Francisco para James Alison: “Quero que caminhes com plena liberdade interior”

Foto: Phil Richards | Flickr - CC

30 Setembro 2019

No livro Sodoma, sucesso internacional de vendas, Frédéric Martel revela que há alguns anos o Papa Francisco telefonou para um destacado padre e teólogo gay a quem tinham proibido de lecionar, pregar ou presidir os sacramentos, ordem vinda do Vaticano. Pedimos ao religioso que nos desse a sua versão dos fatos.

O artigo é de James Alison, padre e teólogo, publicado por Religión Digital, 27-08-2019. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

A história começa em 1994. Já com seis anos de ordenação, estava claro para mim que eu não poderia continuar fingindo que havia algo de mal no amor pelo mesmo sexo. Finalmente, a criança aterrorizada que aceitara a ideia oficial de que era portador de algo objetivamente desordenado – e que, por isso, o celibato era obrigação – estava começando a chegar à idade adulta.

Depois que percebi isso, várias outras ideias ocorreram. A primeira é que todo voto ou promessa feito quando uma parte mente à outra é nulo. E, nesse caso, a autoridade eclesiástica havia mentido para mim, como para muitos outros, sobre aquilo que somos. Embora pessoas como eu possamos nos arrepender de ter permitido que uma mentira como essa tenha se formado na nossa alma, infelizmente as congregações romanas não têm a capacidade nem de contemplar nem de ratificar a sua falsidade.

Ao mesmo tempo, sabia que se quisesse ser teólogo (o meu sonho era ser professor de seminário, como o meu adorado orientador de pós-graduação, o jesuíta recentemente falecido Ulpiano Vázquez Moro) não o seria sem me fazer cúmplice da mentira. E que valor tem em ser um teólogo que prepara os demais para o sacerdócio, se tanto o meu exemplo como o meu ensino estão atados à mentira e ao silêncio com respeito a uma condição importante entre nós? E, por outro lado, que valor tem fora da estrutura eclesiástica um teólogo confessional leal, mas que busca falar a verdade neste campo? Em ambos os casos, o valor é zero.

De modo que a perda foi total. E saltei para o vazio, caindo do mundo eclesiástico que amava e dentro do qual esperei viver, para o mar de “buscar a minha vida”.

Lutei contra uma crise psicológica e o desemprego para sair do infantilismo econômico no qual os membros clericais tão facilmente nos iniciam. Consciente de ter sido um hóspede, e não um membro, dos dominicanos (e só tenho gratidão pela hospitalidade, pela formação e pelas tantas amizades duradouras que me brindaram!), escrevi à Congregação para os Sacramentos contando a história, explicando a nulidade dos meus votos e promessas, e oferecendo-lhes, se bem lhes aprouvesse, anular a minha ordenação. Passados alguns meses, chegou uma nota de três linhas confirmando a validez de minha ordenação, mas pedindo-me que solicitasse a laicização. Como a fórmula para pedi-la também obrigava a mentir, e seguindo o conselho de um canonista, eu não disse nada, e eles tampouco me voltaram a escrever.

James Alison (Foto: Religión Digital)

Enquanto isso, bem lentamente, na medida em que superava a situação de depressão por que passei, com um contínuo bater de dentes, e graças ao apoio de amigos leigos, passei novamente a me tornar teologicamente produtivo. E, com o tempo, ousei presidir e pregar quando me convidavam diferentes grupos, todos os quais tendo ciência suficiente para não se escandalizar. Fui aprendendo como me comportar corretamente como padre: em caso de dúvida, não causar escândalo, e que isso era mais fácil do que se supunha, posto que aqueles aos quais um sacerdote e teólogo abertamente gay poderia escandalizar era muito pouco provável que me convidassem a presidir.

Tentei me encontrar com bispos e cardeais que pudessem resolver o meu status canônico, mas invariavelmente se recusaram a uma conversa. Mais de um falou que seria imprudente ele ser visto em minha companhia. Muitas cartas ficaram sem resposta. Um ou outro prelado mais amável teve a bondade de conversar comigo, sendo franco ao reconhecer que nada poderia fazer.

Mais de dez anos se passaram. Chegou a hora de um superior dominicano pouco escrupuloso me perguntar se me oporia a buscar a minha dispensa de pertença à ordem religiosa. Naturalmente, não me opus ao resultado do processo, pois fazia anos que vinha explicando que a minha pertença era nula.

