“Guimarães Rosa foi um visionário na defesa da inteireza do ambiente”

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26 Novembro 2019

Nada mais oportuno em tempos onde o ambiente é vilipendiado e os morros gritam, que celebrar uma literatura que conta sobre o respeito e o zelo dos sertanejos ao território. Guimarães Rosa foi um visionário na defesa da inteireza do ambiente muito antes das preocupações ecológicas, afirmou Daniella Guimarães de Araújo, integrante do Grupo Temático Vigilância Sanitária – GTVISA/Abrasco, e coordenadora da Comissão de Cultura do 8º Simbravisa, na abertura do 8º Simpósio Brasileiro de Vigilância Sanitária - Simbravisa, publicado pelo portal da Abrasco, 25-11-2019.


Sertão do norte mineiro. Foto: Divulgação. Fonte: Tribuna do Norte

Eis a íntegra.

Cordisburgo, Morro da Garça e Andrequicé. Na identidade visual deste 8º Simbravisa está simbolizada parte do sertão mineiro entre os rios São Francisco e o das Velhas. As três pequenas cidades – destacadas na obra de Guimarães Rosa – remetem ao registro da alma do povo do sertão de Minas, sertão de todo lugar.

Guimarães Rosa quis trazer à luz homens e mulheres comuns, os capiaus, os catrumanos, os que estavam à deriva, os que viviam à margem de dos direitos, os destituídos de dignidade, os silenciados. Loucos, crianças, prostitutas, velhos, jagunços, doentes de lepra e malária.

A homenagem que fazemos a ele nesses tempos tão brutos, “foge à esclerose torpe dos lugares comuns” e nos propõe pensar o país de mil e tantas misérias.

Uma homenagem a cada pedaço de sertão e a cada ser humano sem voz e sem vez. Uma homenagem que junta ao erudito, o popular; aos intelectuais, os trabalhadores manuais. Ao que é, o que não é. À doença, a saúde; ao físico, o metafísico. À guerra, o amor. Dualidades, como ele tanto gostava.

Em tempos onde o pensamento está ameaçado, ler Guimarães Rosa nos estimula a ler o mundo. Com os olhos de inocência de Miguilim, a sabedoria de Riobaldo , a coragem de Diadorim, a poesia do vaqueiro Grivo, a paixão de Doralda, o pertencimento à terra do guia Pedro Orósio.

Ler Guimarães Rosa é adentrar o mundo vastíssimo de sua poesia, sua busca maior enquanto homem e escritor. A ela nos entregamos, mudos de espanto, plenos de beleza. Como disse a poeta Sophia Mello Breyner Andresen, quando a palavra da poesia não convier à política, é a política que deve ser corrigida.

Por que trazer a um simpósio de vigilância sanitária uma benzedeira, um raizeiro, uma bordadeira e uma violeira vindos das cidades do sertão? Por que uma ocupação com arte?

Guimarães Rosa, que foi médico por pouco tempo e escritor por todo o resto e infinitamente, sabia da importância de integrar conhecimentos no território que se chama vida.

Compreendeu os contextos sociais nos quais a república se fazia e conheceu o bem e o mal, os vaqueiros e os latifundiários, as ervas medicinais, as benzições, a força das comunidades, a luta inglória contra o mosquito anofelino, os sanatórios, a segregação e a dor. A miséria e os donos do capital. Conheceu também a pujança e a esperança inspiradora dos buritizais.

Nada mais oportuno em tempos onde o ambiente é vilipendiado e os morros gritam, que celebrar uma literatura que conta sobre o respeito e o zelo dos sertanejos ao território.

Guimarães Rosa foi um visionário na defesa da inteireza do ambiente muito antes das preocupações ecológicas.

Descreveu minuciosamente as árvores e bichos, a beleza dos rios e flores, os alimentos e as farturas, os cheiros da natureza, a solidariedade e a compaixão das comunidades , virtude de mulheres e homens tão comuns.

No enigmático conto Recado do Morro, a montanha era um ser com alma. O homem não era o centro de tudo, mas irmanado a tudo. Foi o coração de um louco que ouviu o recado que o morro dizia: um recado de morte à traição.

Que recado nos dias de hoje nossos morros estão enviando?

Assim, nesta noite inaugural do Simbravisa, vocês ouvirão o Grupo Miguilim, formado por jovens da terra natal do escritor – narrar trechos de sua obra.

Amanhã, verão o povo do sertão das três cidades que citamos na ocupação cultural chamada Ser- tão gerais. Se possível, dialoguem com eles, ouçam suas histórias de vida.

Verão também algumas das muitas cartas que nos chegaram de muitos lugares do país, escritas para Guimarães Rosa, por meio de um trabalho que fizemos em parceira com o Museu Casa Guimarães Rosa.

Esta é a nossa homenagem. Coração e alma do sertão de Minas, que é também o mundo.

Agradeço à Comissão de cultura, à toda equipe do Museu Casa Guimarães Rosa e especialmente a Ana Souto, Tania Alves Margareth Vanucci e Fátima Coelho, ao povo do sertão.

Ao imenso e iluminado espírito do escritor Guimarães Rosa.

Então, a nós, a poesia. Muito obrigada.

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