O retorno de Drewermann

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08 Janeiro 2020

Quase trinta anos se passaram desde que a Igreja Católica proibiu o teólogo e psicoterapeuta Eugen Drewermann de ensinar e predicar. Agora, ele fala novamente pela primeira vez no local em que exerceu sua atividade, isto é, na Faculdade teológica de Paderborn. Uma reflexão tardia?

A reportagem é de Anne Strotmann, publicada por Publik-forum.de, 21-12-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Não queremos que pareça algo sensacional, diz o reitor da Faculdade teológica de Paderborn, Stefan Kopp, cumprimentando os presentes e acrescentando que Drewermann também é da mesma opinião. Isso não tira que o retorno de Eugen Drewermann à Faculdade Paderborn, após quase trinta anos, possa ser considerado pelo menos um fato histórico. Os 400 assentos da aula magna estão todos ocupados, e o discurso de Drewermann sobre "Potência e impotência de Jesus" é transmitido em outras duas salas e na internet. Um discurso que faz parte de uma série de palestras sobre "Potência e impotência na Igreja".

"Devo acrescentar - naturalmente, essa é a parte desagradável", continua Kopp, "que também há uma história por trás disso, como vocês sabem." Dado que Kopp não fala de que "história" se trata, vamos conta-la brevemente: Drewermann foi ordenado sacerdote em 1966, estudou psicanálise, adquiriu a qualificação com a obra "Estruturas do mal" e tornou-se professor na Faculdade teológica de Paderborn. Nos anos seguintes, identificou em que medida a Igreja contribuiu para a guerra, para a crise econômica e para a dor psíquica do presente. Ele também mostrou compreensão pelos trágicos conflitos que podem levar a separações. Naquele tempo chegaram as primeiras reclamações a Joseph Ratzinger, que acabara de se tornar prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Em 1989, foi publicado "Kleriker, Psychogramm eines Ideals" (Clérigos, psicograma de um ideal, em tradução livre). A partir daquele momento, não se quis mais que Drewermann ensinasse na faculdade. Afinal, os padres eram formados ali. O livro "Worum es eigentlich geht - Protokoll einer Verurteilung" (O que realmente é - Verbal de uma condenação, em tradução livre) documenta o procedimento que parece kafkiano. Mostra um arcebispo, Degenhart, a quem se pede demais: ele simplesmente não entende Drewermann. Em outubro de 1991, retira sua licença para ensinar, no janeiro seguinte, a permissão para predicar. Em tais condições, Drewermann não quer mais continuar exercendo o presbiterado e é suspenso. Em 2005 deixa a Igreja. Agora, a convite do reitor e com o placet do arcebispo, é chamado pela primeira vez ao local onde exerceu a sua atividade.

Eu estudei em Paderborn, não na faculdade de teologia, mas na universidade. As exegeses de Drewermann de psicologia profunda e sua crítica à Igreja estavam naturalmente no programa. No entanto, também conheci candidatos ao presbiterado da faculdade e seus professores. Alguns são inteligentes, bons e gentis. Outros reprimidos, presunçosos, um pouco sexistas ou abertamente misóginos. É difícil que falem em primeira pessoa ou sobre sentimentos. E de repente parece que entraram em acordo: ninguém fala uma palavra por medo de que isso possa causar problemas. Se for possível, que essa série de palestras sirva para colocar autocriticamente a pergunta: o que pode ser feito para superar o clericalismo na Igreja e impedir o abuso de poder?

