Hospitalidade eucarística, um sonho? Artigo de Ghislain Lafont

Foto: Pixabay

17 Outubro 2020

Todos concordamos em obedecer à Escritura: esta nos narra a Última Ceia de Jesus com os seus discípulos e o seu mandato de fazê-la novamente; e, por outro lado, ela atesta a obediência da primeira geração cristã a esse mandato.

 

Este artigo foi retirado do livro de Ghislain Lafont intitulado Piccolo saggio sul tempo di papa Francesco[Pequeno ensaio sobre o tempo do Papa Francisco] (Bolonha: EDB, 2017). A edição italiana foi editada por Francesco Strazzari.

 

O trecho aqui publicado diz respeito à terceira parte do livro, na qual o autor se detém em particular sobre a Reforma protestante (em 2017, celebrava-se o seu 500º aniversário) e a relação católico-protestante também em torno da intercomunhão.

 

Lafont é teólogo e monge beneditino francês, professor emérito de teologia da Pontifícia Universidade Gregoriana e do Pontifício Ateneu Santo Anselmo. O artigo foi publicado por Settimana News, 16-10-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

Depois do Concílio Vaticano II, com o decreto Unitatis redintegratio, depois dos inúmeros debates no Conselho Mundial de Igrejas (“Fé e Constituição”), depois do recente acordo sobre a justificação, só é possível almejar progressos hoje em vista de um reconhecimento recíproco cada vez maior.

Se uma participação da Igreja Católica, seja ela qual for, nas celebrações protestantes pode ajudar a fazer progressos ao longo desse caminho, ela não deve ser rejeitada, mas é preciso determinar com discernimento (palavra cara ao Papa Francisco) os seus modos e as suas formas.

 

Comungar juntos?

Um célebre Padre do deserto, Evágrio do Ponto, dava o seguinte conselho: “Se você tem uma dificuldade com um irmão, convide-o para comer”. Ao fazer isso, com efeito, dispomo-nos antecipadamente em uma atitude de perdão que facilita a reconciliação. Acima de tudo, a pessoa é tratada de modo honroso, é “reconhecida” porque é convidada; depois, oferecemos víveres a ela, e, então, pelo menos para essa refeição, damos vida a ela, dizemos a ela com o gesto que a sua vida é preciosa para nós.

Se o irmão aceita o convite, isso significa que ele considerou o encontro como uma etapa, embora pequena, da relação. Tal contexto ajudará a trocar palavras com alguma mansidão. Talvez nos demos conta de que não é indispensável concordar em tudo e de que podemos nos conceder reciprocamente divergências de opinião ou de conduta, permanecendo, mesmo assim, em comunhão.

Não há talvez nesse conselho da sabedoria dos Padres uma sugestão útil em vista da unidade das Igrejas neste momento?

A intercomunhão atualmente é concebida e aplicada como uma meta: comungaremos juntos quando chegarmos a um acordo sobre a expressão da fé, dos costumes, da instituição da Igreja e quando tivermos resolvido as contendas que pesam sobre a memória das Igrejas e sobre o seu presente.

Mas esse é o método certo? Há mais de 50 anos, o Patriarca Atenágoras e o Papa Paulo VI levantaram solenemente as excomunhões trazidas por Miguel Cerulário e pelo cardeal Umberto. Porém, ainda não comungamos na liturgia da outra Igreja, exceto em casos de urgência.

Espera-se que sejam formulados acordos, sob a autoridade do papa, por exemplo, ou que situações do passado, como a questão das Igrejas uniatas, sejam reguladas.

Podemos nos perguntar se o processo inverso não seria mais eficaz a médio ou longo prazo: acima de tudo, porque envolveria pessoas reais em comunidades concretas; depois, porque criaria um clima de comunhão capaz de favorecer diálogos e gestos de perdão que, de outra forma, seriam impossíveis se permanecermos nas próprias posições.

