A presença das religiões hoje: ocupação ou visibilidade?

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14 Agosto 2019

“Na Europa contemporânea, a religião e as formas da sua presença gozam de uma taxa inédita de visibilidade, sem que isso signifique necessariamente a sua correspondente extensão pervasiva nas tramas do viver juntos dos cidadãos europeus. Ao contrário.”

O comentário é do teólogo, jornalista e padre dehoniano italiano Lorenzo Prezzi e do teólogo italiano Marcello Neri, professor da Universidade de Flensburg, na Alemanha, em artigo publicado por Settimana News, 11-08-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Uma das razões pelas quais custamos compreender e interpretar adequadamente as presenças da religião na Europa contemporânea se deve ao fato de continuarmos lendo estas últimas com categorias tipicamente modernas, já superadas pela reconfiguração geral das formas civis, políticas e culturais das vivências humanas e da coexistência entre muitos.

Em particular, obstinamo-nos em enquadrar a religião e os seus muitos fenômenos dentro de um léxico conceitual que tem a ver principalmente com o espaço; e, portanto, com a ocupação, a extensão, a localização. Precisamente em virtude desse mal-entendido, as presenças atuais da religião parecem ter uma preocupante pervasividade com relação a todo o âmbito social. Quando, na realidade, as coisas são diferentes.

De fato, a religião e os seus fenômenos mostraram uma surpreendente capacidade de adaptação e de usufruto dos processos de globalização e de virtualização do ambiente humano de vida e de relação. Dentro desses novos códigos, as presenças da religião não têm tanto a ver com o espaço e a sua ocupação mais ou menos indevida; ao contrário, têm que ver principalmente com a visibilidade – e, portanto, com toda aquela dimensão complexa da imagem e do imaginário.

Na Europa contemporânea, a religião e as formas da sua presença gozam de uma taxa inédita de visibilidade, sem que isso signifique necessariamente a sua correspondente extensão pervasiva nas tramas do viver juntos dos cidadãos europeus. Ao contrário.

Porque, em um regime de virtualização e globalização, uma alta taxa de visibilidade não corresponde a uma especular presença efetiva e real do fenômeno. Dito em uma frase: de acordo com a ordem da visibilidade, hoje, a religião é algo extremamente difuso, no exato momento em que – de acordo com a ordem do espaço – ela é substancialmente irrelevante e marginal.

O grande encanto de que sofre grande parte da interpretação europeia das presenças da religião entre nós sofre é o de confundir a visibilidade (dos fenômenos religiosos) com a ocupação desproporcional de amplas áreas da coexistência humana. Reagindo de maneira consequente, ou seja, invocando um controle maior com relação às penetrações (consideradas indevidas) da religião no espaço público europeu.

O problema, justamente, é que as presenças atuais da religião ocorrem e se desdobram em outros lugares em relação com a dimensão espacial do nosso viver juntos na Europa. Por isso, não conseguimos mais nem instruir uma gestão adequada do religioso em relação às instituições civis e políticas, nem fazer com que as religiões joguem como aliadas significativas do projeto europeu.

O simulacro total

Enquanto organizamos espaços, elas deslizam como imagens. Com todas as consequências dessa lacuna. Como uma questão de visibilidade, as presenças da religião na Europa de hoje se implementam completamente na ordem da imagem e se esgotam nela.

O aspecto mais importante desse deslizamento do espacial ao visível é o da desvinculação da imagem em relação a qualquer referente real e a qualquer referência à realidade das coisas. Ou seja, hoje, a imagem simplesmente remete a outras imagens, gerando a partir de si mesma, todas as vezes, de novo, a virtualidade e a arbitrariedade dessa referência. Em suma, a imagem é hoje substancialmente um simulacro (imagem de imagens).

E, com ela, a religião completamente colocada do lado da pura visibilidade também é um simulacro. A astúcia dos políticos parece ter compreendido essa mudança de paradigma muito mais rapidamente e melhor do que o escrúpulo dos teólogos e da camada clerical das religiões. O recurso programático de [Matteo] Salvini ao terço e à Nossa Senhora, incluindo orações e devoções midiáticas várias, insere-se precisamente na redução do simbólico religioso cristão a simulacro desvinculado de toda realidade.

