Berta Cáceres: dignidade e rebeldia

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05 Março 2020

“Com Berta, o que se vê, o que se viu e o que se continuará vendo, é que possui uma profunda ligação com as cosmogonias. Ouvi-la e saber de seu legado ancestral é mágico: essa ancestralidade vive em nós. Não falamos dela no passado. Nós falamos de nosso cosmoser no presente, que se relaciona com a sabedoria ancestral das histórias e das memórias. Isso é Berta”, escreve Aura Lolita Chávez, ativista dos direitos das mulheres e líder indígena da Guatemala, em artigo publicado por Público, 03-03-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Conheci Berta Cáceres quando já estava ligada à defesa territorial com meu povo Maia Quiché. Minha vida começou na defesa dos direitos específicos, políticos, das mulheres. Após uma invasão perversa dos Estados Unidos, das invasões das empresas, da guerra, do racismo profundo, das desigualdades. Comecei com um grupo de mulheres, mas já na luta do povo em defesa dos territórios. Foi assim que conheci Berta. A relação direta que tive com sua vida foi pela situação dos territórios onde estávamos, em pleno conflito, com territórios em disputa. Não apenas com Berta, mas a luta de sua organização, COPINH [Conselho Cívico das Organizações Populares e Indígenas de Honduras], a luta do povo Lenca, foram referências de dignidade e rebeldia.

Ela me incentivou em alguns momentos importantes da minha vida, em que eu já estava sendo perseguida, já estava muito ameaçada. Encontramo-nos em vários lugares da Abya Yala, da América Latina, através da Iniciativa Mesoamericana de Defensoras e outros movimentos territoriais. Após cada encontro, eu retornava ao Quiché com ânimo de vida, muito motivada após nos encontrarmos, como mulheres, e nos dizer: “Não está sozinha”. Nunca pensei que teria que sair e ficar longe da minha terra, durante muito tempo.

Com Berta, juntamo-nos na defesa da água e das montanhas. A partir daí, começamos a refletir sobre a invasão de empresas ligadas a bancos internacionais, as invasões através das empresas, com a ligação entre o Estado de Honduras e os bancos internacionais. Eu entendia muito pouco sobre esses vínculos estruturais macroeconômicos, e ela me deu uma grande luz. Os padrões em diferentes lugares eram indignantes: em Quiché, meu povo, silenciaram os genocídios, a terra arrasada... Ela dizia o mesmo de Honduras, que não se escutava muito e precisávamos divulgar que nós, povos originários, estamos vivos.

Com Berta, o que se vê, o que se viu e o que se continuará vendo, é que possui uma profunda ligação com as cosmogonias. Ouvi-la e saber de seu legado ancestral é mágico: essa ancestralidade vive em nós. Não falamos dela no passado. Nós falamos de nosso cosmoser no presente, que se relaciona com a sabedoria ancestral das histórias e das memórias. Isso é Berta.

Antes do crime, oferecia esse legado nas comunidades. Sua ligação era muito profunda com a sabedoria, a espiritualidade. Agora que fui aos territórios que ela havia percorrido, sei que não falava de forma isolada ou de forma personalista. Ela tinha uma profunda relação com o seu povo, sua comunidade, seu território e também com outros territórios, uma expressão profunda do internacionalismo.

O trabalho com a terra, a cerâmica, a semeadura, as árvores, as comunidades, a sabedoria ancestral, a relação com a água, o espírito das montanhas ... Toda essa convivência com a expressão da natureza são um grande valor de Berta e do povo Lenca para a sociedade.

Berta tinha sonhos. Tinha compromissos de transformação, de refundação do estado, compromissos feministas. Essas tarefas estão presentes no aqui e agora. Seu legado é ver como as agendas estão marcadas por abismos: as agendas das empresas ligadas a governos corruptos, narcoestados, violência, militares, oligarquias mundiais, bancos mundiais, têm uma relação profunda com o patriarcado e com o neoliberalismo. Não têm nada a ver com as nossas agendas, com os pactos como povos, os pactos dos movimentos feministas, das comunidades que lutam pela vida, por um vínculo profundo na luta pela justiça, pela dignificação de nosso ser.

As agendas são muito claras. Nos movimentos feministas, nos povos, precisamos dessa clareza de que temos nossa agenda. Contudo, sabemos que existem planos de violência contra nós. Existem planos de assassinato, de genocídio, de destruição. Esse é o legado deixado pela visão revolucionária de Berta: a estratégia.

Não ficaremos no simplismo de simplesmente manter as estatísticas das pessoas que são assassinadas por defender a água e a terra. Há padrões nos territórios de como se dão as formas de nos perseguir. Vão desde a estigmatização, a criminalização, a perseguição, as expressões de ódio, até o assassinato. Não precisamos chegar até o assassinato: temos que parar essas ações criminosas no caminho. E ter essa capacidade estratégica funcional ativa, que nos permita entender que a luta deve ser integral, e temos que parar o quanto antes as agressões. O fato de eu estar viva, quando havia alguns padrões de assassinato preparados para mim, é um sinal. O que nos dará luz e inspiração é que as vidas sejam libertadas dessas expressões de crime organizado.

Nossa inspiração diante das tarefas que Berta nos deixa é a necessidade de articulação. Ela não apenas lutou pelo povo Lenca, mas também se vinculou a outros povos. Essa seria uma tarefa: há vidas que estão sendo salvas e há muito mais que pode ser feito. Se falamos sobre o caminho da justiça, nesse momento, na Bolívia, no Chile, há expressões de crimes contra a humanidade, de tortura. Na Guatemala, no México, na Argentina ... Em muitos territórios, existe a violência e a perseguição. Digamos que não estamos sozinhas. Sintamos a reciprocidade de outros lugares. Em todas as partes há violência e perseguição. Unamo-nos. Estamos na linha de frente do ataque. Na defesa territorial.

A última esperança da Humanidade somos nós, povos originários ligados à terra, que estamos lutando para que a Humanidade se vincule com a Terra, com a vida, com a água. Para que nos atrelemos mais com a vida do que com o capital. E há muitas outras pessoas que podem fazer muitas outras coisas. Organizações de justiça que se unem à luta. Meios de comunicação comprometidos que permitam que nossa voz chegue a outros territórios. E as lutas contra as empresas a partir dos locais de origem de suas oligarquias, para que as empresas saibam que, em seus locais de origem, talvez na Europa, deseja-se a vida em vez de projetos de morte.

Gostaria de dizer às companheiras do COPINH que não estão sozinhas, não estão sozinhos. A todas nos falta Berta. Quando pensamos e a sentimos, ficamos arrepiadas, temos lágrimas nos olhos, nossas vozes se rompem, temos um nó na garganta, mas extraímos força do cosmos. Quero dizer a Berta que agradecemos três vezes por seu legado, como fazemos em meu povo. Agradecemos uma vez pela vida. Agradecemos duas vezes à mãe terra porque nos sustenta. Agradecemos três vezes ao cosmos. Porque não estamos sozinhas, não estamos sozinhos. Berta vive em nossos caminhos e é nossa semente para sempre.

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