Francisco e a missão: “Jogar verdades e fórmulas doutrinais como pedras não é cristão”

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04 Novembro 2019

O pensamento de Francisco sobre a missão e o espírito missionário, já amplamente expresso nesses seis anos de pontificado, mas frequentemente reduzido a slogans ou aforismos genéricos, está condensado nas cerca de cem páginas de "Senza di Lui non possiamo far nulla. Una conversazione sull’essere missionari oggi nel mondo” (Sem Ele, nada podemos fazer. Uma conversa sobre ser missionários hoje no mundo, em tradução livre), o novo livro-entrevista do Papa publicado em coedição pela Lev e Edizioni San Paolo, nas livrarias a partir de amanhã, poucos dias antes do encerramento do Mês missionário extraordinário e do Sínodo sobre a Amazônia.

A reportagem é de Salvatore Cernuzio, publicada por La Stampa, 11-04-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Quem apresenta as perguntas desta que se diferencia da maioria das entrevistas concedidas pelo Papa - e que, de fato, é definida como uma "conversa" - é Gianni Valente, da agência missionária Fides, órgão das Pontifícias Obras Missionárias, jornalista experiente da revista mensal 30Giorni e entre os principais nomes do Vatican Insider.

Um texto ágil que tem o mérito de cristalizar o que Jorge Mario Bergoglio sugere hoje à Igreja Católica universal da qual ele é pastor. Como pastor, Francisco responde ao fluxo de perguntas colocando pontos e oferecendo ideias "sobre a anunciação do Evangelho no mundo de hoje", lembrando a natureza desse dinamismo que é a própria essência do cristianismo e alertando contra os perigos de distorcer o mandato de Cristo em um "projeto empresarial competente" ou, pior ainda, em um produto de elite impregnado de ideologias.

"Deus se dirige a todos, não fala aos apóstolos para formar um grupo exclusivo, um grupo de elite", afirma o Papa, que já no discurso final do Sínodo, citando Charles Péguy, denunciava a presença de grupos e subgrupos na Igreja que "não amam ninguém e acreditam que amam a Deus". Francisco retoma o conceito e, instigado por Valente, aprofunda sua análise, enfatizando que: "Ainda agora existem círculos e setores que se apresentam como ‘ilustrados’, iluminados, e também sequestram a anunciação do Evangelho para suas lógicas distorcidas que dividem o mundo entre ‘civilização’ e ‘barbárie’. A ideia de que o Senhor tem entre os seus favoritos também muitas ‘cabecitas negras’ os irrita, os coloca de mau humor. Eles consideram grande parte da família humana como se fosse uma entidade de classe inferior, inadequada de acordo com seus padrões para alcançar níveis decentes na vida espiritual e intelectual. Sobre essa base, pode-se desenvolver um desprezo pelos povos considerados de segundo nível”.

Anunciar o Evangelho, recomenda o Pontífice, "não consiste em assediar os outros com discursos apologéticos, gritar na cara dos outros inclusive de maneira raivosa a verdade da Revelação. Muito menos serve jogar sobre os outros verdades e fórmulas doutrinárias como se fossem pedras. Quando isso acontece, é um sinal de que mesmo as palavras cristãs passaram para um alambique e se transformaram em ideologia”. Em vez disso, explica ainda o Papa, uma "característica distintiva" de ser cristão em missão "é agir como facilitadores, e não como controladores da fé. Facilitar, tornar fácil, não colocar obstáculos ao desejo de Jesus de abraçar a todos, de curar a todos, de salvar a todos. Não fazer seleções, não fazer ‘alfândegas pastorais’. Não fazer o papel daqueles que se colocam na porta para verificar se outros têm os requisitos para entrar”.

Durante a conversa, o Bispo de Roma também aborda o nó de uma visão funcional da missão, projetada para aumentar a arrecadação de dinheiro ou seguidores nas redes sociais. Bergoglio varre toda hipocrisia quando, à pergunta de seu interlocutor "para anunciar o evangelho é necessário dinheiro?", responde, citando Santo Inácio: "Para sustentar a obra apostólica, podem ser usados legitimamente todos os meios naturais conseguidos de maneira honesta". "São os meios que pertencem juntamente à ordem dos instrumentos e nunca se deve perder de vista sua natureza", ressalta. "Não têm valor em si mesmos, não devemos colocar neles a esperança. O dinheiro em si não abre nenhum caminho. Permanece uma sustentação para os aspectos concretos e materiais da obra missionária. Em si não são fecundos, não geram vida. Se isso não for levado em consideração, o dinheiro se torna sufocante. E nos leva a pensar que podemos cumprir a missão como se fosse uma atividade empresarial, com cânones gerenciais e funcionalistas, focando tudo na captação de recursos e em projetos e iniciativas a serem financiados. Talvez em alguns lugares caiam as ofertas dos fiéis, e é um sinal de enfraquecimento da fé, e então se pensa em resolver o problema e cobrir a realidade com algum sistema de coleta melhor organizado".

