgares como não se pode imaginar! Hoje, não é a velha Europa que dá o exemplo, é a América Latina. Devemos olhar para lá. A América Latina é a região que deve servir de exemplo para os que lutam contra a injustiça", concluiu.

 

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