A longa agonia das políticas neoliberais, sentenciadas pela covid

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13 Setembro 2021

 

“O mundo deve abandonar o neoliberalismo, após a pandemia”. Talvez pudesse ser a recomendação do ex-ministro grego Yanis Varoufakis, do prêmio Nobel Joseph Stiglitz ou do acadêmico Ha-Joon Chang, há anos, economistas críticos ao modelo de economia globalizada, desregulamentada e extremamente desigual em voga na maior parte do mundo desde os anos 1970.

A reportagem é de Andy Robinson, publicada por La Vanguardia, 05-09-2021. A tradução é do Cepat.

Mas a frase é do empresário suíço Klaus Schwab, fundador do Fórum Econômico Mundial, cujas reuniões de inverno de conselheiros, banqueiros de investimento e gestores de fundos nos Alpes suíços foram justamente o principal laboratório de ideias para a globalização neoliberal, do último meio século. Para arrematar a ironia, Ana Patricia Botín, presidente do Banco Santander, parabenizou Schwab quando anunciou seu novo plano para “redesenhar o capitalismo”.

Schwab não é o único novo convertido à escola antineoliberal. The Financial Times – jornal de referência da Cidade de Londres – já defende “recuar em relação às políticas das últimas quatro décadas” e “atribuir ao Estado um papel mais ativo na economia”. Há alguns dias, um executivo do Deutsche Bank – grande beneficiado pela liberalização financeira provocada pela crise do euro – anunciou que “não existe o mercado livre como tal”. Dezenas de palestras universitárias e tribunas nos grandes jornais coincidem em que “o neoliberalismo está morto”.

De consenso em finais dos anos 1990, dos bancos de Wall Street às sedes da social-democracia europeia, e maquiado com filantropia em Davos, o projeto neoliberal sofreu um duplo golpe até o momento do século XXI.

Primeiro, a épica crise financeira de 2008. Foi a prova devastadora de que o capitalismo desregulamentado, sob as receitas do prêmio Nobel Milton Friedman e seus discípulos da Universidade de Chicago, tinha uma problemática propensão a se autodestruir e acabou cobrando uma fatura multibilionária ao mesmo Estado que os neoliberais desprezavam. A hegemônica “hipótese dos mercados eficientes” jamais voltaria a se expor com a mesma eloquência em Wharton ou Harvard.

Segundo, a pandemia. Não só forçou políticos viciados em privatizações como Boris Johnson a se desfazer em elogios à saúde pública, como tornou os então heréticos economistas ultrakeynesianos da teoria monetária moderna – que defendem que, em momentos de insuficiente demanda agregada, deve haver poucas restrições às políticas de gasto fiscal financiadas pelo banco central – pessoas respeitáveis.

Com alguma exceção (como na Espanha, onde velhas ortodoxias sobre o emprego e o salário mínimo ainda perduram), os bancos centrais reconheceram, após meio século de chamadas à austeridade, que os tempos haviam mudado. Compraram trilhões de euros de emissões da dívida pública para financiar pacotes de resgate e reativação pelo número astronômico de 3,4 trilhões nos Estados Unidos e mais de 1,85 trilhões na zona do euro.

Tudo o que antes era tabu se tornou possível. O chamado Green New Deal do keynesianismo ambiental deixou de ser uma fantasia para se plasmar em investimentos bilionários em eficiência energética ou energia renovável. Conforme o vírus se espalhava, “as restrições neoliberais e sua lógica econômica saltaram pelos ares”, afirma o historiador Adam Tooze, em seu novo livro Shutdown.

No Reino Unido, o Governo desafiou cada regra da ortodoxia ao pagar os salários de milhões de trabalhadores desocupados, durante seis meses. Na Espanha, hospitais privados foram requisitados.

Apesar de tudo isto, “ainda é muito cedo para anunciar a morte do neoliberalismo”, destacou James Galbraith, professor da Universidade do Texas, cujo pai foi uma das autoridades mais respeitadas da ortodoxia keynesiana dominante, após a Segunda Guerra Mundial. O discurso mudou e as políticas macroeconômicas também. Mas “as ideias zumbis da era neoliberal podem retornar em breve”, explicou em uma entrevista telefônica.

A verdade é que, para além da mudança de paradigma em políticas fiscais e monetárias, pouco se fez para desmantelar as estruturas de poder da velha ordem: “Nada está sendo feito para controlar o sistema financeiro, tampouco se questiona o poder das grandes corporações”, disse Richard Kozul-Wright, da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD).

Esse ceticismo se vê respaldado por um assombroso aumento da desigualdade durante a pandemia. Em nível mundial, o patrimônio dos milionários aumentou em 3,9 trilhões de dólares, entre março e dezembro de 2021, segundo calcula Oxfam, até ultrapassar o valor de todos os pacotes de expansão fiscal implementados pelo G-20. Enquanto isso, 400 milhões de pessoas no sul global caíram abaixo do nível da pobreza, recebendo menos de dois dólares por dia, segundo um relatório das Nações Unidas.

Na verdade, para esses países em desenvolvimento - três quartos da população do mundo -, a alternativa ao neoliberalismo não é o novo paradigma de Joe Biden, mas o da China, paradoxalmente o inimigo geopolítico no discurso ocidental da era pós-neoliberal.

Resistente na crise financeira de 2008-2009, assim como na pandemia de 2019-20, a China “é uma alternativa muito atraente, a prova de que é necessário controlar as elites financeiras, caso você queira alcançar um progresso social equilibrado”, disse Galbraith. “Wall Street empresta dinheiro às elites que acaba em Liechtenstein. Os chineses, ao contrário, chegam em seu país, constroem portos, aeroportos e sistemas de comunicação”.

Ainda que na era neoliberal a China tenha proporcionado suculentos lucros às corporações multinacionais ocidentais, Pequim jamais se deixou levar por sua ideologia. “Rejeitar as receitas neoliberais foi uma precondição para o sucesso da China”, disse Isabella Weber, autora de Como a China escapou da terapia de choque, em uma videoconferência da UNCTAD, no mês passado. Pequim – isso sim, baseando-se em um sistema político de partido único – optou por um caminho gradual, incorporou elementos do mercado, mas manteve o peso do Estado na economia, e – diferente da América Latina ou do Leste Europeu – jamais se abriu às vicissitudes destrutivas dos mercados financeiros globais.

O curioso – acrescenta Galbraith – é que foi justamente a ortodoxia keynesiana dominante nas décadas anteriores ao neoliberalismo (de 1945 a 1975), nos Estados Unidos e na Europa, que inspirou os tecnocratas chineses no início da transição gradual para a economia de mercado. De especial interesse foi a economia estadunidense dirigida pelo Estado federal, durante a Segunda Guerra Mundial, quando – assim como na pandemia atual – a vaca sagrada do livre capitalismo era um luxo que ninguém podia se permitir. “O trabalho de meu pai sobre a estabilização de preços, em 1942-43, foi de grande interesse para os chineses”, disse Galbraith.

Para a maior parte do mundo, a esperança de um novo caminho de crescimento, após a pandemia, como o da pax americana do pós-guerra, já passa pelo modelo econômico chinês.

 

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