No entanto, esse tipo de abordagem (comunhão primeiro, discussões depois) é atualmente inviável com as Igrejas do Oriente. Ela pertencem a um mundo cultural diferente do nosso: os Padres gregos e os Padres latinos absolutamente não tinham a mesma mentalidade, o que se manifesta particularmente na diferença das liturgias.

As discussões cristológicas dos primeiros séculos eram principalmente gregas. Pelo contrário, as polêmicas sobre a eucaristia são latinas, desconhecidas dos gregos.

A própria identidade das Igrejas orientais é difícil de separar da história política na qual o Ocidente cristão aparece como culpado (o saque de Constantinopla em 1204, a falta de ajuda a Constantinopla contra o Islã em 1453, o processo de latinização ou catolicização por parte dos “latinos” nas terras do Oriente na história moderna...).

Porém, não é o mesmo no que diz respeito às comunidades que saíram da Reforma: elas pertencem ao mesmo mundo histórico e cultural das comunidades católicas que, essencialmente, é o europeu. As linguagens e as referências são as mesmas. As nossas discussões sobre a graça se desenvolvem sob a sombra tutelar de Agostinho; as questões relativas ao sacramento, à eucaristia, ao ministério nos mantêm em fermentação desde a alta Idade Média; o mundo político (com seus bastidores financeiros) era o mesmo: o imperador, o papa, os reis, os príncipes, os bispos e, enfim, o povo.

 

 

O grande evento que abriu a era contemporânea é comum a todos, mesmo que seja chamado de revoluçãofrancesa”. O ecumenismo nasceu acima de tudo entre denominações protestantes, mas no fim os católicos entraram nesse movimento: após terem se oposto violentamente no início, começaram a se perguntar como remediar as separações, e fez-se um bom caminho de reaproximação.

Por isso, eu me pergunto se a comemoração do quinto centenário da Reforma não deveria se centrar na pergunta: como comungar juntos em 2017?

E a resposta talvez se situe mais do lado católico do que do protestante. Do lado protestante, com efeito, o convite está feito. De repente, a questão muda: os católicos, com base nas evoluções do Vaticano II sobre a Igreja e a liturgia, não poderiam rever a sua dupla recusa, ou seja, convidar a Reforma para a mesa sagrada e responder ao convite da Reforma para a santa ceia?

E as comunidades protestantes não poderiam se interrogar sobre o que entre elas é um obstáculo para uma resposta positiva do lado católico para a sua abertura do debate? Mais uma vez, eu não acho que a resposta às questões requer um acordo completo; somente o mínimo indispensável para uma comunhão litúrgica autêntica.

Qual seria esse mínimo? Todos concordamos em obedecer à Escritura: esta nos narra a Última Ceia de Jesus com os seus discípulos e o seu mandato de fazê-la novamente (Mc 14,22-25 e paralelos); e, por outro lado, ela atesta a obediência da primeira geração cristã a esse mandato (1Cor 10,16-17 e 11,17-34).

Parece haver também um acordo sobre uma certa instituição mediante uma oração invocando o Espírito sobre quem preside o culto.

Por isso, celebrando desse modo, nós nos colocamos juntos nos passos de Jesus e, sobretudo, ele se coloca nos nossos. Nós nos comprometemos a perseverar na oração, no diálogo teológico e na obra comum pela paz e a justiça – algo que fazemos com frutos há mais de 50 anos.

Por fim, se poderia pensar em uma reconciliação recíproca dos ministérios, cujos termos e gestos resultariam de uma experiência comum de eucaristia compartilhada.

 

 

Pluralidade nas realizações

A implementação de uma reforma deve ocorrer ao mesmo tempo e em toda a parte na Igreja? Não tenho certeza. De fato, ao abordar a questão, as coisas podem ser mais avançadas e mais maduras em uma Igreja particular ou em um grupo de Igrejas e menos em outros lugares. A necessidade de reforma para uma ou outra instituição pode ser sentida fortemente em um lugar e menos em outros. Em uma perspectiva de sinodalidade, nem tudo talvez deva ser proposto para uma discussão sinodal universal, mas sim regional ou local.

