Como enfrentar o lobo. A vocação de um padre gay

"Fim do ódio e da violência". Foto: Mark Cristino | CNS Photo

13 Junho 2020

"Quando leio as palavras de Jesus sobre o Bom Pastor, sei que a tarefa para a qual fui chamado, o lobo do qual, como mercenário, estou mais tentado a fugir, é a violência mortal e o ódio que partem dos dentes dos veementemente gentios em todas as culturas – violência desencadeada sempre que há a sugestão de que, talvez, os LGBTs sejam indivíduos amados assim como nós e que o nosso florescimento toma o caminho da aprendizagem para humanizar o nosso amor a partir de onde estamos. É claro que um dos lugares onde esse ódio e essa violência têm uma embaixada favorita na terra é o armário clerical católico", escreve James Alison, padre, teólogo e escritor, sua pesquisa principal foi repensar o cristianismo básico segundo o pensamento de René Girard. O artigo é publicado por Commonweal, 10-06-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

 

Me convidaram para refletir sobre o que significa ser um padre abertamente gay. Por assim dizer, me convidaram para dar o meu testemunho – especialmente nesta paróquia, que oferece espaços para o discernimento daquilo que é apropriado, e mesmo urgente, na vida da Igreja.

Para mim, é difícil explicar estas coisas. Eu estaria dando, no entanto, um testemunho falso se não dissesse que o histórico da minha vida inteira foi um histórico de mentiras – e o formato da minha vida adulta é uma busca mais ou menos desesperada de descortinar a verdade em meio a tantas mentiras.


Padre James Alison. Foto: New Ways Ministry

Quando criança, meus pais me ensinaram a importância absoluta de Jesus e do amor; e, segundo o mundo evangélico protestante politicamente conservador em que fui criado, a minha “homossexualidade” era diametralmente oposta a tais valores. Quando, em 1969, aos nove anos de idade, soube o que era uma “bicha” e soube que eu próprio era uma, fiquei espantado ao aprender que havia uma palavra para pessoas como eu, por mais feia que fosse, ao mesmo tempo me vi perdido e abandonado em um mundo no qual eu nunca seria aceito. Não pude conhecer a orientação e a compaixão dos adultos em minha vida – apenas rigidez e rejeição.

Só décadas mais tarde aprendi o contexto familiar do mundo em que aquele garoto de nove anos se sentia à sua maneira: que o lorde Montagu de Beaulieu, um dos protagonistas e heróis involuntários da campanha de legalização da homossexualidade na Inglaterra, fora amigo de longa data de meu pai, tendo ambos estudado na mesma escola durante a infância (isso se confirmou quando Montagu apresentou-se a mim, deliberadamente e com muito calor humano, no funeral de meu pai); que minha amada tia fora amante de Roy Jenkins, secretário do Interior que havia militado pela legalização da homossexualidade em 1967 contra o voto do próprio irmão (meu pai) no Parlamento; e que talvez parte da rigidez da ideologia evangélica de meu pai resultava de ter sido ele abusado sexualmente pelo chefe da casa [Nota da Tradução: responsável pela supervisão e atendimento de estudantes que residem em colégios internos públicos ingleses] em Eton, no início da década de 1940 – memória que ele resgatou casualmente uma única vez poucas semanas antes de morrer.

 

No entanto, a criança que eu era na década de 1960 não sabia nada disso além de que os meus irmãos e eu fomos alistados, na campanha dos nossos pais, contra a perigosa pauta anticristã da década de 1960 – e contra aquela outra pauta em que eu, sem querer, era o inimigo interno. Daqui em diante, eu soube que teria de esconder essa realidade a meu respeito, para não prejudicar os outros com o mal dos meus desejos. Também descobri que a melhor coisa que poderia fazer, sabendo que estaria para sempre privado de recompensa ou aprovação, era ser tão bom, em todas as formas possíveis, quanto aquele alguém que eu jamais poderia ser, embora sabendo que teria de me tornar essa pessoa a partir nada, sem apoio ou companhia de ninguém. Em poucas palavras: aprendi que eu deveria ser, em todos os aspectos externos, o melhor seguidor de Jesus possível, apesar de Jesus não me querer. E isso me tornei, nos dez anos seguintes: o fariseu perfeito!

