Padre Júlio Lancellotti, Deus lhe pague!

Padre Júlio Lancellotti. | Foto: Instagram/Divulgação

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04 Dezembro 2020

"Tenho me esforçado a agradecer de verdade a vida, apesar de suas contradições. Pe. Júlio nem imagina que eu existo. Eu gostaria que ele soubesse que não está sozinho em sua missão de evangelizador incansável", escreve Ademir Guedes Azevedo, padre, missionário passionista e mestre em teologia fundamental pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma.

Eis o artigo. 

Eu aprendi que Deus não é uma ideia, mas algo prático. Tudo o que se passa no êxodo revela isso. Deus quer a libertação e o faz de modo prático, não com uma varinha de condão. Jesus também não é um agitador, mas um homem com atitudes concretas para com o próximo, o que lhe faz ser evoluído o máximo em humanidade e, só assim, viver em Deus. 

Eu me pergunto hoje qual seria, então, o estilo de vida mais concreto que acende faíscas deste testemunho que Jesus nos deixou. Nós somos tentados a buscar exemplos heróicos nos santos do passado, o que não deixa de ser algo válido. Porém, nesta pandemia busquei acompanhar, pela internet e pela oração, os passos do querido Pe. Júlio Lancellotti e é inegável que sua trajetória cristã e presbiteral nos inquieta muita. Sim, inquietude que nos desestabiliza dos nossos confortos eclesiásticos. Para mim que sou passionista, o amor concreto ao próximo é ainda um apelo mais exigente que Deus me faz. Porque a Paixão de Jesus só será remédio para os males se eu ousar dá-lo a quem está doente, não apenas anunciar. A propósito, anúncio não é o mesmo que boa notícia. Aquele é só de palavras, boa notícia, ao invés, se trata de gestos concretos, de relação corpo a corpo, como Jesus que passou fazendo o bem, tocando, abençoado, levantando quem estava caído, dialogando olho no olho, chorando com os que choravam... Boa notícia (Evangelho), portanto não é discurso é ação de amor

Vejo isso no modo de viver do Pe. Júlio. Em seus 71 anos de vida, cheio de cruzes, como ele mesmo diz, não lhe tem faltado aquela energia pneumática que o impulsiona todos os dias a estender a mão aos que sofrem. Sua ação de convivência com os descartados e de denúncia profética, a meu ver, tem se tornado um hino de louvor a Deus que santifica o seu nome no cotidiano de nossas vidas. Pe. Júlio não é um asceta isolado do mundo, ele escolheu encarar a realidade nos seus aspectos mais duros e gritantes. Como ele mesmo disse em entrevista recente: “Eu serei sempre minoria. Nesse sistema eu me sinto um fracassado. E estou muito feliz de ser um fracassado”. Mas este paradoxo revela o poder escandaloso da cruz de Cristo, pois aqueles que passam pela cruz são os que mais produzem frutos de vida e esperança para os que vivem nos porões da humanidade, lá onde só os que realmente amam, aceitam ir sem murmurações, mas com plena liberdade. 

A liturgia do primeiro domingo do advento deste ano de 2020 aborda a missão do porteiro de vigiar a casa. Sabemos que o porteiro seriam nossos bispos que velam pelo rebanho que lhes foi confiado e a casa é toda a Igreja. No entanto, como seria belo se cada um de nós vivêssemos para cuidar da casa comum, do pobre indefeso, dos nossos irmãos e irmãs vulneráveis e cravados na cruz dos mais diversos sofrimentos. Pe. Júlio tornou-se este porteiro da população do povo de rua. Eles não acrescentam em nada, são incômodo para os ricos que insistem numa vida de aparências e sem sentido. Esta missão de vigiar (de cuidar), tão urgente para nosso Brasil violento, que nos choca com atitudes de violência, estrangulando os negros e tirando o pão da boca do pobre, poderia ser o mais revolucionário grito de emancipação, onde os direitos humanos assumem um horizonte de sentido, ao lado de ações concretas em defesa da vida. Para mim, o Pe. Júlio tem sido este ícone onde encontro esperança por dias melhores. É incrível como a perseverança dele nesta missão tão árdua de amar o povo de rua, desaba os alicerces do pós-moderno que vive em constante transição e de momentos fragmentados. Perseverar é, realmente, um dom divino e requer cultivo e dedicação. “Quem tem um porquê, encara qualquer como”, dizia Nietsche

Para mim, a gratidão me faz bem. Torna-me mais leve com a vida e me liberta de meu egocentrismo. Por isso, tenho me esforçado a agradecer de verdade a vida, apesar de suas contradições. Pe. Júlio nem imagina que eu existo. Eu gostaria que ele soubesse que não está sozinho em sua missão de evangelizador incansável. Que jovens, adultos, idosos rezam por ele para que tenha muita saúde e muitos anos de vida ainda nesta missão de fazer o bem. Por isso, Pe. Júlio Deus lhe pague por tudo!

 

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