Polônia: padres, abusos e beatificações

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23 Agosto 2021

 

Uma contestada comunicação sobre os abusos perpetrados pelo clero na Polônia reacendeu o debate sobre o assunto. A Igreja polonesa está em declínio.

O comentário é de Lorenzo Prezzi, em artigo publicado em Settimana News, 20-08-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Devido a uma comunicação imprecisa, o primeiro relatório da comissão estatal polonesa contra a pedofilia (27 de julho) passou para a comunicação internacional com o título: 30% dos padres são predadores. Na realidade, as pesquisas internacionais atribuem 1-2% dos abusos ao clero.

O que aconteceu? A primeira e bastante sumária estimativa dos casos se beneficiou de décadas de trabalho que a diocese e a Fundação São José (a instituição à qual os bispos delegaram a atividade de pesquisa, tratamento e acompanhamento das vítimas e dos atores dos abusos) produziram com alguns poucos relatórios públicos.

Assim, a comissão estatal examinou 345 casos e 245 processos judiciais, dos quais 30% diziam respeito a sacerdotes, e 35% eram atribuídos a familiares (que, nas pesquisas, constituem 85-94% dos casos).

O relatório estatal, fruto de oito meses de trabalho, está repleto de indicações importantes sobre a idade e o sexo das vítimas, sobre os problemas que elas têm de enfrentar nos processos, sobre os longos anos de incubação das feridas produzidas pelas violências sexuais. E, sobretudo, traz 22 recomendações finais, incluindo algumas relativas às necessárias mudanças no código penal, a sanções mais severas e à remoção da prescrição nos casos de abusos. Pede-se a criação de um defensor dos menores.

No que diz respeito à Igreja, a comissão lamenta que não teve acesso a um certo número de documentos: “Até este momento, recebemos várias vezes a garantia da colaboração e ficamos contentes com isso, mas ela ainda não se realizou” (B. Kmieciak, presidente). Pedidos semelhantes foram feitos a denominações e crenças presentes no país, como as Testemunhas de Jeová.

A maioria não forneceu nenhuma indicação. A Igreja Ortodoxa, por exemplo, que tem 600.000 fiéis, afirma que não recebeu nenhum pedido. Os comissários estão convencidos de que os dados são apenas o começo de um processo de esclarecimento que levará a resultados muito mais inquietantes.

 

A louvável atividade de defesa dos menores

Em um esclarecimento do porta-voz do Escritório para a Proteção dos Menores da Conferência Episcopal (Pe. Studnicki), lamenta-se que, “devido à infeliz apresentação do relatório estatal, a informação errônea sobre os 30% do clero entre os autores dos abusos deu a volta ao mundo”. Espera-se que seja feita uma especificação de responsabilidade, mesmo que os efeitos negativos já são difíceis de conter.

Entre as simplificações e as distorções do documento, indicam-se, de um lado, a obrigação, que diz respeito apenas a procuradorias e tribunais civis, da transferência dos autos (e não, portanto, dos tribunais eclesiásticos, em particular quando atuam em nome e por conta de Santa Sé), e o pedido à Igreja de produzir documentos a partir de 2000, enquanto a investigação da comissão abrange o período de 2017 a 2020. Não foram levadas em conta as objeções expressadas por algumas vítimas e pelos seus terapeutas.

Quanto à colaboração, o arcebispo W. Polak (responsável pelo setor na Conferência Episcopal) propôs algumas vezes um encontro com a comissão que, por várias razões, não ocorreu e encaminhou seus pedidos à Santa Sé. No dia 13 de agosto, porém, ele compartilhou com a comissão os procedimentos, as metodologias e os sistemas de catalogação elaborados pelo instituto de pesquisa eclesial que há décadas trabalha na sociologia religiosa e, em particular, na questão dos abusos.

Devem ser assinaladas a qualidade e a coerência com que tanto a Fundação São José quanto o escritório estão trabalhando na questão.

Um sinal importante é o severo pedido do Pe. Studnicki a Dom Antoni Dlugosz, bispo auxiliar de Czestochowa, para desmentir as palavras proferidas em público no dia 11 de agosto. O prelado denunciou um complô e um ataque aos bispos sobre a questão dos abusos. Ele se perguntou como um bispo, mestre e pai podia levar um de seus padres a julgamento e como os padres podiam ousar denunciar um irmão, senão renunciando à sua própria vocação e ao seu pertencimento eclesial.

O escritório episcopal para a defesa dos menores pediu expressamente um pedido público de desculpas. “A colaboração da Igreja com as forças da ordem e judiciárias do Estado é um elemento necessário para combater eficazmente os terríveis crimes cometidos contra as pessoas mais vulneráveis.”

No dia 9 de julho, outro bispo foi censurado pelas autoridades eclesiásticas por negligenciar uma denúncia. O bispo Wiktor Skwore renunciou às suas funções na Conferência Episcopal e pediu a nomeação de um coadjutor, tendo em vista a sua renúncia. Seu nome se soma à longa série de bispos envolvidos: J. Paetz (2002), H. Gulbinowicz (2020), S. L. Glódz, E. Janak, T. Rakoczy, J. Tirawa, Z. Kiernikowski, S. Regmunt, S Napierala (2021).

 

Uma celebração menos enfática

Estamos a poucas semanas da beatificação do cardeal Stefan Wyszynski e da Ir. Elzbieta Roza Czacka (12 de setembro). Muitas das atividades de oração e de memória foram concluídas. A cerimônia não ocorrerá na praça, como previsto inicialmente, mas na Igreja da Divina Providência, devido às normas sanitárias. A comissão organizadora convidou todos a ficarem em casa, acompanhando a cerimônia pelos canais de televisão, porque os lugares previstos já estão todos ocupados.

A ocasião, que em todo o caso representa um ponto alto na memória recente da Igreja e do país, terá um tom mais contido devido às dificuldades do âmbito eclesial e também político.

A Igreja está experimentando um declínio relevante em relação ao seu consenso, especialmente entre os jovens, devido aos abusos e à exposição política (sobre a lei do aborto).

Já o governo e a maioria têm feito da referência católica uma das pedras angulares da sua ação, pela significativa crise provocada pela saída do governo de um dos partidos da maioria (o Accordo), pela concessão ao (oportuno) pedido da União Europeia a respeito da Comissão Disciplinar (de nomeação política) sobre o judiciário e pela falta de sintonia com o governo de Biden, que contesta o fechamento injustificado de uma rede de televisão estadunidense na Polônia.

Soma-se a isso a polêmica com Israel em torno de uma lei que impede de fato a possibilidade de devolução dos bens aos descendentes das vítimas da Shoá. Trata-se de uma tensão já elevada devido à lei sobre a memória, segundo a qual qualquer envolvimento de poloneses e da Polônia no Holocausto constitui um crime.

 

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