Vaticano, China e Hong Kong: o que Francisco (não) quis dizer

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08 Julho 2020

Os repórteres que cobrem o Vaticano encontram-se em uma situação frustrante agora, porque recebemos informações que não podemos publicar na íntegra – em parte porque estamos vinculados à ética jornalística e em parte porque nós mesmos não sabemos o que aconteceu.

O comentário é de John L. Allen Jr., publicado em Crux, 06-07-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Esse vácuo não impediu que os “enchedores de linguiça” ideológicos da luta entre esquerda e direita entrassem em ação mesmo assim, correndo o risco de tornar menos provável que se chegue à história completa.

Eu sei que isso soa terrivelmente enigmático, então deixe-me tentar explicar.

No domingo, o Papa Francisco estava pronto para proferir seu habitual discurso do Ângelus ao meio-dia, que geralmente apresenta alguns breves comentários sobre a situação internacional.

Como sempre, o Vaticano circulou um rascunho do discurso com antecedência, para ajudar os repórteres a se prepararem, que vem com um embargo estrito: não podemos fazer referência a seus conteúdos antes de ele ser proferido, e apenas aquilo que o papa realmente diz é considerado oficial. Portanto, tudo o que ele pula é considerado como se nunca tivesse existido.

Normalmente, os papas não se desviam muito do texto preparado: às vezes inserem uma ou duas palavras aqui ou ali, pulam uma linha aleatória por um motivo ou outro, e assim por diante.

No entanto, agora é uma questão de registro público que, nesse domingo, o Papa Francisco omitiu um pedaço considerável de texto sobre Hong Kong.

Não posso relatar o conteúdo do texto, porque devo honrar as condições sob as quais recebi as informações. No entanto, posso relatar que vários sites de notícias italianos publicaram o texto ou comentaram por que ele foi omitido, e certamente não há nenhum embargo ao seu conteúdo.

Em suma, comentaristas e agências de notícias conhecidas por serem críticas ao Papa Francisco estão comparando a omissão ao mais recente capítulo daquilo que eles consideram como o apaziguamento entre o Vaticano e a China e a sua liderança comunista, geralmente vinculando-o a um acordo assinado há dois anos e que em breve deverá ser revisado, que deu às autoridades chinesas um papel na nomeação dos bispos católicos.

Especialistas e mídias conhecidos por apoiar Francisco, por outro lado, estão defendendo a decisão de pular o texto como um sinal do compromisso do papa com o diálogo e também como um sinal de seus hábeis instintos diplomáticos e geopolíticos.

Aqui está uma amostra do que está sendo dito.

Marco Tosatti, um veterano vaticanista, geralmente considerado como alguém do lado conservador, fez a provocativa pergunta: “Quais são as alavancas que Pequim dispõe para amordaçar o papa?"

“Este episódio lança uma luz ainda pior – se possível – sobre o famoso acordo secreto assinado entre Pequim e a Santa Sé, cujas consequências estão se fazendo sentir pesadamente sobre a vida de muitos católicos na China, apesar da propaganda dos meios de comunicação vaticanos”, disse Tosatti. “É um acordo que corre o risco de constituir um dos mais clamorosos erros da diplomacia vaticana e do pontífice que o quis e endossou, ao contrário dos seus antecessores.”

Na mesma linha, Riccardo Cascioli, outra voz conservadora, insistiu que o episódio “atesta uma submissão da Santa Sé em relação ao governo chinês e ao Partido Comunista”.

“É mais uma prova de que o acordo secreto entre China e Santa Sé sobre as nomeações episcopais, cuja renovação deverá ser discutida em breve, foi abundantemente reduzido a um instrumento de controle do Partido Comunista sobre a Igreja Católica, uma verdadeira mordaça para a Igreja”, disse Cascioli.

Do outro lado do espectro, Riccardo Cristiano, jornalista vaticano de longa data que geralmente apoia Francisco, detectou um estratégico golpe de mestre.

“Pode-se excluir que o texto não pronunciado se deveu a pressões chinesas. Em um lapso de tempo tão breve – o texto à imprensa foi divulgado menos de uma hora antes do discurso – é uma hipótese que não parece se sustentar à evidência”, escreveu ele.

“Dada a delicadeza mundial do problema e a clara preocupação de tutelar o diálogo e de não fechar as frestas existentes, pode-se levantar a hipótese de que se quis dar a entender qual é o pensamento de Roma, mas sem externá-lo oficialmente”, afirmou.

Cristiano claramente achou que o papa mostrou bom senso.

“É mais um esforço para manter de pé uma perspectiva que ajude a população de Hong Kong e todos os chineses, em vez de usar os problemas como uma chave de conflito contra um regime que está agindo com um poder que ninguém em Hong Kong pode desafiar”, afirmou Cristiano.

A agência de notícias Faro di Roma, fundada e liderada pelo antigo repórter vaticano Salvatore Izzo, também saiu em defesa do papa.

“Neste momento, há um esforço para atacar o Papa Francisco por não achar que é um bom momento para criticar Pequim”, afirmou o jornal em um editorial não assinado. “A técnica é sempre a mesma – basta repetir a mesma bobagem, dia após dia, para que ela seja acreditada pelos ingênuos.”

Em outras palavras, não demorou muito para que o caso se tornasse outro ponto de discussão no fogo cruzado político de sempre.

No entanto, além da repercussão, ainda existem os fatos, e aqui estão três sobre essa situação:

- a China importa, e o Vaticano também. Como esses dois tipos muito diferentes de poderes navegam em sua relação , portanto, também importa;

- diante isso, a decisão de não comentar sobre Hong Kong no domingo é de legítimo interesse jornalístico;

- não sabemos por que isso aconteceu. Pode ter sido frivolidade, pode ter sido parte de uma estratégia mais ampla, pode ter nascido de motivos realmente convincentes, pode ter sido simplesmente o resultado de falha de comunicação interna, e pode ter sido algo totalmente diferente. Enquanto as autoridades não dão uma explicação, ficamos com as adivinhações, que geralmente refletem os preconceitos pessoais do adivinho.

Por si só, fazer a pergunta óbvia – “Por que o papa não disse aquilo?” – não significa tomar uma posição nos debates mais amplos sobre a China, ou sobre a liderança de Francisco, ou sobre qualquer outra coisa. Nos próximos dias, espera-se que os repórteres não sejam desencorajados a realizar seus trabalhos por causa de uma ansiedade lamentavelmente compreensível de que, por mais que se esforcem, alguém sempre verá isso como um exercício partidário.

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