Na Igreja Católica, estamos acostumados ao fato de que toda decisão é tomada de cima e é válida por toda a parte. Em alguns casos, isso é necessário; em outros, menos. Às vezes, a universalidade pode ter um efeito dissuasivo.

Depois do Concílio Vaticano II, foi feito um verdadeiro esforço para permitir uma certa diversidade. Penso na reforma dos institutos religiosos prevista após o Concílio no decreto Ecclesiae sanctae. O processo seguia antecipadamente o princípio da pirâmide invertida: previam-se grandes consultas aos próprios religiosos dentro do seu instituto, que serviam de base, depois, para as discussões nos capítulos gerais. Estavam previstos períodos de experimentação, e só ao cabo de vários anos é que as Constituições teriam força de lei, devendo a Santa Sé dar a aprovação final. Foi isso que aconteceu nos anos 1970.

Tal trabalho feito com consciência e mesura nos institutos permitiu que a vida religiosa renovasse o seu impacto na missão cristã, mesmo que circunstâncias externas ao Concílio tenham provocado uma diminuição sensível nos números. O método, entretanto, permaneceu o mesmo para uma atualização nunca concluída.

Sendo assim, pergunto-me se a questão do “comungar juntos” deve ter uma única resposta e se não pode ser resolvida primeiro no nível de uma sinodalidade local. Como eu dizia, nunca se alcançarão acordos doutrinais definitivos. Sequer chegamos a isso dentro de uma mesma Igreja, na qual coexistem teologias diversas e, no fundo, pouco conciliáveis.

Não se poderia então considerar que, com uma Igreja particular pertencente a uma denominação protestante específica, se possa considerar como desejável o acesso à comunhão?

Eu citei antes o livroDiscerner le corps du Christ [Discernir o corpo de Cristo]; pergunto-me sinceramente se o passo a dar neste momento, em uma situação particular como a francesa, não é precisamente a intercomunhão. Nós nos daríamos o tempo para praticá-la e para ver de que modo a “prática” ajuda a fazer convergir a “doutrina”, a melhorar a teoria e a implementação das instituições, de ambas as partes, aceitando uma diversidade que não é inelutável, mas benéfica entre as tradições, que se desenvolveram durante séculos em uma ignorância recíproca.

A intercomunhão ainda não seria a meta, mas sim um passo à frente rumo a uma plena reconciliação. Além disso, o exemplo de uma Igreja particular poderia estimular outras Igrejas a dar outros passos.

 

 

Concluo estas minhas sugestões insistindo ainda em dois pontos: estou convencido de que, quando se reza a Deus em um espírito de caridade recíproca para obter dele, por meio de gestos e ritos, o perdão dos pecados ou o corpo e o sangue do seu Filho, Deus ouve a oração, e eu acredito que, por meio dessa graça, as aproximações doutrinais chegarão pouco a pouco.

Além disso, creio que o que importa é redescobrir a diversidade dos dons do Espírito no coração de cada instituição eclesial, aqueles carismas que o sacramento confirma, consagra, institui – conservando a memória dos textos paulinos, que certamente recomendam uma ordem nos carismas, mas não uma “hierarquia”.

Acrescento um terceiro ponto: a questão da unidade das Igrejas não é, em última análise, uma questão intelectual. Os diálogos ecumênicos podem se aprofundar infinitamente, mas a comunhão das Igrejas passa pela celebração comum dos mistérios: nisso, assim como em todos os casos em que o corpo está envolvido, chega-se a um ponto sem retorno, passa-se para o “ato”.

Quando fala de ecumenismo ou do encontro das religiões, o Papa Francisco insiste naquilo que pode ser feito juntos, isto é, rezar e agir pelas necessidades do mundo. O ecumenismo, sem dúvida, pode prosseguir com a oração e/ou a ação humana comum, mas não é necessário que ele alcance aquela ação comum que tudo recapitula, ou seja, a obediência ao mandato do Senhor que nos deixou o seu corpo e o seu sangue?

 

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