No entanto, não pude participar do processo, pois isso me obrigaria a fingir que existia algo do qual dispensar. Felizmente, este não era um problema para o superior, pois ele só precisava que eu recebesse a notificação do processo, e não o meu consentimento com alguma parte dele. Gentilmente, ele explicou às autoridades vaticanas que eu apresentei razões de consciência. Depois de alguns meses chegou o documento, confirmando que nem os dominicanos nem eu tínhamos alguma obrigação entre nós. E, ainda sim, que eu seguia sendo padre, em bom estado, mas sem estar incardinado; apto, todavia, para tanto desde que algum bispo tenha a ousadia de me receber.

Alguns anos depois me encontrava morando no Brasil, acompanhando um apostolado LGBT nascente. Uma tentativa de correspondência com o cardeal local não obteve resposta. Mais tarde ele me citou, porque uma entrevista que eu dera a um periódico apareceu muito próximo de um editorial um tanto infeliz que ele escrevera para coincidir com o Orgulho Gay.

Aceitou que não havia tentado ofuscar a publicação, que havia estado fora do país e que ignorava os planos do periódico. Mesmo assim, foi contundente em seu desejo de que eu fosse laicizado, para o qual necessitava do meu consentimento, coisa que não lhe dei. Em reunião posterior, confrontado pela mesma exigência, ofereci-lhe que me incardinasse na arquidiocese se assim o quisesse – o que lhe daria um certo controle sobre mim. Essa oferta foi imediatamente rechaçada.

Pouco depois, e já entrando no atual pontificado, o cardeal invocou uma mudança recente no direito canônico e iniciou um processo de laicização forçada. Aparentemente, a mudança foi pensada para permitir aos bispos limparem de suas listas os sacerdotes que haviam saído da Igreja para se casar, sem solucionar a questão da documentação, e que não contestavam as cartas que lhes eram dirigidas sobre o assunto. Não era o meu caso.

James Alison com uma pastora (Foto: Religión Digital)

Pouco mais de um ano depois, recebo uma carta em latim da Congregação para o Clero informando-me que haviam me laicizado forçadamente e que estava proibido de ensinar, pregar ou presidir. E que a sentença era inapelável. Ora, até para alguém como eu, predisposto a atribuir um certo ar kafkiano aos procedimentos vaticanos, foi chocante me ver tangencialmente num processo no qual não era necessário informar o processado das acusações contra si.

Também não houve a intervenção de um advogado de defesa, e inclusive a sentença final não necessitou ser assinada pelo sentenciado. Eu tinha elementos preparados para enfrentar as veleidades legais e sabia, pelo menos comigo mesmo, que não devia permitir que tamanha violência me afetasse. Entretanto, a mensagem da Congregação foi avassaladora: “O seu ministério sacerdotal não vale nada”, e isso me levou a uma profunda depressão.

Alguns meses depois, ainda abalado, tive a oportunidade de compartilhar o assunto com o meu mestre de noviciado, hoje bispo. E a sua reação foi imediata: “É um absurdo, és o tipo de gente que a Igreja mais necessita nestes tempos”. Não escrevas ao papa, pois nunca chegará a ele, pelos filtros. Vou solicitar uma audiência privada, e eu mesmo lhe pedirei que resolva”.

Um ano e meio depois, o bispo foi recebido em uma audiência privada. Levava consigo uma carta minha recorrendo ao que a Congregação havia chamado de inapelável. A carta assinalava que todo o processo cheirava àquele “curialismo autorreferencial” tantas vezes criticado por Francisco. E que eu estava fazendo exatamente aquilo que ele nos instigava a fazer: evangelizar em uma periferia existencial e “fazer bagunça” ('hacer lio'). Na carta, expus a minha consciência: que não poderia reconciliar aquilo que eu mesmo dizia em público com o escrito no documento em latim que me fora enviado em seu nome. E que me propus a tratar este último como nulo e seguir em frente como antes.

Pedi ao papa que, se possível, regularizasse a minha situação, não como um favor pessoal para mim, mas como uma abertura na Igreja às possibilidades de que os ministros LGBTs possam falar, pregar e evangelizar em primeira pessoa, não mais limitado pelo “eles” enganoso da mendacidade clerical. De modo que, em meio de 2017, a carta chegou a suas mãos. O bispo, amigo meu, me contou mais tarde que a reunião havia sido quente, que o Santo Padre fora compreensivo com as minhas circunstâncias e que havia saído com a confiança de que algo seria feito a respeito.

Para mim, então, seria difícil imaginar algo mais impressionante: o inapelável havia sido apelado à corte mais alta existente. Se nada acontecesse depois, o meu caso permaneceria perpetuamente sob judice. Imaginava que talvez, daqui a alguns anos, receberia uma notificação para me dizer que o assunto recebera a sua devida atenção. E comecei a respirar. Imagine: anos depois da nossa convivência, o meu mestre de noviciado considerou que valia a pena atravessar o oceano e arriscar a sua credibilidade com o Santo Padre no meu caso. Que presente mais extraordinário!

