“E o Senhor me deu irmãos...” (T 14) – da indiferença à fraternidade

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10 Outubro 2020

"Reconhecer que a pandemia gerou e continua gerando dificuldades planetárias em todos os níveis, deixando a grande maioria da população mundial, sobretudo os mais pobres em situação de indigência é um imperativo, mas por outro lado afirmar que alguns poucos multiplicaram suas fortunas neste período é um dever ético e moral", escreve Emanuel Afonso da Silva, franciscano conventual, mestrando em teologia fundamental na Universidade Gregoriana em Roma.

Eis o artigo.

A chamada pós-modernidade levou ao último grito, talvez às ultimas consequências todo o prejuízo que foi sendo herdado das promessas não cumpridas pela modernidade, que querendo emancipar-se dos excessos da religião, acabou por cometer seus próprios abusos. E como na história nada é desconexo, aquilo que representou o ideal de progresso, emancipação do homem para pensar e ser protagonista do próprio destino, a partir da busca de uma humanidade melhor e consequentemente mais iluminada, neste caso não mais através dos influxos da crença religiosa, mas por meio da ciência foi processualmente fracassando.

Com isso, se assiste quase que de modo palpável, a degradação do ser humano pelo próprio ser humano, que erigiu agora não mais o progresso norteado pela ética, mas pelo capital selvagem que faz da mulher e do homem do nosso tempo reféns de si, criando para eles slogans e falsas necessidades, fazendo-os acreditarem que estão buscando o próprio bem originariamente, quando na verdade o fazem movidos ou sugestionados por aquilo que se transformou em ideologia, quase que uma religião ou um deus a ser adorado, como nos tem lembrado insistentemente o Papa Francisco.

Assim, temos um ser humano marcado pelo individualismo, vivendo quase como que “mortos vivos” e considerando-se livres, senhores de si e do mundo, um egoísmo estrutural, que exclui uns em detrimento de outros, e os mais vulneráveis são aqueles que de fato irão pagar o preço de toda essa estrutura, transformados em “vitimas” para o sacrifício ao deus dinheiro. Este deus para manter o status quo funcionando, passa como rolo compressor por cima de todos e de quem ousa ser uma voz dissonante, passa a perseguir até mesmo criando narrativas que operam para desqualificar de forma vil o outro, exatamente por ser e agir como de fato somos todos: diferentes – não INDIFERENTES.

Esse individualismo multifacetário gera a tão famigerada cultura do descarte, que Papa Francisco não cansa de nos recordar; e tal cultura é fruto dessa indiferença que tomou conta do ser humano de nossa época, fazendo com que muitas vezes esse mesmo ser humano não seja capaz nem sequer de reconhecer no outro humano um humano como ele, de modo a gerar uma “neo-barbárie”, onde o outro é alguém a ser sumariamente eliminado.

Neste espaço complexo em que estamos inseridos, inclusive muitas vezes não vislumbrando um horizonte promissor, a religião ou elas em conjunto, não tem outra alternativa senão aquela de se opor a este ciclo vicioso, que parece não ter fim e nem limites. Caso queiram ser significativas enquanto proposta no espaço público, as religiões deverão posicionar-se, e neste caso assumindo o papel de fazer vencer dentro e fora de seus limites confessionais as tentações de subsistirem como entidades acomodadas e afeitas ao status quo do dinheiro e da cultura de morte.

É esse tipo de modelo que segrega, marginaliza e mata como consequência de uma ideologia, que provoca uma indiferença generalizada ao desumanizar nossa humanidade, relegando-a a barbárie, que Papa Francisco com a nova encíclica “Fratelli tutti” (Ad 6) ainda a ser lançada, visa certamente denunciar.

A expressão “todos irmãos” da Admoestação sexta dos Escritos de São Francisco de Assis, nos faz refletir que esta inspiração originária pode ser um meio e um antídoto, à luz do Evangelho, neste tempo difícil de pandemia e pós-pandemia, para despertar a nossa consciência de que somos todos irmãos, habitamos o mesmo planeta, dividimos o mesmo espaço da Casa comum, e nos fazer passar da indiferença à fraternidade.

