Evangélicos e católicos da Amazônia: um diálogo impossível?

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24 Outubro 2019

Enquanto a grande maioria dos participantes no Sínodo é católica, dois evangélicos foram convidados como delegados fraternos.

A reportagem é de Mélinée Le Priol, publicada em La Croix International, 23-10-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O convite para mais conversas entre católicos e evangélicos na Amazônia foi o suficiente para sacudir os participantes da assembleia especial do Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia.

“Visitem as nossas igrejas, conheçam os nossos pastores, venham tomar um café!”, disse o pastor Moab César Carvalho Costa no Vaticano, no dia 8 de outubro. Esse historiador pentecostal brasileiro participou do Sínodo, que termina no dia 27 de outubro.

Embora as poderosas Igrejas pentecostais da América Latina sejam vistas frequentemente como uma ameaça por parte da hierarquia católica, esse convite foi surpreendente.

Ao convidar seus imponentes concorrentes para esse evento global, a Igreja Católica parece ter se mostrado acima de toda lucidez.

Porque a tendência é inegável: depois de cinco séculos de monopólio religioso, a Igreja Católica está perdendo espaço na América Latina.

No Brasil, os católicos diminuíram de 95% em 1970 para 52% em 2017. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil, o país mais católico do mundo, terá uma maioria evangélica a partir de 2030 em diante.

“Apenas para a minha Igreja pentecostal, as Assembleias de Deus, há mais de 2.000 pastores no Brasil, quase todos eles na Amazônia”, disse Carvalho, ciente de que os padres estão se tornando cada vez mais raros na vasta floresta tropical.

“Algo está errado conosco”

“Eu conheço uma aldeia perto da fronteira com a Guiana Britânica onde há duas igrejas católicas e 17 pastores evangélicos!”, disse o Pe. Roberto Jaramillo, presidente da Conferência de Provinciais Jesuítas da América Latina - CPAL.

“Não é de se surpreender que a Igreja se sinta ameaçada, mesmo que sinta um certo ciúme em relação a eles”, disse o Pe. Jaramillo.

Proselitismo, teologia da prosperidade, apoio ao agronegócio contra os direitos dos povos indígenas e proximidade com a extrema direita... nem é preciso dizer que essas Igrejas estão se afastando da linha preconizada pelo papa argentino desde a sua eleição em 2013.

Isso não impede que alguns líderes católicos se questionem.

“Até os melhores dos nossos fiéis, como os nossos catequistas, acabam sendo capturados por essas Igrejas. Dito isso, há uma rachadura. Há algo de errado conosco”, disse o Pe. Jaramillo.

Pedro Arana Quiroz, pastor presbiteriano do Peru, reconheceu que os pentecostais estão cientes de uma realidade que eles acreditam que “nenhum cristão” deveria esquecer.

“Acima de tudo e principalmente, Deus está presente no nosso mundo por meio do seu Espírito”, diz ele.

Proselitismo como obstáculo ao diálogo

No Sínodo, a maioria dos participantes mostrou, pelo menos em público, uma certa abertura aos evangélicos, como um venezuelano que declarou perante os outros Padres sinodais que “é melhor que os amazônicos sejam evangelizados por essas Igrejas do que por ninguém”.

Mas essa opinião não é unânime.

Muitos dos que passaram pelas Igrejas pentecostais acabaram desistindo e se tornaram indiferentes à religião no Brasil, disse Dom Carlo Verzeletti, bispo de Castanhal, Brasil.  “Nesse caso, é melhor nada do que os evangélicos!”, acrescentou Dom Verzeletti.

Esse brasileiro reconheceu a boa vontade dos participantes evangélicos no Sínodo, mas garantiu que eles são apenas uma minoria sensibilizada para os benefícios de um diálogo. “Localmente, não é fácil trabalhar juntos. Esses pastores podem ser muito proselitistas e fechados. Às vezes, os nossos padres conseguem conversar com eles, mas essa não é a norma”, disse Dom Verzeletti.

A sensível questão da ecologia

No entanto, alguns acreditam nisso, como a Relep (Rede Latino-Americana de Estudos Pentecostais), um fórum para pesquisadores pentecostais e católicos de 15 países da América Latina, que defende a sensível questão da ecologia.

O presidente brasileiro Jair Bolsonaro, um franco opositor do ambiente, foi eleito por causa de uma parcela sem precedentes de “votos evangélicos”. Atualmente, vários pastores são membros do Parlamento ou fazem parte do governo brasileiro.

“A visão cósmica do pentecostalismo, que anuncia o retorno iminente de Jesus Cristo, tende a desviar meus seguidores das preocupações ecológicas”, disse o pastor Carvalho.

Também membro da Relep, esse religioso de 40 anos quer acreditar que a ecologia integral acabará reunindo evangélicos e católicos na Amazônia.

“As questões teológicas favoreceram a divisão, mas a proteção da casa comum, assim como a oposição ao aborto, provavelmente nos unirá”, disse o pastor Carvalho.

Ao retornar ao Brasil após as três semanas do Sínodo, o pastor assegura que ele estará “verdadeiramente sensibilizado” e se sentirá “mais legitimado” para abordar essas questões com os seus fiéis da Igreja Assembleia de Deus.

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