Caso Pell: preconceito ou realidade?

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22 Agosto 2019

Embora o recurso do cardeal australiano George Pell em relação a uma condenação por acusações de abuso sexual infantil tenha sido rejeitado nesta quarta-feira, essa decisão pode não ser o fim do processo legal. No momento em que escrevo, os advogados de Pell ainda estavam avaliando se deveriam apresentar um recurso final à Suprema Corte da Austrália.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 21-08-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Esses advogados disseram aos repórteres que Pell continua defendendo sua inocência, como ele fez desde que as acusações se tornaram públicas em junho de 2017.

Embora a odisseia judicial de Pell possa não ter terminado, a decisão desta quarta-feira provavelmente representa a última palavra em relação a outro aspecto do caso: George Pell agora é oficialmente o Alfred Dreyfus da crise dos abusos católicos, no sentido de que as opiniões sobre a sua culpa ou inocência são pelo menos tanto um reflexo das convicções ideológicas de cada um, quanto da evidência real sobre o caso.

Dreyfus, é claro, era o oficial da artilharia francesa de ascendência judaica acusado de traição em 1894 por supostamente ter passado segredos militares para os alemães, passando cinco anos na Ilha do Diabo. Dreyfus finalmente foi absolvido e reintegrado à sua posição no Exército, mas, por mais de uma década, as opiniões sobre a sua culpa ou inocência funcionaram como um indicador das tensões políticas e culturais mais amplas, colocando os “anti-Dreyfusianos” católicos e tradicionalistas contra os liberais pró-republicanos e anticlericais.

Aliás, com a mesma facilidade, poderíamos comparar Pell com Alger Hiss, o diplomata norte-americano urbano acusado em 1948 de ser um espião soviético. Assim como Pell, Hiss foi julgado duas vezes, e o primeiro julgamento acabou com um júri suspenso, e o segundo resultou em uma condenação. Também nesse caso, as opiniões por muito tempo tiveram muito mais a ver com o choque entre belicistas e pacifistas durante a Guerra Fria do que com os fatos.

Da mesma forma, as opiniões sobre Pell hoje geralmente revelam muito mais sobre os preconceitos do observador do que sobre a verdadeira realidade do que ocorreu.

Os mais indignados com a crise dos abusos clericais, geralmente convencidos de que a Igreja é corrupta e está ansiosa para ver altas autoridades como Pell responsabilizadas, assumiram a culpa de Pell desde o começo e estão comemorando o resultado desta quarta-feira.

“A decisão de hoje da Corte de Apelação de Victoria é um divisor de águas, um sinal de progresso que deveria dar esperança a todas as vítimas”, disse Anne Barrett Doyle, do grupo ativista BishopAccountability.org.

O Papa Francisco, disse Barrett Doyle, “deveria agir rapidamente agora para condenar e penalizar Pell, removendo-o do Colégio dos Cardeais e laicizando-o”.

No entanto, há uma parte considerável da opinião católica, que não se restringe ao Vaticano ou aos bispos australianos, mas que tem uma pegada significativa no nível da base em todo o mundo, que tem estado igualmente convencida desde o início de que Pell é inocente e que continuará assim hoje.

Esse grupo acredita que a evidência no caso de Pell é basicamente inacreditável. Eles acham tão inacreditável, a ponto de ser quase surreal, a ideia de que um arcebispo, durante uma missa dominical, em sua própria catedral, poderia escapar sozinho de uma procissão, entrar em uma sacristia altamente transitada e abusar de dois jovens membros do coro sem ser visto por ninguém e apesar de estar usando as vestes litúrgicas que tornariam os atos físicos envolvidos quase impossíveis, e depois ressurgir e cumprimentar os fiéis do lado de fora como se nada tivesse acontecido.

Para esse grupo, o fato de Pell nunca ter ser acusado, muito menos ter sido julgado e condenado, fala muito mais sobre uma atitude de linchamento na Austrália do que sobre a credibilidade da acusação.

Recentemente, um artista australiano pintou um mural de Pell algemado, com Satanás atrás dele em um viaduto sobre uma movimentada rua romana perto do Vaticano. Acontece que o mural estava localizado do outro lado da rua da paróquia que às vezes eu frequento na missa dominical, por isso eu perguntei a um dos sacerdotes o que ele achava disso.

“É nojento”, disse-me esse franciscano italiano. “É inacreditável que o sistema australiano de justiça permita que as coisas cheguem tão longe (...) Essas acusações nem poderiam ser levadas a julgamento em qualquer outro lugar, porque são apenas ridículas.”

Aliás, esse padre não tem qualquer relação com o Vaticano e nunca se encontrou com George Pell. Ele é simplesmente um pároco que sabe como as coisas funcionam em uma catedral movimentada em um domingo, para quem essas alegações não passam pelo “teste do faro”.

É difícil saber que novo desdobramento ou nova evidência pode preencher esse abismo. De agora em diante, George Pell provavelmente será um símbolo de arrogância e de culpabilidade clericais para alguns, e um conto preventivo sobre histeria e falsas acusações para outros.

Quanto ao destino de Pell em relação à Igreja, as probabilidades são de que nenhuma decisão final será tomada sobre tirar o barrete vermelho de Pell ou sobre expulsá-lo do sacerdócio até sabermos se ele planeja um novo recurso à Suprema Corte. É isso, aliás, que distingue o caso de Pell em comparação com o do ex-cardeal e ex-padre Theodore McCarrick, uma vez que poucos católicos expressaram muitas dúvidas sobre a veracidade dos relatos da má conduta de McCarrick.

Na manhã dessa quarta-feira, o porta-voz do Vaticano, Matteo Bruni, repetiu o respeito da Santa Sé pelo sistema judiciário australiano, acrescentando que Pell “sempre defendeu sua inocência durante todo o processo judicial e tem o direito de recorrer à Suprema Corte”.

O que a declaração não disse, mas que é grande parte do subtexto, é que há pessoas importantes na equipe do papa que podem ser de pouco uso para George Pell política ou pessoalmente, mas que também não acreditam que ele seja culpado dessas acusações.

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