Com uma velocidade incrível, aprendi a imitar as respostas “normais” daqueles que tinham sentimentos e vidas reais, ao mesmo tempo que sabia que eu não tinha direito a nada e que não podia contar com um “eu” a quem me agarrar, pois este “eu” me era negado. Assim, embora soubesse que, no final, a minha conquista seria um constructo artificial e falso, eu teria pelo menos limitado o dano que o amor de uma pessoa tão má poderia assim causar aos que se encontram ao redor. Já nessa idade percebi que nunca me manteria num emprego estável – indignidade e instabilidade retroalimentavam-se para produzir essa falta radical de autoconfiança que se esconde, com frequência, atrás da máscara de um estudante. Indiscutivelmente, isso tem marcado o meu sacerdócio.

Na universidade, dez anos depois, sofri (sem acompanhamento, médico ou qualquer outro) o que hoje seria chamado de surto psicótico. E assim comecei a ter problemas em todos os aspectos que estruturam a minha vida até aqui: a universidade, os amigos, a família e o país. Foi o mais próximo a que cheguei de me suicidar. Enquanto percebia o meu “eu” se dissolver e afundar em um redemoinho interminável de dissociação, a frase a que me apeguei foi “servirei”. Não sei de onde ela veio, pois non serviam não fez parte da minha formação protestante nem da minha formação clássica.

 

Enquanto isso, e sem eu compreender, a misericórdia caía lentamente sobre mim. Porque, quando garoto, me apaixonei por um colega de nove anos de idade, sem ter, evidentemente, palavras para descrever algo tão maravilhoso ou tão aterrorizante, e aprendi que o amor era outra coisa que não as banalidades da minha formação religiosa. Como isso aconteceu muito antes da puberdade, sempre estive protegido daqueles que, mais tarde, tentavam falar da homossexualidade como algo primariamente relacionado a atos sexuais, e não ao amor. Eu sabia que tinha a ver com amor muito antes de saber que havia coisas tais como atos sexuais. Essa misericórdia de si mesmo, borbulhando silenciosamente por uma outra amizade, esteve invisível até os meus dezoito anos, quando se manifestou via necessidade urgente de ser recebido na Igreja Católica. Essa misericórdia esteve comigo durante estes quarenta anos que se seguiram, tentando convencer um “eu” amado a existir.

Entretanto, na década de 1960 a palavra que eu havia absorvido do mundo como era então, relativa a um amor enorme e abissal e ao sonho de compartilhá-lo com outro garoto para sempre, era: “impossível”. E foi lidar com esse terrível vínculo duplo – o amor e a sua impossibilidade, com aquela impossibilidade aparentemente sancionada por Deus – o que formou grande parte do que me vi tentando fazer e ensinar, como homem e como padre, desde então. Acabei aprendendo que quando Jesus falou que “nada é impossível para Deus”, ele não estava querendo dizer que Deus pudesse fazer coisas superlativamente difíceis (como se “difícil” fosse um termo útil relacionado a Deus), mas que, para o Pai, os nossos vínculos duplos, as nossas impossibilidades nos desejos, não são nada. Que o próprio reverso da impossibilidade é um aspecto definidor de quem é Deus.

Por que compartilhar com vocês na forma de testemunho esses fragmentos de anos passados? Em primeiro lugar, porque não acho que o meu caso seja singular. Em segundo lugar, também não creio que avançaremos muito na reinvenção envolvida das famílias e de suas diferentes formas futuras, sem trabalhar com a experiência vivida desses fiéis indesejados. A experiência tem sido, até recentemente no mundo ocidental, como ainda é em muitas outras partes do mundo, a de que somos pré-escolhidos como os inimigos involuntários de tudo o que nos foi ensinado ser bom e verdadeiro pelos nossos pais, professores, Igreja e sociedade em geral. Nós fomos enganados por aqueles que representam Deus para nós. Mentiram sobre nós mesmos e mentiram sobre Deus. Nós mesmos nos tornamos mentirosos. Tanto é assim que não tem havido formas de conciliar o amor com o Evangelho, exceto através do trabalho extraordinariamente delicado de aprender a separar onde somos nós mesmos mentirosos, como todos os humanos; onde estão mentindo para nós; e onde um outro tenta soprar a verdade e vida em nós.

