Oxfam: os pobres do mundo sofrem com as emissões de carbono geradas pelos ricos

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14 Outubro 2020

Os pobres e marginalizados do mundo são os que mais sofrem os impactos das mudanças climáticas, embora sejam os que menos contribuem para as emissões de carbono que têm levado ao aquecimento global. É o que mostra um estudo recente publicado pela Oxfam.

A reportagem é de Joseph Opoku Gakpo, publicada por National Catholic Reporter, 12-10-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Os 3,1 bilhões de pessoas que formam os 50% da população mais pobre do mundo geram somente 7% das emissões cumulativas que prejudicam o planeta, segundo pesquisa da Oxfam. Enquanto isso, 63 milhões de pessoas que formam o 1% dos mais ricos do mundo geram mais do que o dobro daquela quantia, ou 15% do total.

“Nos últimos vinte ou 30 anos, alimentamos uma crise climática e desperdiçamos o nosso orçamento mundial limitado de carbono no serviço de aumentar o consumo dos que já são ricos, ao invés de aliviar os que vivem na pobreza”, observa o relatório publicado em conjunto pelo Instituto Ambiental de Estocolmo.

“Os dois grupos que mais sofrem dessa injustiça são os menos responsáveis pela crise climática: os mais pobres e marginalizados que já convivem com os impactos climáticos atualmente, e as futuras gerações que herdarão um orçamento esgotado de carbono, além de um mundo que acelera na direção de um colapso climático”, lê-se no texto.

Ao comentar o relatório, Ban Ki-moon, ex-secretário-geral das Nações Unidas, observou que “para combatermos a mudança climática, devemos lutar por justiça social e econômica para todos. Há tempos, os povos indígenas arcam com as consequências da destruição ambiental, e agora chegou a vez de ouvirmos, integrarmos os nossos conhecimentos e priorizar a salvação da natureza para que salvemos a nós mesmos”.

Os dados do relatório mostram que as emissões feitas pela África subsaariana equivalem a menos de 1% do total. No entanto, o continente africano já tem arcado com as consequências negativas dos impactos advindos das mudanças climáticas. É o que afirma Sulemana Issifu, diretor de pesquisa do Centro para a Mudança Climática e Segurança Alimentar para o continente.

“As mudanças climáticas ameaçam a própria existência da humanidade”, disse Issifu. “Embora a industrialização na África seja bastante pequena, alguns modelos mostram que, se elas se tornarem severas, o continente poderá sofrer a maior parte das casualidades”.

A agricultura africana já está sendo afetada de modo adverso com chuvas fortes que resultam em alagamentos, bem como com secas – coisas que podem ser consequências das mudanças climáticas. Essas mudanças contribuem ainda para a disseminação de pestes em lavouras, acrescentou Issifu.

“Faço um apelo aos países desenvolvidos e industrializados para que façam a frente na luta contra as mudanças climáticas. Caso contrário, a África, a América do Sul e a Ásia serão as regiões mais atingidas. Então, o que podemos fazer é apelar a vocês”, completou.

Entre 1990 e 2015, os 5% mais ricos (cerca de 315 milhões de pessoas) equivaliam a mais de um terço (37%) do crescimento total das emissões de gás carbônico, informa o relatório. Os 10% mais ricos (cerca de 630 milhões de pessoas) equivaliam a 46% do crescimento total das emissões, pouco menos do que os 49% contribuídos pelos 40% da classe média.

Os 50% mais pobres quase nada aumentaram nos números relativos às emissões de carbono. O aumento total pelo 1% dos mais ricos foi três vezes maior do que o aumento total havido nas emissões feitas pela metade mais pobre da população.

Os 10% mais ricos correspondem a um terço das emissões de carbono que, segundo estimam os cientistas, causarão o aumento de 1,5 grau Celsius, desencadeando mudanças climáticas catastróficas irreversíveis se não controladas, enquanto a metade mais pobre da humanidade emite apenas 4%.

O relatório, intitulado “Confronting Carbon Inequality” (Confrontando a desigualdade do carbono), traz uma série de recomendações para o combate da atual situação. Elas incluem:

• Definir objetivos com base na ciência e na igualdade para reduzir as emissões de carbono a partir do consumo, bem como da produção.

• Incorporar princípios do diálogo social em todos os níveis para garantir que as vozes dos trabalhadores e setores afetados, mulheres e grupos de baixa renda e marginalizados sejam ouvidas na construção de transições justas para uma economia que mantenha o aquecimento global abaixo do 1,5 grau Celsius e para uma sociedade que permita que todos os cidadãos prosperem;

• Impor medidas punitivas contra os ricos no papel que desempenham em poluir o ambiente, com as receitas sendo revertidas em infraestrutura pública que beneficie as massas.

Os governos devem “reduzir as emissões dos ricos através de impostos e proibições de carbono de luxo, tais como os SUVs e os voos frequentes de jatos privados”, lê-se no texto. “Por outro lado, o investimento público, como a melhoria da eficiência energética para a habitação, é mais adequado para se melhorar a pegada ecológica associada com o aquecimento central de residências, evitando impactos regressivos sobre agregados familiares de renda mais baixa”.

Issufu propõe uma mudança de comportamento não só entre os ricos, mas também entre os pobres.

“O comportamento consumista do ser humano é o principal acelerador das mudanças climáticas”, disse ele. “É verdade que o estilo de vida dos ricos é o principal acelerador. Mas os pobres também têm um papel a desempenhar (...) Por exemplo, em Gana o governo está impondo uma proibição às importações de carros com mais de dez anos, e o povo tem protestado contra a ideia. O governo quer proibir o uso de embalagens plásticas e os pobres têm protestado contra também. Portanto, se começarmos assim, não chegaremos a lugar algum. Então, eu diria que o comportamento do ser humano em geral precisa mudar”.

Em setembro, o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa, em discurso feito à 75ª Assembleia Geral das Nações Unidas, convidou a comunidade internacional para que atue no sentido de conter os impactos da mudança climática.

“Não temos escolha senão trabalharmos juntos no combate às mudanças climáticas”, disse ele. Ao mesmo tempo que nos recuperamos da pandemia de covid-19, temos também a oportunidade de pôr a economia mundial num caminho de baixas emissões de carbono, num caminho de desenvolvimento resiliente. Devemos fazer valer os princípios das economias verdes e circulares, não só para o bem da sustentabilidade ambiental, mas também pelas oportunidades de criação de empregos e crescimento econômico. O esforço de recuperação global deve pôr em seu centro a adaptação às mudanças climáticas, a mitigação e o apoio”.

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