Pantanal em chamas: qual o alvo?

Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

02 Outubro 2020

"Mapa não deixa dúvidas: queimadas, que já destruíram 25% do bioma este ano, atingiram em cheio territórios indígenas, parques e reservas ambientais. E a análise temporal demonstra que os focos surgiram fora destas áreas", escreve Igor Venceslau, geógrafo e doutorando em Geografia Humana na USP, em artigo publicado por Outras Palavras, 30-09-2020.

Eis o artigo.

O Pantanal dispensa apresentações. Não apenas por ser a maior planície inundável do planeta e Patrimônio Natural da Humanidade, mas como o bioma do encontro entre Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica e Chaco. Um mosaico produto da biodiversidade brasileira e sul-americana.

Não se trata mais de ameaça, mas de um avançado processo de devastação. O mapa revela que as queimadas em 2020 avançaram principalmente onde se localizam terras indígenas e unidades de conservação. Não obstante, a partir da análise temporal foi possível constatar que os focos surgiram fora dessas áreas.

(Mapa: Bruno Mioto/Fonte: LASA-UFRJ)

Os dados que permitiram ao biólogo Bruno Mioto elaborar este mapa são do LASALaboratório de Aplicações de Satélites Ambientais, que desenvolveu o sistema ALARMES (Alerta de Área Queimada com Monitoramento Estimado por Satélite), inédito do Brasil, possibilitando quase em tempo real a detecção da localização, extensão e data de ocorrência das áreas afetadas com uso de imagens de satélite validadas por trabalho de campo georreferenciado. O LASA pertence à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), instituição pública que está completando um século de serviços prestados à ciência e à inovação brasileira, mesmo atravessando um período de cortes desastrosos no financiamento das pesquisas.

O último relatório divulgado pelo LASA/UFRJ1, apresentado em 29/09, compila a magnitude do desastre. Entre as terras indígenas afetadas, a Perigara, no Mato Grosso, teve 93,9% da área queimada, enquanto na Tereza Cristina, a 90km de Rondonópolis, 89,2% estão comprometidas. A Baía dos Guató (MT) está igualmente com mais de 80% do território queimado. No Mato Grosso do Sul, povos originários também estão gravemente afetados, como ocorre na terra indígena Kadiwéu (destacada no mapa), onde a perda em área absoluta foi a maior até agora, em torno de 2 mil km².

As queimadas estão avançando com muita rapidez. Quando você estiver lendo este texto, a realidade provavelmente já será pior do que as informações apresentadas. Quando o mapa foi elaborado com dados de janeiro a 16 de setembro, 19% do Pantanal já tinha sido queimado em 2020, mas os dados atualizados do último relatório revelaram que esse percentual subiu para 23% em apenas duas semanas.

Nas unidades de conservação a situação é igualmente aterrorizante. Em Mato Grosso, o Parque Estadual Encontro das Águas já teve 84,5% de sua área queimada, percentual equivalente ao que foi afetado no SESC Pantanal, no estado vizinho. E assim poderíamos listar mais de vinte áreas protegidas, como o próprio Parque Nacional do Pantanal Matogrossense, que acumula destruição de 28,6 mil hectares. São áreas de proteção ambiental, parques, reservas particulares do patrimônio natural, estações ecológicas e tudo mais construído por décadas de ativismo e políticas ambientais.

Aqui cabe o reconhecimento do trabalho incessante de brigadistas e pantaneiros. Mas e o governo, com as instituições, agências e militares? O único eco que ecoa é o de economia, porque ecologia não cabe mais na Esplanada dos Ministérios. E pior: é a economia da morte, cega pelos lucros das empresas num mercado de especulação e exploração sem limites. Uma outra economia – da vida – em alternativa, não tem mais lugar para esse pensamento tão retrógrado quanto destrutivo, apenas preocupado com as cotações das commodities em Chicago. É a inestimável queima de ¼ do Pantanal: da fauna e flora; das nascentes dos rios; dos territórios das populações tradicionais; das atividades econômicas locais; da pesca; do ecoturismo. O que está em chamas e se convertendo em cinzas é a vida em todas as suas inseparáveis dimensões – biológica, ambiental, territorial, cultural, econômica, política e social.

São as “coincidências” de todos os recordes de crimes ambientais que o Brasil vem superando desde 2019. Primeiro as queimadas sem controle na Amazônia, depois o derramamento de óleo nas praias do Nordeste, e agora a devastação chega ao Pantanal. A apocalíptica cena da destruição do mundo em fogo. E continua na região amazônica, enquanto avança rapidamente na planície pantaneira, sem que o crime ambiental do litoral tenha sido solucionado. E, na epopeia das boiadas, acaba de ser permitida a ocupação e exploração de restingas e manguezais. O Brasil de 2020 abre a Assembleia Geral da ONU com o mesmo cinismo com que fecha os olhos para a proteção ambiental, lançando menos de uma semana depois um programa de mineração em terras indígenas. O projeto neoliberal nos expulsa de nosso próprio território. A ameaça nunca foi “natural”.

 

Leia mais