Atravessando os difíceis dilemas da pandemia. Artigo de Raphael Colvara Pinto

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10 Dezembro 2020

"Uma visão mais ampla é fundamental, pois questões como terrorismo, biotecnologia e mudanças climáticas invocam altos riscos e exigem colaboração mútua para resolução de tais problemas. Por isso, é mister evitar o equívoco de olhar para trás como se tudo fora bom e necessário, satanizando toda e qualquer experiência atual", escreve Raphael Colvara Pinto, doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Vigário Paroquial de Saint Charles, na Arquidiocese de Boston.

Eis o artigo.

O ano de 2020 começou como um presságio de eventos calamitosos. Os incêndios florestais na Austrália e no Brasil, que mataram dezenas de animais, a iminente escassez de alimento no Quênia, causada pelos gafanhotos do deserto, e a disseminação do COVID 19 são alguns fatos que demonstram a complexidade de nosso tempo.

A lacuna entre os desempenhos dos governos, aliados à corrupção e aos sucessivos escândalos, tem gerado uma profunda insatisfação e descrédito sobre a crença de que tais gestores serão capazes de administrar a referida crise.

A ascensão de políticas xenófobas e autoritárias em diversos países revela o quão frágeis foram tais realizações, ressaltando profundas mudanças no cenário global como a recente crise humanitária imposta pela propagação do COVID 19, pressagiando um futuro sombrio, obscuro e desafiador. O crescimento lento e a crise na concepção de trabalho acirraram as tensões, contribuindo para posturas nacionalistas e refratárias. Como e por que posturas autoritárias tornaram-se tão atraentes atualmente?

Essa falta de resposta logo se transformou em ataques à população asiática, sobretudo nos Estados Unidos e na Europa. Infelizmente, o vírus expôs um contágio mais nocivo que estava adormecido em nossa sociedade: as fakes news, as teorias da conspiração e o racismo.

Tudo isso fala de uma crise global, onde os contextos históricos necessitam ser reconceituados, especialmente neste tempo em que muitos não conseguem olhar para além daquilo que está sendo veiculado nas manchetes diárias dos meios de comunicação. Devorados por esse medo difuso que se infiltra e penetra em todos os cenários e na totalidade da vida, nos tornamos órfãos buscando soluções individuais para problemas amplos e complexos.

A noção e privatização da esperança descreve o abandono generalizado de projetos coletivos por uma demanda crescente de busca pela felicidade individual. A ideia de que nenhuma alternativa é possível levou a articulação da esperança de um mundo melhor para uma vida melhor. Essa postura tem-se revelado como uma posição desertora e niilista.

As mobilizações autoritárias nos Estados Unidos, Brasil, Filipinas, Turquia e Polônia não estão baseadas em esperança, mas em um desespero marcado no cenário político reacionário, pela intransigência e mobilizações neofacistas. Há uma tarefa árdua, especialmente porque estamos diante de um futuro onde os prognósticos não parecem favoráveis.

Hoje, vive-se a nostalgia de um passado que é trazido à tona de forma descontextualizada. Vê-se jovens que nunca souberam o que fora a experiência do holocausto propor o nazismo e formas ditatoriais como caminho para aplacar a insegurança de um mundo que parece colapsar. O futuro para esses, assemelha-se a um passado idealizado. Contudo, um mundo interconectado exige uma perspectiva mais ampla. Para isso, faz-se necessário que se pergunte sobre quais questões e escolhas serão importantes para o presente e o futuro da humanidade. A reverência compreensível e até admirável pela tradição pode, no entanto, transformar-se em fixismo, quando essa se torna uma trincheira para defender interesses de determinados segmentos da sociedade. Talvez o que os grupos tradicionalistas não compreendem é que suas ideias reacionárias são tão utópicas quanto as que criticam de setores ditos progressistas.

Uma visão mais ampla é fundamental, pois questões como terrorismo, biotecnologia e mudanças climáticas invocam altos riscos e exigem colaboração mútua para resolução de tais problemas. Por isso, é mister evitar o equívoco de olhar para trás como se tudo fora bom e necessário, satanizando toda e qualquer experiência atual.

Observar esta dura realidade pode parecer assustador e certamente humilhante. Tais eventos se desenrolam de maneira complexa. As diferentes forças econômicas, políticas e culturais colidem de maneira vertiginosa. Hoje há uma suposição compartilhada de que vivenciamos uma transformação completa. Trata-se de um esforço em pensar os desafios que seguem, especialmente as consequências desse evento para a comunidade global. Diante desse quadro instável onde se vive entre o limiar de uma postura totalitária e o empoderamento da população de um lado, e de outro, entre o isolamento nacionalista e a solidariedade global, é urgente, mais do que nunca, repensar o mundo em que estamos inseridos. Com certeza, será uma tarefa árdua, que exigirá vários olhares para enxergar além da visão turva que essa realidade atual nos oferece.

Referências:

BAUMAN, Z. Globalização: as consequências humanas. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1999.
_________. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2001.
_________. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro. Editora Zahar, 2003.
GIDDENS, A. Modernidade e Identidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
PINTO, R. Habitando o cativeiro da incerteza: a Modernidade líquida de Bauman. Disponível aqui. Acessado em 30/11/2020.

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