Jó: o contestador crente. Artigo de Roberto Mela

Foto: Reprodução

10 Novembro 2021

 

"Existe o enigma do sofrimento do justo, testado em sua fé para o Deus amoroso e providente. Mas - segundo Mazzoni - não parece viver seu sofrimento de acordo com essa perspectiva. Na parte narrativa, Jó se mostra resignado e aceita com submissão tudo o que lhe acontece. Nos diálogos, porém, surge a questão do porquê do sofrimento do justo. Desconhecedor do pacto celebrado no céu entre YHWH e o satan, atribui a Deus as desgraças, não entende as razões, protesta a sua inocência com os amigos, sentindo-se vítima de uma profunda injustiça".

 

O comentário é do teólogo italiano Roberto Mela, professor da Faculdade Teológica da Sicília, publicado por Settimana News, 08-11-2021 . A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo. 

 

A coleção Nova Versão da Bíblia de Textos Antigos (NVBTA) é enriquecida por um volume editado por Stefano Mazzoni, professor de AT na Pontifícia Faculdade de Teologia Marianum em Roma, membro da Congregação religiosa dos Servos de Maria.

 

Após a introdução geral (pp. 9-37), o texto bíblico de Jó segue com o original hebraico na página par à esquerda e a tradução pessoal do autor na ímpar à direita. Um segundo registro no meio da página contém algumas notas filológico-teológicas pontuais, enquanto um terceiro registro contém o comentário exegético-teológico (pp. 38-310). O monge camaldulense Matteo Ferrari expõe, ao final, a presença do livro de Jó na liturgia atual (pp. 311-315).

 

O livro de Jó

 

Na Bíblia Católica, Jó ocupa o primeiro lugar entre os livros sapienciais, antes do livro de Salmos. A estrutura do livro consiste em um prólogo em prosa (c. 1-2) e um epílogo (42,7-17) também em prosa.

No prólogo é narrado como, mediante permissão acordada com Deus, o justo é posto à prova pelo adversário, satan, quanto à gratuidade de sua fé por meio de uma prova duríssima que o atinge recaindo sobre os seus bens, sobre a morte de seus filhos e na doença física que o marginaliza social e religiosamente. Jó permanece fiel a Deus e é visitado por três amigos.

O epílogo está conectado ao prólogo e contém o juízo de YHWH sobre os amigos de e sobre as suas palavras (42,7-9), que é seguido pelo restabelecimento de Jó em sua prosperidade (42,10-17).

No epílogo, retrata suas palavras proferidas para e contra Deus por causa de seu sofrimento, em busca do motivo da dor inocente, e é reintegrado de forma dupla com os bens e os filhos.

Pareceria uma confirmação da doutrina tradicional da retribuição: todo mal é punido por Deus, todo bem é recompensado por ele de maneira correspondente. Essa teoria é fortemente defendida pelos três amigos de (com o quarto, Eliú), que vêm consolá-lo.

Na seção poética central, há três séries de diálogos dos amigos com Jó, junto com um poema sobre a sabedoria (c. 28), um monólogo de Jó (c. 29-31), o ciclo de Eliú, um amigo não mencionado anteriormente, com quatro discursos (c. 32-37), os diálogos de Deus com Jó: teofania e primeiro discurso de YHWH (c. 38-39); interpelações de YHWH e primeira resposta de (40,1-14); segundo discurso de YHWH (40,15-41,26); segunda resposta de Jó (42,1-6).

Obras semelhantes à de aparecem no antigo Oriente Próximo. São encontradas no Egito, no âmbito sumérico ("Jó sumério"), acadiano e babilônico (o "Jó babilônico", Diálogo de um homem sofredor com seu piedoso amigo).

Os estudiosos propuseram como o gênero literário de Jó a tragédia, a epopeia, o debate judicial, a lamentação dramatizada e o debate sapiencial. Mazzoni tende por esta última proposta.

De acordo com Mazzoni, a redação final do livro de Jó parece situar-se entre os séculos V e III a.C.

O autor anônimo poderia ser um escriba, um erudito judeu cosmopolita que fala aramaico e que escolhe o hebraico como língua literária.

Os destinatários talvez sejam os exilados regressados da Babilônia que se perguntam o sentido da catástrofe e da justiça de Deus ou um grupo de discípulos da diáspora, a quem o escriba-autor instrui, mostrando os limites da doutrina tradicional. O livro, no entanto, transcende a identidade dos destinatários e a época da composição, porque o problema do sofrimento humano e a posição assumida por Deus em relação a ele são sempre problemas atuais.