 

Além disso, a linguagem, os sentimentos e as experiências associadas à convivência com essa realidade foram, e ainda são para muitos, uma violência bastante notável. Terror, pânico, inferno, demonização, abominação, perdição, incapacidade de confiar em sentimentos, incapacidade de dizer a verdade ou confiar os adultos com a verdade. Uma variedade impressionante das ressonâncias detectadas dessas palavras tem sido encarada, em grande parte, sem ajuda alguma por jovens que já se encontram em idade de votar. E as consequências de ter passado por elas, se o jovem de fato as viveu, podem muito bem permanecer ao longo da vida por muitas décadas após terem aceito aquela verdade perfeitamente banal, segundo a qual a orientação sexual deles é uma variante minoritária não patológica da condição humana, e que tudo o que passaram eram os restos aterrorizantes de uma ideia arcaica do sagrado que não é de Deus.

 

Assim, mentiras e violência no coração família e da Igreja. Eis por onde começa o meu testemunho. Por qualquer que seja a razão de Deus, recebi o chamado formal de viver essa realidade como padre. Até onde me é possível dizer, este chamado significou permitir que a fachada aterrorizada de uma pessoa que eu construí tão habilmente fosse desfeita pelo amor e pela misericórdia assim que elas entraram em minha vida, quase invariavelmente por meios aparentemente inadequados. E, dessa forma, significou viver em minha própria pessoa a redenção daquele mundo de mentiras, violência e desejo, de modo a tornar-me um sinal de que o sacerdócio de Jesus ainda está muito vivo e bem.

Obviamente, não consegui me tornar esse sinal, a ponto de esta afirmação soar ridícula. Mas aprendi também que o fracasso é um dos canteiros de obras preferidos da graça. Quando leio as palavras de Jesus sobre o Bom Pastor, sei que a tarefa para a qual fui chamado, o lobo do qual, como mercenário, estou mais tentado a fugir, é a violência mortal e o ódio que partem dos dentes dos veementemente gentios em todas as culturas – violência desencadeada sempre que há a sugestão de que, talvez, os LGBTs sejam indivíduos amados assim como nós e que o nosso florescimento toma o caminho da aprendizagem para humanizar o nosso amor a partir de onde estamos. É claro que um dos lugares onde esse ódio e essa violência têm uma embaixada favorita na terra é o armário clerical católico.

 

Portanto, para mim, aprender a “alimentar as minhas ovelhas” envolve não fugir do lobo. Correr o risco de ser morto por ele, perder a legitimidade, a boa reputação, a empregabilidade em suas garras, sim; mas também desviar daquelas acusações óbvias demais. Em vez disso, devo aos poucos enfrentá-lo para que perca a transcendência, desfaça-se de suas artimanhas e trapaças cada vez mais compreendidas e, assim, encontrar-me na vida como um pastor de verdade, um filho de Deus. Não o mercenário que eu temia que fosse o meu destino.

Espero que com isso eu esteja aprendendo o suficiente para compartilhar um pouco do meu imensurável privilégio de trinta anos aproximadamente de sacerdócio, com meus irmãos e irmãs. Estamos fazendo aquilo que Armistead Maupin chama de nossa família lógica, e não biológica. Às vezes, há uma sobreposição das duas famílias, e às vezes não. Mas agora, à medida que o mundo da “impossibilidade” decresce, inclusive nós estamos empoderados a ponto de reconhecer alguém como nós e a gritar: “Esta sim é osso dos meus ossos e carne da minha carne!” É melhor estar morto do que fingir o contrário. A natureza aberta do caminho nos permitiu saber que é o Espírito de verdade que clama em nós quando damos esse grito, que o amor resistente foi bem testado e que famílias improváveis já têm dado glórias a Deus, para o qual criar é ousar ser verdadeiro.

 

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