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12 Dezembro 2019

"O ser humano fica asfixiado quando não são atendidas suas aspirações sociais e culturais, e o equilíbrio econômico e social (muito mais importante que o assim chamado “progresso”) é impossível onde a desigualdade é grande demais", escreve Pe. Johan Konings, sacerdote jesuíta e professor titular emérito de exegese na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia - FAJE. 

Pe. Konings é belga, licenciado em Filosofia (1961) e em Filologia Bíblia (1967) e Mestre e Doutorado em Teologia pela Catholic University Leuven (1972, título 1977). Leciona no Brasil, no campo da Teologia e da Exegese Bíblica, desde 1972. Dedica-se principalmente aos seguintes assuntos: Bíblia Antigo e Novo Testamento (tradução), Evangelhos (especialmente de João) e Hermenêutica Bíblica. Foi organizador da Tradução Ecumênica da Bíblia (1994), da Tradução da Bíblia da CNBB (2001) e da tradução do Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral (Denzinger-Hünermann) (2007).

Eis o texto.

Natal está chegando. É preciso olhar como está a casa para acolher Jesus.

O Brasil mudou com a chegada do novo governo. Não foi acolhido com unanimidade. Uma guinada para a direita, em alguns de seus executivos até a extrema direita. Nem todos os que votaram a favor queriam isso. Alguns votaram pelo atual presidente por decepção com o governo anterior (que pela metade do tempo foi de quem?). Outros, por preferirem uma economia mais liberal. E outros por medo... de quê? Mas poucos votariam contra o Estado democrático, suponho. Por enquanto ainda temos oficialmente um Estado democrático, e devemos fazer tudo para conservá-lo. Mas os procedimentos governamentais nem sempre ajudam.

Eu vejo com desconfiança esse neoliberalismo selvagem que destrói as tentativas de construção de um Estado de bem-estar para todos. As consequências se veem na restrição de investimentos na saúde, na cultura e na educação. Em relação à cultura e a educação introduziu-se até um discurso anti-ideológico, embora pareça antes um discurso altamente ideológico contra uma suposta ideologia chamada de marxismo cultural.

O termo ideologia não é necessariamente negativo. Significa o conjunto de ideias que dirigem a ação, mas pode se tornar um sistema de pensamento seletivo e fechado, artificial, como aqueles compêndios ou manuais sempre à espera de uma próxima edição melhorada... A mim não me parece que as universidades brasileiras sejam ninhos ideológicos. Por minha parte, espero que sejam, além de centros de estudo, também espaços para diálogo e discussão. E tudo isso com a devida competência.

A questão econômica mexe com toda a América Latina e com o mundo inteiro. O que as grandes corporações transnacionais querem, parece-me, é fazer da acumulação de capital e do crescimento da produção os critérios decisivos da organização da sociedade. Não que a reserva de capital e o crescimento da produção sejam maus em si, mas tornam-se um mal se tudo é decidido em função deles. Se houvesse distribuição justa, a produção nem precisaria crescer. O ser humano não está a serviço da produção, mas o contrário. O ser humano fica asfixiado quando não são atendidas suas aspirações sociais e culturais, e o equilíbrio econômico e social (muito mais importante que o assim chamado “progresso”) é impossível onde a desigualdade é grande demais. Por outro lado, igualdade não é um conceito quantitativo, mas qualitativo. Diz respeito à qualidade de vida, não à posse de benesses, que para um podem ser funcionais e para outro não. Quem sofre de miopia tem direito a óculos de grau, mas quem tem olhos bons... só a óculos solares!

Até aí a questão econômica, segundo meu entendimento limitado. O que eu entendo melhor é a questão religiosa. Como cristão e sacerdote fico muito magoado com a manipulação religiosa que se percebeu nas eleições e, depois, nos ataques fanáticos a outras religiosidades que não sejam o biblicismo fundamentalista ou algumas formas estranhas do catolicismo. Católicos que se consideram “os bons” perturbam expressões reconhecidas do próprio catolicismo, como aconteceu no RJ no dia do Movimento Negro. Não posso ver nisso nenhuma preocupação com a fé cristã, mas apenas racismo reacionário.

Também não podemos aceitar a inescrupulosa manipulação da religião e da Bíblia, para fins de poder econômico e político, praticadas por representantes de todas as igrejas cristãs.