Traços típicos do exílio e pós-exílio do livro de Jó são a figura do satan, a problematização da doutrina tradicional da retribuição e a proximidade poética do livro de Eclesiastes, com algumas passagens dos Provérbios e Jeremias. Há também a dimensão universalista-monoteísta que emerge das escolhas literárias do autor e, por fim, a falta de uma perspectiva de vida após a morte que aparecerá pela primeira vez no livro de Daniel, em uma seção atribuída ao século II a.C. A redação final de Jó deve, portanto, ser colocada antes desta data.

Antes de expor algumas linhas teológicas fundamentais, Mazzoni expõe uma breve história de interpretação.

era visto como um tipo de homem paciente e generoso, um modelo de fragilidade humana. Orígenes enfatizou a pedagogia da dor. Crisóstomo vê nele a figura do moralista e do filósofo, um homem justo e sábio que se entrega totalmente a Deus. Agostinho destaca a universalidade do pecado, enquanto Ambrósio ressalta a tensão entre a razão humana e o mistério da ação de Deus. A resposta de a essa aporia é aquela da fé, que se combina com a verdadeira sabedoria.

Entre 579 e 585, Gregório Magno compôs o primeiro comentário a em 35 volumes: a exegese, a leitura espiritual, eclesial e cristológica se mesclam com a oferta de uma reflexão teológica e a atualização. Jó é o modelo de perfeição moral e se torna o "tipo" de Cristo (e da Igreja) em sofrimento.

 

Giobbe. Introduzione, traduzione e commento a cura di Stefano Mazzoni 
(Nuova Versione della Bibbia dai Testi Antichi 19, Ed. San Paolo, Cinisello B [MI] 2020, pp. 320, € 38,00, ISBN 9788892221338.)

 

O enigma do sofrimento

 

O livro de Jó contém mais perguntas do que respostas - afirma Mazzoni - cujas reflexões acompanhamos de perto. O tema do sofrimento do justo não é o único e o mais importante. O problema mais importante é o da concepção de Deus e da relação do homem com ele. Todos os outros problemas dependem desse.

Existe o enigma do sofrimento do justo, testado em sua fé para o Deus amoroso e providente. Mas - segundo Mazzoni - não parece viver seu sofrimento de acordo com essa perspectiva. Na parte narrativa, Jó se mostra resignado e aceita com submissão tudo o que lhe acontece. Nos diálogos, porém, surge a questão do porquê do sofrimento do justo. Desconhecedor do pacto celebrado no céu entre YHWH e o satan, atribui a Deus as desgraças, não entende as razões, protesta a sua inocência com os amigos, sentindo-se vítima de uma profunda injustiça.

Jó é um livro atual porque o problema do sofrimento inocente está ligado ao problema fundamental da justiça de Deus e da maneira como ele a administra no mundo dos homens.

De acordo com a teoria da justiça retributiva, profundamente enraizada na tradição bíblica, Deus recompensa os justos por sua boa conduta e pune os ímpios na proporção de sua maldade. Jó denuncia as limitações dessa teoria e a contesta. Os amigos, por outro lado, querem convencê-lo de seu pecado e o convidam à humildade de seu reconhecimento.

Entre os amigos, há aqueles que enfatizam a medida mínima e transitória do sofrimento humano, aqueles que a veem como um traço típico das criaturalidade humana e veem Jó como um pecador. Mas a culpa de Jó não parece tão grave a ponto de ele ter que perder os filhos.

Zofar o acusa de ser pecador e hipócrita, alguém que quer disfarçar os próprios pecados. Eliú defende a obra de Deus e enfatiza o valor pedagógico do sofrimento. Tem o propósito de admoestação e correção. As razões para as modalidades da intervenção de Deus podem não parecer claras e razoáveis ao homem, mas dependem de sua soberania inescrutável, da qual se origina sua justiça indefectível.

professa sua inocência, afirma não ser culpado de atos tão graves a ponto de merecer a dor que padece. Questiona a justiça divina. Quer discutir diretamente com Deus e aparecer diante dele para demonstrar a sua inocência.