No mesmo período eu já havia explicado a laicização forçada a um par de amigos que me convidavam para palestrar ou presidir em diferentes países. Sugeri abster-me de presidir para que não tivessem problemas por minha causa. Imediatamente e sem perguntas, os dois insistiram que eu presidisse. Disseram que se eu levasse a sério a laicização forçada e o processo antecedente, o escândalo dado pelo comportamento curialista seria muito maior que qualquer escândalo que eu mesmo pudesse causar.

E então veio o telefonema. Domingo, 02-07-2017, por volta das 15h em Roma e Madri. “— Sou eu, o Papa Francisco.” “— Sério?” “— Não, brincadeira, filho.” Mas era ele mesmo. O sotaque argentino, por exemplo. Mas principalmente porque conhecia o conteúdo da minha carta, à qual fez referência enquanto conversava comigo, me convenci de que não se tratava de uma brincadeira de mau gosto.

E então isto: “Quero que caminhes com plena liberdade interior, seguindo no espírito de Jesus. Eu te dou o poder das chaves, me entendes? Te dou o poder das chaves”. Disse que sim, embora estivesse pensando: Como, ó céus, entender o presente incrível que me estavas dando? A conversa continuou, com humor, e até com algumas brincadeiras ao falar de amigos conhecidos que temos em comum. No fundo, música de ópera lírica. Procurei reconhecê-la, em vão. Depois de ter me pedido discrição e para não causar problemas para os bons bispos, terminou dizendo: “Reza por mim. Buscarei o seu dossiê e me colocarei novamente em contato contigo”.

Qual seria o significado dessa graça extraordinária? Para mim e para outros? Pelo menos, significa que a fonte da ordem canônica não estava vinculada à sentença de sua própria Congregação, pois ele me tratou como um sacerdote, dando-me jurisdição universal para ouvir confissões (algo que também fez, creio eu, aos missionários enviados durante o Jubileu da Misericórdia). Além disso, estava confiando em mim para agir com liberdade, para me tornar, de maneira responsável, o padre que tinha estado em desenvolvimento durante todos estes anos. Que, pela primeira vez em minha vida na Igreja, um adulto me tratou com adulto, e Santo Deus! Tinha que ser o próprio papa quem agiria assim!

Mais recentemente tive o privilégio de consultar um distinto canonista sobre o significado disto: o ato imediato do Ordinário Universal enviando-me como um tipo de sacerdote clandestino da misericórdia. Ele riu e me disse: “Canonicamente não tem sentido algum, mas... ele, sim, faz estas coisas”. Realmente, senti uma grande felicidade ao ver que, para este canonista de altíssimo nível, mais que o preocupar, o encantou a liberdade do Santo Padre, com a sugestão adicional de que não sou, de forma alguma, o único a ter recebido um telefonema libertador de um número oculto.

E quanto aos outros tantos irmãos, mais merecedores que eu? Que tal um jubileu da honestidade para o clero, inaugurado com a anistia a todos os que tenham uma vida dupla desde que não seja abusiva nem criminosa? Que tal uma formação clerical que busque, como eixo principal, haver-se com quem é honesto consigo mesmo, e que os formadores a pratiquem a honestidade em primeiro lugar? Que tal os bispos receberem cinco anos para aprender a superar a incapacidade de discernir e negociar com aqueles que têm vidas reais, ministérios reais a favor das pessoas reais com quem se comprometeram? Que tal não mais falar da crise vocações, pondo, por outro lado, o foco ali onde verdadeiramente ela se encontra: uma crise de discernimento alimentada pelos que se fecham em um sistema de mentalidade que se retroalimenta?

Trinta anos de sacerdócio, e sinto que só agora ele começa a se fazer efetivo. E ao ter recebido tamanha liberdade, como exercer o ministério daqui para frente? Com quem e para quem? A quem prestar contas de maneira responsável?

O Papa Francisco, entre outros, observou que não estamos em uma época de mudanças, mas em uma mudança de época. Como será o ministério na Igreja que nasce? Como será a maneira e o estilo de ensinar? Qual será o paradigma básico da fé e da vida compartilhada? Isso tudo está no ar de uma forma que nunca poderia ter imaginado o jovem aterrorizado e de formação clássica prostrado em seu chão frio de julho de 1988. Estava cheio de certezas e esperava certa segurança emocional na vida, e em vez disso o Espírito Santo deu-lhe um salto de 30 anos em direção à vida adulta.

 

 

 

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