O reitor Kopp tem apenas 34 anos. Apesar disso, isso me lembra Helmut Kohl quando ele continua assim: "Eu disse ao Dr. Drewermann que nasci mais tarde e que, portanto, posso enfrentar a situação sem prevenções". Kohl falou da "graça de ter nascido mais tarde", para poder se apresentar como homem da nova geração. Naturalmente a comparação não se encaixa perfeitamente, mas é interessante como as pessoas se colocam a respeito da história de um coletivo pelo qual são marcadas.
Mas agora finalmente chegamos ao ponto: a entrada em cena de Drewermann. Seus fãs aplaudem energicamente. Ele agradece gentilmente pelo convite e imediatamente inicia sua apresentação: "O que o homem de Nazaré queria, diz respeito a todos, simplesmente porque Jesus era um ser humano". Protesta contra o capitalismo que, à pergunta "Por que estamos aqui?", responde apenas: para produzir e para consumir. Para Deus não há espaço, ou aos seres humanos parece apenas como anjos da guarda que bloqueiam a entrada do paraíso. Mas: "Com Jesus, algo começou que - se o entendêssemos - mudaria o mundo inteiro". O homem de Nazaré distribui absolvições em branco a pecadores, cegos e paralíticos. Vai atrás de quem se perdeu, até o inferno. "Não era apenas algo que aconteceu depois de sua morte, era toda a sua vida: como pegar os perdidos pela mão e transformar as máscaras de gelo". É por isso que Jesus também diz no Sermão da Montanha: "Bem-aventurado aquele que chora". Pessoas sem emoções são dominadas pelo superego, afirma o terapeuta. A opinião dos outros é mais importante para eles do que o seu próprio Eu. No Parlamento, observa Drewermann, ninguém cai em prantos. No entanto, diante dessa política migratória, seria a única reação apropriada.

Depois Drewermann parafraseia as palavras de Jesus na cruz: “Querido Pai, eu me entrego em tuas mãos. Eu tentei trazer o teu amor ao mundo. Ajudei aqueles que estavam caídos, que não sabiam como continuar. Eles entenderam isso. Ao contrário, não o entenderam aqueles que estavam em segurança, que acreditavam ter Deus do seu lado - aqueles eu os ameacei”.

Às vezes, não fica claro quem esteja realmente falando: se Jesus ou Eugen Drewermann. O fato de Drewermann estar falando de máscaras, emoções bloqueadas e super-egos parece plausível neste lugar. Sua atitude de distanciamento da Igreja parece clara quando responde a uma pergunta sobre o "caminho sinodal": "O que esperamos dos sínodos, que nos permitam viver?". 

A minha formação teológica foi influenciada por Drewermann. A frase "é melhor infringir a lei do que quebrar o coração de um ser humano", eu a escrevi no livro de família. Mas às vezes eu tenho que franzir a testa, inclusive hoje à noite. Primeiro, porque Drewermann relata sua mensagem de Jesus como os Evangelhos: com a tendência a uma desvalorização geral do judaísmo, tratando-o como uma impiedosa religião da lei, para que o perfil inconfundível de Jesus apareça com mais clareza. Parece-me algo negligente, sem uma visão histórico-crítica, porque também ali há uma "história".

Nas agências de notícias, as afirmações de Drewermann são usadas principalmente em relação a padres abusadores. "É fácil demais dizer que Deus está com as vítimas, não com os culpados". A Igreja agiria por medo da opinião pública quando entrega os culpados à justiça penal e contra o princípio de Jesus: curar, não punir. "A atitude fundamental seria de ver nos culpados vítimas". Encobrir por graça em nome de Jesus? Um olhar na internet mostra que Drewermann foi entendido dessa maneira. Água no moinho daqueles que pressionam as vítimas, perdoam os culpados e calam sobre seus crimes. Drewermann critica, justamente, fantasias grosseiras de punição e vingança que simplesmente separam o "mal" em vez de discutir e enfrentar as suas estruturas. E seria bom se a Igreja fosse um lugar de salvação e cuidado. Infelizmente não é. Drewermann explicou isso em "Kleriker" e a investigação sobre os abusos provou que ele estava certo.

Como estão as coisas agora em relação ao retorno na faculdade e à Igreja? Não consigo enxergar isso bem esta noite. Alfred Delp disse certa vez: "O Advento é um tempo de abalos, no qual o ser humano deve despertar para si mesmo". Esse abalo em Paderborn estava faltando.

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