O sofrimento injusto se combina com a , nunca abandonada, em um Deus justo, apesar das aparências manifestamente contrárias. Desse ponto de vista, se entendem as lamentações sinceras de Jó, seu desejo de morrer para não sofrer mais, suas acusações de indiferença dirigidas a Deus, que parece não se importar com a dor dos inocentes, enquanto deixa os ímpios e malvados prosperarem. Jó sente Deus como um adversário implacável, oscila entre a confiança na existência de uma ordem moral divina no mundo e a percepção de que ela seja desconsiderada. Por fim, espera um mediador imparcial que garanta sua defesa perante o juiz divino.

 

Deus e o mundo

 

Em sua resposta, Deus condescende com o confronto pessoal, mas não responde explicitamente à pergunta feita por , a da justiça divina e do reconhecimento da própria inocência. Os dois discursos divinos se concentram no cosmos. Parece que Deus quer desviar Jó da preocupação exclusiva com a sua condição, convidando-o a alargar o olhar e a procurar no cosmos as respostas às suas perguntas.

O mundo natural - incluindo os animais - assume uma dimensão reveladora que é fundamental para a compreensão da relação entre Deus e o homem. O cenário da tempestade apresenta Deus como o criador e aquele que governa constantemente toda a realidade criada. Os elementos da natureza estão a serviço da revelação de Deus e são um sinal evidente da sua misteriosa presença no mundo. Ao observar o cosmos, pode reconhecer o domínio sábio e poderoso de Deus exercido sobre ele.

experimentará os limites inscritos na criaturalidade humana, entre os quais aquele do "conhecimento". Os limites se chocam com a incapacidade de apreender o grandioso desígnio de Deus, que jamais pode ser encerrado em fórmulas e esquemas teológicos imutáveis e predefinidos.

Deus rejeita as acusações de indiferença e de administração arbitrária da justiça. Reafirma a existência de uma ordem da qual é fiador e criador, mas que permanece, em seus aspectos mais profundos, em grande parte oculta e misteriosa devido às limitadas capacidades humanas de compreensão. Elas só podem captar um reflexo disso, contemplando as maravilhas do mundo.
YHWH abre espaço para a liberdade de Jó porque, ao reconhecer a alteridade divina, é chamado a realizar um caminho de conversão: da própria imagem de Deus, de si mesmo, da própria compreensão da dor que acompanha a existência.

 

 

Miséria e grandeza do homem

 

O livro de Jó oferece a possibilidade de refletir sobre o homem e seu caminho de . parte da aceitação paciente da limitação humana intrínseca à criaturalidade humana e do senso de abandono à vontade de Deus oferecidas no início do livro. Segundo Mazzoni, porém, parecem um tanto estereotipadas e um mecanismo de defesa diante de uma situação considerada demasiado pesada e dolorosa. Jó busca uma resposta para uma dor incompreensível. Ele colide com sua própria fragilidade, com a fraqueza intrínseca à carne humana, com sua transitoriedade e insignificância no grande cenário da criação. O homem é impuro e sujeito ao pecado.

No entanto, não é impedido de buscar uma resposta para a dúvida, que também se refere à sua relação com Deus. Por isso, expressa sua raiva e frustração e se revolta contra os amigos. Para estes últimos, o homem é frágil e, portanto, infinitamente distante da santidade divina, diante da qual é impossível a pretensão de ser inocente. , por outro lado, não considera a fragilidade um obstáculo para se relacionar corretamente com Deus e por isso se enfurece também com ele.

Qual é o sentido de dor que parece desmentir a vida e a bondade mostrada por Deus com o dom da vida? Com suas fortes palavras de desafio - às vezes quase blasfemas -, expressa no fundo a sua fé, que não se rende diante da aparência da falta de sentido e da iniquidade. Ele suplica e discute com Deus, pede uma resposta que os amigos não lhe dão, uma palavra que lhe restaure a dignidade.

No diálogo apaixonado e verdadeiro descobre-se a interioridade do homem que busca em Deus o sentido último da vida e uma presença amiga que o sustente.

 

 

A revelação da face de Deus

 

A jornada de fé de Jó culmina na teofania final (c. 38) e nos discursos dirigidos a ele por Deus (c. 39; 40,15-41,26). Segundo Mazzoni, o coração da obra e o ponto de convergência das temáticas teológicas parecem ser precisamente a busca do rosto autêntico de Deus e o encontro com o seu mistério. O desejo de Jó é satisfeito: "Eu te conhecia de ouvir, mas agora os meus olhos te veem", reconhece com sinceridade (42,5).