Como imagens de imagens, o terço e a Nossa Senhora podem ser usados à vontade na sua função de simulacro, fazendo acreditar que se trata precisamente deles quando, na realidade, trata-se de algo totalmente diferente. Nós imaginamos que, na visibilidade desses gestos ostensivos, trata-se de religião, e nos afanamos a instruir um (vão) contraditório como se se tratasse precisamente isso.

E é exatamente a isso que visa a utilização como simulacro dos grandes símbolos cristãos posta em campo por Salvini e por vários aliados em giro por toda a Europa. Paradoxalmente, é justamente a (necessária) crítica a esse uso do símbolo religioso que o legitima para além da sua função de puro simulacro.

A ingênua honestidade com que a fé sincera acaba legitimando o uso mais distorcido e instrumental do seu patrimônio simbólico e devocional se deve, precisamente, à incapacidade de compreender todas as implicações da passagem da religião da dimensão da espacialidade para a da visibilidade. Como visibilidade da imagem de imagens, a religião funciona de modo completamente diferente em relação ao seu ancoramento espacial e à sua localização territorial.

O fim da distinção dos âmbitos

Desvinculada do espaço e do seu vínculo com os territórios da existência humana, a religião se torna, de certo modo, sem fronteiras. Ou seja, perde aqueles limites e fronteiras aos quais estávamos acostumados durante toda a era moderna e ao longo dos seus últimos resultados pós-modernos. E a religião faz isso de muitas maneiras.

Em primeiro lugar, não estando mais vinculada espacialmente, cai para a religião e para as suas presenças qualquer distinção e separação de âmbitos (entre religioso ou não). Argumentar a respeito desse fenômeno epocal com as categorias aptas a preservar o espaço público de ocupações indevidas pelo religioso não funciona mais – sobretudo porque é esse mesmo espaço que se transformou, ele também, em arena virtual da pura simulação imaginária.

Do mesmo modo, a criação virtual de distinções de espaços e âmbitos só pode ser destinada à produção de mais um simulacro que não existe em lugar algum – com todo o respeito aos últimos epígonos de qualquer ordenamento da separação (que podia funcionar no espaço, mas é totalmente ineficaz quando se trata de visibilidade).

Esse é o registro que nos permite compreender um dos jogos mais ferozes que estão sendo jogados nos cenários mundiais. A dura oposição concertada pelo lobby estadunidense do poder econômico e financeiro neoliberal contra o Papa Francisco, tachado de conduzir a Igreja Católica para além dos limites da sua lícita atuação, não tem nada a ver com uma preocupação, mesmo que remota, com a salvaguarda da essência do catolicismo e da Igreja.

Essa oposição parte da lúcida consciência de que hoje não é mais possível relegar o religioso a uma dimensão própria e separada de todo o restante; e, portanto, é necessário provocar e favorecer uma forma de religião que seja funcional aos interesses lobistas do poder econômico-financeiro.

Correspondentemente, Francisco joga o seu jogo sobre o futuro da Igreja Católica muito além das fronteiras tradicionais da atuação eclesial, porque ele entendeu lucidamente que, ao se relegar para dentro delas, o catolicismo está destinado a se extinguir precisamente no seu valor religioso.

Para a nova besta das potências mundanas, essa obra religiosa da Igreja para além da própria Igreja é totalmente insuportável, porque desce ao terreno em que ela é capaz de pôr em discussão a licitude e a legitimidade da monopolização total do poder.

É provável que a classe conservadora eclesiástica, que se consignou à aliança com o lobby neoliberal para reconduzir a Igreja Católica ao puramente religioso (isto é, ao nada, porque algo semelhante hoje não existe mais), esteja ingenuamente inconsciente da instrumentalização a que se disponibilizou com tanta leveza e inescrupulosidade. Tornando-se, enfim, ela também, um mero simulacro da custódia da reta fé eclesial.