O mesmo discurso vale para o vasto mundo da web, onde muitos dizem que estão realizando uma "missão de evangelização", mas acabam confundindo as bolhas de seus seguidores por multidões populares. "Para a mídia, vale a mesma coisa que vale para o dinheiro. Pertencem à ordem dos meios, dos instrumentos", responde o Papa. "Agora existem essas ferramentas a disposição para usar, e é correto usá-las. Mas também precisamos observar os diferentes efeitos produzidos pelas mídias sociais na vida das pessoas conectadas à rede. A Internet representa um recurso extraordinário para comunicar, para ter acesso ao saber e à informação. Mas também se revelou como o local mais exposto à distorção das relações humanas. A rede pode ser instrumento de encontro com outras pessoas, mas também pode se tornar o local virtual onde as pessoas se isolam e se perdem em mundos irreais”.

Portanto, o olhar do Papa no livro é um olhar ancorado na atualidade que, porém, não esquece o legado deixado pelos grandes missionários do passado. O grupo para o qual o jovem Bergoglio olhava como noviço da Companhia de Jesus, cultivando o desejo de partir para o Japão. Desejo que, de alguma forma se torna realidade na próxima viagem apostólica de 20 a 26 de novembro.

Todo o livro é permeado pela exortação apostólica Evangelii gaudium, roteiro de todo o pontificado publicada em novembro de 2013, oito meses após sua eleição para o Trono petrino. Um texto programático que convidava todo crente a “ressintonizar” atos, reflexões e iniciativas eclesiais com um novo modelo de Igreja que cresce "por atração, não por proselitismo". Essa expressão foi cunhada por Bento XVI e retomada por Francisco em inúmeras ocasiões e também reapresentada no livro-entrevista, juntamente com toda a constelação de frases e palavras pelas quais o ensino do Pontífice argentino é disseminado.

Uma acima de todas é a famosa "Igreja em saída", uma expressão tão retomada e relançada que às vezes parece ter se tornado um slogan desgastado. "’Igreja em saída’ não é uma expressão da moda que inventei", explica o Papa Francisco. "É o mandamento de Jesus, que no Evangelho de Marcos pede aos seus seguidores para ir por todo o mundo e pregar o Evangelho ‘a toda criatura’. A Igreja está em saída ou não é Igreja. Está na anunciação ou não é Igreja. Se a Igreja não sai, se corrompe, se desnatura. Torna-se outra coisa". Torna-se "uma associação espiritual. Uma multinacional para lançar iniciativas e mensagens de conteúdo ético e religioso. Nada de errado, mas não é a Igreja", observa o Papa. "Você não dá mais testemunho do que é obra de Cristo, mas fala em nome de uma certa ideia de Cristo. Uma ideia possuída e domesticada por você. Você organiza as coisas, torna-se o pequeno empresário da vida eclesial, onde tudo acontece de acordo com o programa estabelecido, que só deve ser seguido de acordo com as instruções. Mas o encontro com Cristo nunca mais acontece”.

"É Cristo que faz a Igreja sair de si mesma", enfatiza o Pontífice em uma passagem da conversa. "A missão, a ‘Igreja em saída’, não são um programa, uma intenção a ser realizada pelo esforço da vontade ... Na missão de anunciar o Evangelho, você se move porque o Espírito Santo impele e conduz. E quando você chega, percebe que Ele chegou antes de você e está esperando. O Espírito do Senhor chegou primeiro. Ele chega antes, também para preparar o caminho, e já está à obra”.

Sem esse Espírito, de fato, "querer fazer a missão se torna outra coisa. Torna-se, eu diria, um projeto de conquista, a pretensão de uma conquista que nós realizamos. Uma conquista religiosa, ou talvez ideológica, talvez feita até com boas intenções. Mas é outra coisa", alerta o Papa. "Não se segue Cristo, muito menos nos tornamos seus arautos e de seu evangelho por uma decisão tomada no escritório, por um ativismo autoinduzido. Inclusive o impulso missionário só pode ser proveitoso se ocorre dentro dessa atração e a transmite aos outros".

Portanto, não se trata de “fazer animação missionária como se fosse uma profissão, mas viver junto com os outros, respeitar seus ritmos, pedir-lhes para acompanhá-los aprendendo a caminhar no seu passo”. Somente dentro do tecido da vida cotidiana, e não na construção de eventos e mobilizações artificiais, "é possível realizar um processo de real inculturação do Evangelho nas diferentes realidades", visto que "a inculturação não se faz nos laboratórios teológicos, mas na vida cotidiana", ressalta o Papa Bergoglio.

Finalmente, não deixa de mencionar a dimensão martirial da missão: evangelização e martírio "têm a mesma origem, a mesma fonte", afirma ele. "O martírio é a mais alta expressão do reconhecimento e testemunho dado a Cristo, que representam o cumprimento da missão, da obra apostólica". O pensamento é "aos irmãos coptas massacrados na Líbia, que proferiam o nome de Jesus sussurrando enquanto eram decapitados", "às irmãs de Santa Madre Teresa mortas no Iêmen, enquanto cuidavam dos pacientes muçulmanos de uma residência de idosos com deficiência" e muitas outras testemunhas modernas que, afirma o Papa, "são todos vencedores, não ‘vítimas’".

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