Existe uma nova consciência em Jó. O conhecimento teológico tradicional dá lugar à experiência pessoal de Deus. Ele não responde explicitamente às perguntas de Jó sobre o sentido do sofrimento, da justiça divina e da retribuição. Em vez disso, Jó é chamado a mudar radicalmente a sua imagem de Deus, intuindo o seu rosto na vastidão e na complexidade do mundo, e experimentando sua presença ao seu lado mesmo no momento da dor.

A fé de Jó encontra seu ponto de chegada na certeza de uma comunhão que nenhuma prova pode interromper. Por isso, o próprio Deus acaba por exprimir a sua aprovação a , porém julgando os seus interlocutores de forma negativa: "... vocês não falaram o que é certo a meu respeito, como fez meu servo Jó" (42,8).

Não existem fórmulas teológicas que possam encerrar e esgotar o mistério de Deus. No caminho da fé - nota Mazzoni -, o homem tateia como , num caminho de busca que é a única maneira de se deixar surpreender por Deus e aceitar seu desígnio, muitas vezes apenas vislumbrado. “O mistério do sofrimento do inocente, a presença do mal na história e o aparente sucesso da injustiça podem encontrar sentido no encontro com o rosto de um Deus que não se revela como um juiz inflexível nem como tirano ou despótico senhor, mas sim como fonte da vida e da liberdade, como pai misericordioso que acompanha com paciência e solicitude os seus filhos e os ampara no caminho sempre incerto e laborioso da fé” (p. 28).

No final do livro, imediatamente antes do epílogo, em 42,5-6, Jó afirma - na tradução de Mazzoni: "Eu te conhecia de ouvir, mas agora meus olhos te viram, portanto me retrato e me arrependo no pó e nas cinzas”. consegue situar sua experiência de dor e finitude numa trama mais ampla, cuja fiação é confiada às mãos sábias e amorosas de Deus. Em sua própria história, Jó percebe uma realidade do bem que resiste a todo ataque do mal, uma presença capaz de trazer a visão de uma meta de felicidade para além da cortina opaca daquela miséria cotidiana.

 

 

O epílogo e o encontro pessoal com o mistério de YHWH

 

Mazzoni chama a atenção para o fato de que uma leitura superficial do epílogo (42,10-17), com a reversão do destino de Jó e o restabelecimento na prosperidade devido à sua fé, poderia reforçam a aceitação da teoria da retribuição rejeitada pelo próprio e, assim, causar um desconforto no leitor. O estudioso lembra que, na redação final do livro, o epílogo deve ser lido não apenas em relação ao prólogo, mas também com a seção intermediária dos diálogos, da teofania e do encontro final com YHWH.

A bênção renovada de Jó não apaga tudo o que ele sofreu e a dor que o marcou na carne. O conforto dos familiares e dos conhecidos não anula a sensação de solidão vivida anteriormente e os novos filhos não podem nos fazer esquecer a perda dos primeiros.

O sentido do final do livro e de toda a obra - observa o exegeta - é o encontro pessoal de com YHWH. Jó está insatisfeito com as respostas de seus amigos e busca uma experiência profunda e direta com o divino. No momento da teofania, sente ao máximo sua proximidade com o mistério de YHWH. Percebe sua própria limitação, a impossibilidade de compreender o desígnio grandioso do mundo e, mais ainda, seu Criador. Neste encontro, Jó intui um rosto inédito de Deus e uma modalidade de administrar a justiça diferente daquela humana.

“O Deus que Jó encontrou - nota Mazzoni - não eliminou o problema do mal no mundo e do sofrimento humano; porém, ele ouviu , acolheu-o com seu grito indignado e seu protesto, e revelou-lhe um desígnio grandioso, no qual Jó é convidado a colocar sua experiência de criatura frágil e limitada. No final desse percurso, Jó compreendeu a necessidade de purificar a sua imagem de Deus, reconhecendo a sua presença discreta mas real nas dobras da existência, mesmo naquelas mais escuras e dolorosas. Portanto, seu último discurso termina com uma nota de arrependimento e penitência, um símbolo de aceitação, na que atravessou as trevas da provação, da necessidade da conversão, na busca inesgotável do verdadeiro rosto de Deus. Prepara-se, assim, o epílogo do livro, que pedirá ao leitor um adicional esforço interpretativo” (p. 302).

O comentário científico de Mazzoni é um excelente ponto de referência para a interpretação de um texto tão exigente em nível literário e teológico como aquele do livro de Jó. Poderão fazer uso disso professores, alunos, mas também agentes pastorais e estudiosos do texto bíblico.

 

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