As Igrejas e a Europa

A Europa, tanto na sua acepção cultural quanto na institucional da União, não parece ser atualmente capaz de governar fecundamente esses profundos processos de transformação da religião e das suas presenças. E é dentro desse inédito epocal que se prospecta uma tarefa nova, civil e religiosa ao mesmo tempo, e sem distinção, para os dois grandes cristianismos ocidentais.

Cabe a eles o dever de acompanhar e de arrastar o fim da institucionalização (moderna) da religião e dos seus fenômenos de acordo com os parâmetros que recebemos do melhor dos processos constitucionais europeus. Isso significa comprometer-se a imaginar novas formas de relação entre o Estado europeu e a prática religiosa da vida cotidiana dos homens e das mulheres.

Certamente, trata-se de navegar em águas totalmente inexploradas, nas quais os cristianismos, por um trecho, terão a tarefa de assumir uma função vicária tanto em relação às outras religiões (em particular o Islã), quanto às grandes instituições do direito europeu, para projetar as coordenadas não espaciais e não territoriais de um novo acordo amigável entre as fés e as vivências humanas.

Isso significa despedir-se de formas de pacto bilaterais que ainda garantem muito tanto às Igrejas quanto aos Estados europeus. Mas precisamente se trata de uma garantia não só já evanescente, mas também esvaziada de uma força efetiva sobre a realidade dos fenômenos religiosos que caracterizam a coexistência humana europeia.

No antigo tesouro do cristianismo, encontra-se a possibilidade de uma universalidade não territorial e não hegemônica, sobre a qual é possível lançar as bases de um novo modelo de articulação civil das presenças da religião na vida cotidiana europeia. É essencial que ambos os cristianismos ocidentais deem as mãos nessa obra e não façam isso por si mesmos – desenhando, precisamente, o sentido genuinamente vicário da sua colaboração na edificação da Europa por vir.

Portanto, trata-se, para ambas as Igrejas cristãs, de um itinerário de aprendizado inédito das presenças da religião para além dos limites confessionais e territoriais de viver e do crer.

Uma obra ao longo da qual os cristianismos, sem sujeição e criticamente, devem olhar continuamente para as instituições do direito, a fim de conduzir também este último para fora dos baixios em que encalhou por causa de uma aplicação, muitas vezes ideologicamente indevida, do seu próprio instrumentário.

Política das emoções versus racionalidade humanista do Evangelho

De um modo mais intuitivo do que programático, mas isso está nas cordas do homem, é exatamente nesse sentido que o Papa Francisco está tentando impulsionar a “máquina” da Igreja Católica, envolvendo-a em um exercício constante em favor do humano que é comum a todos – sem se perder em excessivas preocupações de aparato para si mesma.

O regime da pura visibilidade instruído pelo simulacro total levou ao esgotamento de toda eficácia atribuível à racionalidade política, instruindo uma ordem política que se alimenta de emoções produzidas virtualmente. As derivas do sistema que resultam disso são dramaticamente perceptíveis tanto dentro do corpo europeu dos Estados quanto fora dele.

A radicalização evangélica do posicionamento da Igreja Católica, desenhado por Francisco diante dessa aura impalpável e ingovernável de uma política das puras emoções, aspira a oferecer uma margem não irracional na estação do fim da racionalidade política moderna. E faz isso pondo em campo aquela racionalidade afetiva e profundamente humanista inscrita nos gestos e nas atitudes do Evangelho do Deus de Jesus.

A ultrapassagem contínua, esta sim programática, das claras fronteiras institucionais, religiosas e confessionais (desde sempre afirmada no Evangelho como paixão de Deus pela redenção do humano) visa a assegurar publicamente o caráter não hegemônico dessa função vicária da fé cristã em favor de todos – sem qualquer exclusão.

Para fazer isso, não há ponto de partida possível senão o das margens e dos excluídos, dos derrotados e dos esquecidos produzidos pelas potências mundanas que monopolizaram e escravizaram o humano aos seus interesses. Na convicção de que, se trabalharmos e lutarmos por eles, faremos isso por todos – principalmente por aqueles que virão depois de nós.

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