Incêndios florestais: ‘Brasil pode ser a Austrália amanhã’, alerta especialista

Incêndios florestais na Austrália. | Foto: Fotos Públicas

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

10 Janeiro 2020

Fogo causado pelo homem na Floresta Amazônica brasileira pode levar a processo de "savanização", o que tornaria a região mais suscetível a queimadas espontâneas.

A reportagem é publicada por Rede Brasil Atual – RBA, 09-01-2020.

Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Amazônia brasileira registrou 89 mil focos de incêndio em 2019, o que representa aumento de 30% em relação ao ano anterior. As queimadas voltaram a aumentar nos últimos dois meses do ano. Só em dezembro, o número de focos foi 80% maior, na comparação com o mesmo período de 2018. Esse crescimento das queimadas, combinado com o desmantelamento dos mecanismos de fiscalização e proteção do meio ambiente, além da retórica do governo Bolsonaro que estimula a ocupação desregrada da região, pode levar o Brasil a um incêndio florestal de grandes proporções, como os que vêm ocorrendo na Austrália.

Apesar das causas distintas e também da composição dos diferente dos biomas, “o Brasil pode ser a Austrália amanhã”, afirma o presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam), Carlos Bocuhy. Por lá, as queimadas vêm ocorrendo de forma espontânea, devido à onda de calor que assola o continente. Por aqui, destaca-se a atuação humana, com queimadas que se sucedem ao desmatamento das áreas florestais. Outra diferença é que a vegetação australiana é mais seca, o que facilita o alastramento do fogo, a partir de fortes ventos.

Contudo, as queimas causadas pelo homem na região amazônica podem levar a um processo de “savanização”, alerta Bocuhy, já que as áreas desmatadas, mesmo quando restauradas, não recuperariam toda a biodiversidade e densidade de biomassa da cobertura original. Assim, ficariam mais suscetíveis a incêndios espontâneos, como os que ocorrem na Austrália.

“Tentar compara os incêndios da Amazônia com os da Austrália é um exercício ilógico. É preciso muito malabarismo para fazer essa comparação. As situações são muito diferentes, desde a composição dos ecossistemas até a indução da queima. Aqui no Brasil foram queimas provocadas pela mão do homem, para a ocupação dos espaços. Na Austrália, não. É outra realidade. O que temos de semelhança é a falta de preparo dos governos”, afirmou o presidente do Proam ao jornalista Glauco Faria, para o Jornal Brasil Atual, na quinta-feira (9).

Segundo o especialista, o cenário seria ainda mais desolador para todo o continente da América do Sul, já que é a umidade proveniente da Amazônia que abastece todo o sistema hidrológico da região, a partir dos chamados “rios voadores”. “Sem a Amazônia, haveria apenas uma transferência intempestiva de umidade do Caribe para o interior do continente, insuficiente para recarregar mananciais e aquíferos. O risco para o Brasil, com a perda da Amazônia, é muito maior”, explica Bocuhy.

Destruição e morte

Na Austrália, os incêndios já atingiram mais de 5 milhões de hectares, desde setembro. Mais de 1.500 casas foram destruídas e ao menos 25 pessoas morreram. Ecologistas da Universidade de Sydney e da organização WWF estimam que mais de um bilhão de animais naturais do país, como coalas e cangurus, foram mortos pelo fogo. A fumaça dos incêndios na Oceania chegou ao sul do Brasil na última terça-feira (7), após percorrer mais de 12 mil quilômetros carregada pelo vento.

Ainda que sem a participação direta da ação humana no caso australiano, as queimadas por lá e também outras regiões que sofreram com incêndios de grandes proporções no último ano, como na Califórnia (EUA), Espanha e Portugal, também estão relacionadas com o agravamento do aquecimento global, em decorrência da liberação dos gases de efeito estufa. Bocuhy destaca que alguns cientistas inclusive já abandonaram a nomenclatura “Antropoceno”, que marca a atual fase geológica com destaque para a ação humana sobre o meio ambiente, para outra ainda mais grave: o “piroceno” ou “era do fogo”.

Confira a íntegra da entrevista com Carlos Bocuhy:

 

 

Leia mais