De passagem, algo sobre a pedofilia. Esse mal deve ser combatida com vigor, como o Papa Francisco tenta fazer. Não é uma exclusividade do clero católico, nem se deve estabelecer uma ligação direta com o celibato (há muitos pedófilos pais de família). Mas existe o perigo de que o truncamento afetivo, na formação clerical conservadora e no celibato não integrado, favoreça compensações que podem virar vício e crime. Independentemente disso, acho que todas as comunidades cristãs, por humildes ou periféricas que sejam, têm direito a quem possa presidir a Eucaristia, e isso é difícil com a atual restrição (disciplinar, não dogmática) do sacerdócio a celibatários. E há muitas outras coisas que deverão ser atualizadas para que a mensagem de Cristo atinja os de fora e os de dentro (que às vezes, por se acharam cristãos, parecem vacinados contra a fé e a caridade...).

Algo sobre o pensamento do Papa Francisco a respeito de uma Igreja “em saída” e “não autorreferencial”. “Igreja em saída” não significa sair para a Índia ou a China como os missionários do século XVII, mas para o mundo dos universitários, dos economistas, do comércio, da comunicação etc., que estão precisando com urgência do Evangelho. E a Igreja não deve considerar como prioridade absoluta sua própria organização institucional e seu poder (isso seria “autorreferencial”), mas o Evangelho ao serviço do qual ela está.

E a questão do clima? Quem acompanha as informações dificilmente negará que algo está mudando drasticamente. Aquecimento global. Regiões sendo engolidas pelo mar. Mesmo se a população cresce em ritmo menor, o consumo de energia não diminui. Eu acho que consumimos demais (energia, comida, produtos diversos). E mesmo se a gente não quer, o mercado força, pois a máquina deve continuar funcionando. Não preciso explicar, todo mundo vê, a não ser quem não quer ver... Quem pensa um pouco entende que não tem sentido desmatar a Amazônia para produzir mais grãos e carne, enquanto os médicos aconselham diminuir esses alimentos. Mas não é só isso. “Tudo está interligado”. Manter as florestas é uma questão de organicidade, de saúde do globo terrestre inteiro. É preciso conservar as populações que sabem conviver com a floresta sem erradicá-la. Silvicultura também é cultura. Com as informações de que dispomos, negar esse problema torna-se “pecado contumaz”.

Gostaria de explicar como eu mesmo vejo a fé, mais farei isso numa próxima oportunidade. Agora devo falar de minha própria produção (apesar de consumir muito papel, felizmente apenas feito de eucalipto e não de mata tropical) – pois me perguntam o que escrevi e onde conseguir...

Pela Fonte Editorial, São Paulo.
Evangelho segundo João: amor e fidelidade. 2017. 550p.

Pela Ed. Loyola, São Paulo.
A Palavra se fez livro. Div. edições. 102p.
Sinopse dos Evangelho de Mateus, Marcos e Lucas e da “Fonte Q”. 2005. 340p.

Coleção Bíblia Passo a Passo (comentários-paráfrase para grupos de leitura, cursos bíblicos, leitura bíblica pessoal etc.).

• João, o evangelho do amor de Deus. 2019. 96p.
• (com Maria Rita Gomes) Marcos, o evangelho do reinado de Deus. 2018. 88p.
• (com Isidoro Mazzarolo) Lucas, o evangelho da graça e da misericórdia. 2016. 150p.
• (com Isidoro Mazzarolo) Atos dos Apóstolos: o caminho da Palavra. 2017. 126p.
• (com Marcus Mareano) Tiago, Pedro, João e Judas: cartas às Comunidades. 2019. 108p. (a partir de 13/12/2019)
• Cf. também: Jaldemir Vitório. Mateus, o evangelho eclesial. 2017. 176p.

Pela Ed. Vozes, Petrópolis.
Liturgia dominical: mistério de Cristo e formação dos fiéis, anos A-B-C. 540p.
Ser cristão: fé e prática. Nova edição atualizada, 2019. 80p.
A Bíblia, sua origem e sua leitura: introdução ao estudo da Bíblia. 270p. + mapas.

Feliz Natal!

Pe. Johan Konings, 10 dezembro 2019 (dia dos Direitos Humanos) 

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