Não é preciso ir muito longe para percebermos que a indiferença generalizada que tomou conta de pessoas e até de instituições, revelando na prática aquilo que está definido nos dicionários. Assistimos quase que anestesiados a um estado de insensibilidade, de apatia em relação a tudo e a todos, e tudo isso depõe contra a fraternidade, realidade tão cara ao Pobrezinho de Assis.

Por isso, em Francisco de Assis nunca é demasiado recordar esta grande verdade: SOMOS TODOS IRMÃOS! Não é atoa que rezamos todos os dias – “Pai nosso que estás nos céus...” (Mt 6, 9ss), e se dizemos que Deus é Pai nosso, consequentemente estamos afirmando sua paternidade universal, bem como a nossa fraternidade universal, porque não tem sentindo afirmar a paternidade de Deus reservada apenas a alguns. Assim, se em Jesus foi “(...) derrubado o muro de separação e suprimido em sua carne a inimizade” (Ef 2, 14ss), significa que “somos família de Deus” (cf. Ef 2, 19), irmãos de Jesus e irmãos entre nós.

Neste sentido, o irmão para Francisco não é um peso, mesmo aquele irmão mais difícil, aquele que precisa de admoestação e correção. Para ele o irmão é graça e tarefa, lugar teológico do encontro e da teofania, na busca comum de “(...) possuir o Espírito do Senhor e seu santo modo de operar” (RB 10). Em Francisco o irmão é dom, “(...) e o Senhor me deu irmãos” (T 14). O mais curioso é que no mesmo capítulo sexto da Regra Bulada, sobre a correção do frade, Francisco repete a palavra “irmão” sete vezes, indicando que se a Regula vitae da Ordem é observar o Evangelho, a vida em fraternidade, reconhecendo-se como tal é a característica que a todos identifica.

Se Francisco de Assis não idealiza seus irmãos, o outro Francisco, neste caso o papa, também não o faz. Sabemos que é um desafio processual habitar e integrar a diferença do outro, e ao mesmo tempo fazer da nossa singularidade um lugar de encontro capaz gerar a harmonização das diferenças, inclusive aquelas mais difíceis, no único escopo de fazer prevalecer a fraternidade. Portanto, reconhecer o outro como irmão, somente o faz quem está no toque fontal da inspiração do Mistério. E neste sentido, as religiões têm papel fundamental na retomada do pós-pandemia, mas não apenas enquanto fenômeno para e em si mesmas em seus campos de atuação, mas enquanto instituições que atuam no espaço público em vista do bem comum. Neste momento cabe a todos a busca comum de encontrar soluções comuns, partindo do pressuposto fundamental de que somos irmãos e assim nos reconhecemos.

Reconhecer que a pandemia gerou e continua gerando dificuldades planetárias em todos os níveis, deixando a grande maioria da população mundial, sobretudo os mais pobres em situação de indigência é um imperativo, mas por outro lado afirmar que alguns poucos multiplicaram suas fortunas neste período é um dever ético e moral; porque para a maioria, a pandemia aumentou a cruz a ser carregada, para uns poucos trouxe mais riqueza, porém diante da doença ninguém está a salvo, conforme afirma o papa: “a tempestade desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades” (Discurso 27/03/20).

Chegou, portanto, o momento e é agora, de que não basta apenas diagnosticar os problemas e fazer planos miraculosos, como se apenas isso bastasse, mas de tomar consciência do nosso comum destino que nestes últimos tempos vieram à tona com veemência.

No momento de colocar em prática os planos, que devem ter como prioridade os mais vulneráveis, inclusive porque é dever de justiça, não esquecer de que “com a tempestade, caiu a maquiagem dos estereótipos com que mascaramos o nosso ‘eu’ sempre preocupado com a própria imagem; e ficou em evidência, mais uma vez, aquela (abençoada) pertença comum a que não podemos nos subtrair: a pertença como irmãos” (Discurso 27/03/20). A fraternidade nos subtrai da indiferença e exige de nós mais empenho e empatia.

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